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Machismo e Patriarcado: reflexões históricas sobre as desigualdades de gênero e a resistência feminina

Clarisse Ismério Historiadora, Doutora em História do Brasil. Professora na EEM Dr. Carlos Antônio Kluwe e na Urcamp Coordenadora dos Cursos de Pedagogia e História da Urcamp Integrante da Academia Bajeense de Letras (ABL)

Em 27/06/2026 às 16:00h
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Foto: Divulgação

O machismo é uma das expressões mais persistentes das desigualdades de gênero presentes na sociedade. Mais do que atitudes individuais, ele constitui uma estrutura social e cultural que, historicamente, atribui aos homens posições de poder e privilégio, enquanto limita a participação, a autonomia e o reconhecimento das mulheres.

Segundo a historiadora Gerda Lerner (2019), o machismo está associado à ideologia da supremacia masculina, sustentada por crenças que naturalizam a superioridade dos homens sobre as mulheres. Essas ideias foram construídas ao longo do tempo e incorporadas às instituições sociais, influenciando comportamentos, valores e formas de organização da vida cotidiana.

Nesse contexto, o patriarcado desempenha papel fundamental. Trata-se de um sistema social que mantém a dominação masculina por meio de instituições como a família, a religião, a escola e as leis. Ao longo da história, esse modelo estabeleceu padrões de comportamento que definiram espaços e funções distintas para homens e mulheres, atribuindo às mulheres responsabilidades relacionadas ao cuidado, ao trabalho doméstico e à educação dos filhos, muitas vezes sem reconhecimento social ou econômico.

A invisibilidade feminina também é resultado desse processo histórico. Conforme destaca Michelle Perrot (2007), as mulheres foram frequentemente representadas pelos homens, mas raramente tiveram suas próprias experiências registradas e valorizadas. Da mesma forma, Lerner observa que a narrativa histórica foi construída majoritariamente sob o olhar masculino, relegando as mulheres a papéis secundários.

A educação constitui um exemplo significativo dessa desigualdade. A Lei de 15 de outubro de 1827, que organizou as primeiras escolas do Império brasileiro, estabelecia conteúdos distintos para meninos e meninas. Enquanto os meninos recebiam uma formação mais ampla, as meninas eram direcionadas para conhecimentos considerados necessários à economia doméstica, eram as famosas prendas domésticas. Essa diferenciação evidencia como a sociedade produziu e reforçou expectativas distintas para cada gênero.

Ao longo dos séculos XIX e XX, diferentes discursos sociais contribuíram para consolidar representações femininas idealizadas, como a figura da “rainha do lar”, do “anjo tutelar” ou da mulher naturalmente destinada ao cuidado. Essas imagens foram amplamente difundidas pela educação, pela literatura, pela imprensa e, posteriormente, pelo cinema, influenciando a construção dos papéis sociais femininos.

Entretanto, a história também registra mulheres que desafiaram essas limitações e abriram caminhos para novas gerações. No Rio Grande do Sul, educadoras, escritoras e jornalistas desempenharam papel fundamental na defesa da educação feminina e dos direitos das mulheres. Entre elas destacam-se Luciana de Abreu, Ana Aurora do Amaral Lisboa, Revocata Heloísa de Melo, Julieta de Melo Monteiro e Andradina América de Andrada e Oliveira.

Por meio da imprensa feminista, da literatura e da atuação educacional, essas mulheres questionaram preconceitos, defenderam o acesso à instrução e contribuíram para ampliar a participação feminina na vida pública. Publicações como os jornais O Corymbo (1883-1943) e Escrínio (1899-1910) tornaram-se importantes espaços de reflexão e reivindicação dos direitos das mulheres em uma época marcada por fortes restrições sociais.

Apesar dos avanços conquistados, o machismo continua presente em diferentes ambientes, inclusive no espaço escolar e no mundo do trabalho. Embora as mulheres tenham ampliado significativamente sua participação em diversas áreas profissionais e alcançado elevados níveis de escolarização, ainda enfrentam obstáculos relacionados à valorização de suas competências, à ocupação de cargos de liderança e à equiparação salarial. Em muitas instituições, persiste a ideia de que os homens são naturalmente mais aptos para exercer funções de comando e autoridade, enquanto as mulheres permanecem associadas a atividades de cuidado e apoio.

Essa realidade também se reflete no ambiente educacional. Não raramente, professoras precisam reafirmar constantemente sua autoridade e competência diante de estudantes, famílias e até colegas de trabalho, enquanto professores homens, em determinadas situações, recebem maior respeito e reconhecimento de forma quase automática. Tal situação evidencia como os estereótipos de gênero, construídos historicamente pelo patriarcado, continuam influenciando as relações sociais e educacionais, reproduzindo desigualdades que ainda desafiam a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

Por isso, a escola possui papel essencial na formação de uma cultura baseada no respeito, na igualdade de oportunidades e na valorização da diversidade. Ao promover o pensamento crítico e o reconhecimento das contribuições históricas das mulheres, a educação torna-se um importante instrumento de transformação social.

Portanto, falar sobre machismo é refletir sobre a sociedade que construímos e sobre aquela que desejamos construir. Compreender sua origem histórica permite identificar práticas discriminatórias muitas vezes naturalizadas e promover relações mais justas e igualitárias. Nesse sentido, conhecer a trajetória das mulheres que desafiaram os limites impostos pelo patriarcado constitui não apenas um exercício de memória, mas também um compromisso com a cidadania, a democracia e os direitos humanos.

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