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O dia em que Bagé viu renascer o gaúcho da Revolução Farroupilha
por Redação JM
Em fevereiro de 1978, os moradores de Bagé viram surgir na Avenida Sete de Setembro uma cena que parecia deslocada no tempo. Quinze cavaleiros avançavam em formação de ponta de lança, montados em cavalos cuidadosamente preparados, portando lanças, esporas nazarenas, chiripás, chapéus pança de burro, botas de potro e arreios reproduzidos a partir de peças históricas. O grupo chamava-se Yaguaretés (grafia adotada por seus integrantes a partir da palavra tupi-guarani que designa a onça) e apresentava ao público uma reconstrução da indumentária utilizada pelos gaúchos da época da Revolução Farroupilha.
O que o público não sabia era que aquela aparição havia sido precedida por quase dois anos de pesquisas, viagens, buscas por materiais raros, trabalho artesanal e um esforço coletivo conduzido longe dos holofotes. A iniciativa nasceu da inquietação de um grupo de amigos que compartilhava duas paixões: a música e a cultura campeira.
Entre eles estavam o escritor, músico e pesquisador Eron Vaz Mattos, o veterinário Luiz Felipe Alfonso Pereira, conhecido como Pepe, Elias Rodrigues da Silva, Ney Madruga Vaz e Pedro Almeida da Silva. A amizade entre eles começou no início da década de 1970, quando Eron conheceu Felipe Pereira durante uma festa campeira realizada no boliche de Adaíl Jacinto, na Costa do São Luís, região de fronteira com o Uruguai.
A convivência transformou-se rapidamente em parceria permanente. Além das apresentações musicais, o grupo frequentava rodeios, carreiras, pescarias, acampamentos, bailes, casamentos e festividades rurais. Quando estavam na cidade, reuniam-se no galpão de Eron para conversar sobre história, costumes e tradições do gaúcho.
Foi nesse ambiente que surgiu a proposta que mudaria a trajetória do grupo. “Vamos resgatar a indumentária do gaúcho farroupilha”, sugeriu Luiz Felipe Pereira. E segundo Eron, ninguém tinha dimensão do trabalho que aquela ideia exigiria.
Em busca da indumentária original
A primeira etapa foi dedicada à pesquisa histórica. Os integrantes percorreram bibliotecas, museus e acervos de várias cidades do Rio Grande do Sul em busca de referências confiáveis sobre vestimentas, equipamentos e utensílios utilizados durante o período farroupilha.
Dois estudiosos de Bagé tiveram papel decisivo nesse processo: Átila Sá Siqueira e Eduardo Contreras Rodrigues. Ambos auxiliaram o grupo a localizar informações que, na época, eram escassas e pouco sistematizadas.
A busca pela fidelidade histórica levou os Yaguaretés até o Museu Dom Diogo de Souza, em Bagé. Ali encontraram duas peças consideradas fundamentais: uma espora nazarena e uma lança originais, recolhidas na região do Seival, local da batalha onde foi proclamada a República Rio-Grandense em 1836.
O pintor e desenhista Hipólito Osório Pires de Moraes, integrante do grupo, foi encarregado de reproduzir os modelos com exatidão. A partir dos desenhos elaborados por ele, o ferreiro João Mendonça aceitou fabricar quinze pares de esporas nazarenas e quinze lanças.
A difícil busca por materiais desaparecidos
Enquanto isso, outra frente de trabalho se desenvolvia no campo. Para reproduzir a indumentária da época, era necessário obter materiais praticamente inexistentes no comércio da década de 1970. As maiores dificuldades eram conseguir botas de potro e chapéus pança de burro, itens tradicionais do século XIX.
O grupo passou a percorrer propriedades rurais e corredores da campanha sempre que recebia notícia da morte recente de cavalos ou burros. Com autorização dos proprietários, recolhiam o couro necessário para a confecção das peças. “Foi terrível conseguir”, recorda Eron.
Em uma das ocasiões mais produtivas, foram informados sobre três éguas mortas durante uma enchente em uma estância próxima à fronteira uruguaia.
A pesquisa também levou à descoberta de um tecido raro. Em uma antiga loja de Bagé, a Salim Kalil, Eron encontrou uma peça inteira de linho cru em tonalidade natural, considerada ideal para confeccionar os chiripás e as camisas.
O trabalho artesanal por trás da reconstrução
A partir dali, o projeto ganhou a colaboração de duas mulheres fundamentais para sua execução: Tiquita e Tia Lula, mães de integrantes do grupo. Elas assumiram a tarefa de confeccionar quinze camisas, quinze chiripás, quinze ceroulas e outros componentes da vestimenta.
Ao mesmo tempo, artesãos trabalhavam na produção de cintos, rédeas, pescoceiras, maneadores, abotoaduras e demais peças de couro cru.
Até os chapéus exigiram um processo específico. Os integrantes adquiriram toras de eucalipto, moldaram manualmente as extremidades e utilizaram essas formas para reproduzir as copas dos chapéus pança de burro.
Cavalos preparados e segredo absoluto
A preparação dos cavalos também seguiu critérios históricos. A tarefa ficou sob responsabilidade do capataz Agnélio Moreira, conhecido como Grulho, e do campeiro Nelcy Ramos. Eles selecionaram os animais, distribuíram as montarias entre os participantes, realizaram tosas específicas e prepararam todos os arreios utilizados no desfile.
Durante todo o processo, o projeto foi mantido em segredo. Segundo Eron, apenas uma pessoa fora do grupo tinha conhecimento do que estava sendo preparado: Eduardo de Moura, então secretário municipal de Turismo, convidado para acompanhar um dos ensaios realizados na Estância Rincão dos Touros.
Dias antes do evento, os quinze participantes reuniram-se para um ensaio final. Foi naquele momento que definiram a formação em ponta de lança que seria apresentada ao público.
O desfile que surpreendeu Bagé
Na manhã de 19 de fevereiro de 1978, durante a Sétima Semana Crioula Internacional de Bagé, o grupo surgiu de surpresa na cidade.
Pessoas interrompiam suas atividades para observar os cavaleiros. A repercussão chamou a atenção da organização do evento, que convidou os Yaguaretés para abrir oficialmente o desfile.
A formação percorreu a Avenida Sete de Setembro em direção à Associação Rural de Bagé, onde ocorria a programação de encerramento da festa.
Naquele mesmo dia, durante a Missa Crioula celebrada pelo padre Paulo Aripe, alguns integrantes foram convidados a participar da composição do cenário da cerimônia.
O reconhecimento de uma autoridade do tradicionalismo
Entre os presentes estava o pesquisador Glaucus Saraiva, referência nos estudos do tradicionalismo gaúcho.
Segundo o relato de Eron, ao ser convidado para explicar a indumentária apresentada pelos cavaleiros, Saraiva emocionou-se.
Depois de observar as peças e os detalhes históricos reproduzidos pelo grupo, declarou não possuir condições de descrevê-las adequadamente. “Parece mentira. Tenho uma vida inteira de estudos, mas vim aprender com esses moços de Bagé”, recorda Eron ter ouvido do pesquisador.
Quem eram os Yaguaretés
Os integrantes dos Yaguaretés eram Aclicio Zaragoza, Adão Madruga Lucas, Agnélio Moreira, Belmiro Oliveira Vaz, Edelmiro Moreira Paiva, Eron Vaz Mattos, Hildo Fernandes, Hipólito Osório Pires de Moraes, José Domingues, Luiz Carlos Oliveira, Luiz Felipe Alfonso Pereira, Nelci Ramos, Ney Madruga Vaz, Pedro Almeida da Silva e Vanderlei Almeida da Silva.
Segundo registros da época mencionados por Eron, a apresentação foi considerada o primeiro desfile temático realizado no Rio Grande do Sul. Convites chegaram de municípios gaúchos e até de outros países da América do Sul.
O grupo não conseguiu atender às solicitações, mas passou a emprestar a indumentária e os equipamentos para iniciativas semelhantes em cidades como São Gabriel, Piratini e Pinheiro Machado.
Na avaliação de Eron, essa circulação do material contribuiu para o surgimento dos desfiles temáticos que se tornariam comuns nas comemorações farroupilhas das décadas seguintes.
O que restou depois de quase cinco décadas
Quase cinco décadas depois, grande parte das peças originais desapareceu. Algumas foram danificadas pelo tempo. Outras se perderam ao longo dos anos. Restaram fotografias, uma lança, um par de esporas, um cinto e a memória preservada por alguns dos participantes ainda vivos.
Hoje, aos olhos de Eron Vaz Mattos, autor de dezenas de livros e discos dedicados à cultura regional, o trabalho dos Yaguaretés representa mais do que uma reconstituição histórica.
Foi uma tentativa de devolver visibilidade a elementos da cultura gaúcha que, segundo ele, já começavam a desaparecer na década de 1970.
Uma tarefa que exigiu pesquisa, persistência e quase dois anos de preparação para durar apenas algumas horas diante do público.
Mas que acabou deixando marcas que permanecem na memória cultural do Rio Grande do Sul.

