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A descoberta da criança: história da infância e da pediatria

Clarisse Ismério Historiadora, Doutora em História do Brasil. Professora na EEM Dr. Carlos Antônio Kluwe e na Urcamp Coordenadora dos Cursos de Pedagogia e História da Urcamp

Em 25/09/2026 às 16:35h

por Melissa Louçan

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Foto: Reprodução/JM

A história demonstra que, durante muito tempo, não existiu um lugar definido para a criança no meio social e cultural, uma vez que ela permanecia constantemente envolvida e misturada aos adultos em festividades, jogos, passeios e atividades laborais. Na mentalidade do mundo ocidental, a infância era considerada uma fase passageira e sem
importância, um momento transitório que não deveria ser fixado na memória. Segundo Ariès (1981), a sociedade medieval desconhecia a especificidade da infância, tanto que a arte do período representava as crianças como adultos em miniatura.
Apesar dos avanços científicos da Idade Moderna e da mudança da mentalidade teocêntrica para a antropocêntrica, a situação pouco se alterou, e a criança continuou  ocupando um papel secundário na sociedade.
A infância passou a ser efetivamente “descoberta” ao longo do século XIX, por meio do desenvolvimento da medicina e dos cuidados com a saúde, que gradativamente  separaram a criança do universo adulto e a elevaram à condição de figura central da família.
Conforme destaca Margareth Rago (1987), a medicina passou a interessar-se particularmente pelas crianças e pelas mulheres. O mundo assistiu, então, à ascensão da figura do “reizinho da família” e da “rainha do lar”, ambos cercados pelo olhar atento de especialistas empenhados em desvendar o universo infantil e a sexualidade feminina.
Os médicos higienistas passaram a preocupar-se com as elevadas taxas de mortalidade infantil, com o problema do abandono de menores e com a difusão de novos hábitos sociais, visando à formação de gerações futuras mais saudáveis.
No Brasil, a preocupação médica com a preservação da infância manifestou-se desde meados do século XIX e intensificou-se nas primeiras décadas do século XX, período  marcado por profundas transformações sociais decorrentes da industrialização e da consolidação do trabalho livre assalariado. As cidades cresciam rapidamente, sem que
houvesse uma política sanitária eficiente capaz de garantir a saúde pública. Diante desse cenário, os médicos assumiram a tarefa de promover a regeneração física e moral da
população.
Os médicos sanitaristas difundiram a ideia de que a criança representava a riqueza futura das nações. Seus discursos procuravam alertar a sociedade para a gravidade da
infância desamparada e para os altos índices de mortalidade infantil existentes no país.
A preocupação com a mortalidade infantil, com as moléstias e com os fatores que as originavam remetia a questões de ordem moral, social e política. Assim, para garantir uma
geração saudável, era necessário conscientizar a sociedade, os governantes e, principalmente, as mulheres.
Paralelamente, os médicos passaram a orientar a população por meio de artigos publicados na imprensa local, buscando disseminar hábitos de higiene, incentivar a procura
por atendimento profissional em caso de doença e promover os cuidados pré-natais.
Exemplo significativo dessa atuação foram os artigos do Dr. Mario Totta, professor da Faculdade de Medicina e médico da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre,  publicados regularmente no jornal Correio do Povo. Em sua coluna intitulada “Medicina para Todos”, oferecia orientações às futuras mães acerca dos cuidados necessários durante a gestação.
Os conselhos enfatizavam medidas preventivas simples, como higiene adequada, alimentação equilibrada, prática de exercícios físicos e acompanhamento médico.  Totta também destacava a importância da avaliação da bacia da gestante, visando evitar sofrimentos desnecessários durante o parto.
Nesse contexto, os médicos brasileiros passaram a produzir uma vasta literatura dedicada à compreensão da infância, procurando definir suas características, necessidades e etapas de desenvolvimento. Buscavam identificar o que era a criança, como ela deveria ser tratada e educada, difundindo uma nova visão da infância e do papel da sociedade
diante dela.
Surgiu, assim, uma nova produção de saberes científicos voltada para a condição infantil, responsável por estabelecer parâmetros para a percepção social da infância. A pediatria foi introduzida na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, e os conhecimentos da puericultura, praticamente inexistentes como corpo teórico antes de 1890, passaram gradativamente a orientar os cuidados com a criança.
Gradativamente, descobriu-se a melhor maneira de cuidar das crianças e garantir seu desenvolvimento saudável. Formou-se uma ampla literatura médica que tinha a infância
como objeto central de estudo. Esses conhecimentos eram difundidos por meio da imprensa escrita e do atendimento médico nos hospitais.
A imprensa tornou-se uma importante aliada nas campanhas de conscientização dos pais, orientando-os sobre os cuidados infantis e alertando a população para a prevenção de doenças.
Temas como amamentação e alimentação saudável passaram a integrar campanhas publicitárias veiculadas em jornais, revistas e almanaques. A busca por uma geração forte
também implicava a definição de um padrão estético. Naquele período, a robustez física era considerada sinônimo de saúde. Assim, uma criança gorda era vista como uma criança saudável.
As propagandas contribuíam para consolidar uma representação específica da infância, utilizando imagens infantis como modelos a serem seguidos pelas mães. A criança
saudável deveria ser robusta, bem alimentada e criada segundo os preceitos médicos de higiene e alimentação.
Ao mesmo tempo, a imagem da infância passou a ser associada a uma série de produtos destinados especificamente ao público infantil. O mercado passou a produzir
alimentos, produtos de higiene e brinquedos voltados exclusivamente para as crianças.
Surgiu, também, uma estética própria da infância, reforçada por concursos de robustez infantil patrocinados por empresas como a Nestlé. As crianças vencedoras recebiam
produtos da marca durante um ano e tinham sua imagem associada às campanhas publicitárias.
Dessa forma, a criança deixou de ocupar um lugar secundário, oculto sob a sombra do adulto, para assumir posição de destaque tanto no saber científico quanto na sociedade.
Essa verdadeira revolução de costumes contribuiu para a adaptação das instituições médicas e hospitalares às novas concepções e técnicas da pediatria.
A criança passou, então, a constituir objeto privilegiado do olhar científico.

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