Minuano Conecta
As mãos que ajudam a vestir a tradição gaúcha
Costureira, artesã da lã, guasqueiro, cuteleiro e crocheteira mostram como diferentes ofícios mantêm viva a produção artesanal ligada à cultura gaúcha em Bagé
por Miquéli Romero
Quando a Semana Farroupilha chega, a tradição gaúcha ganha forma em ruas, CTGs, rodeios e encontros. A pilcha passa a ocupar ainda mais espaço e, junto com ela, aparecem bombachas, vestidos de prenda, ponchos, boinas, guaiacas, bainhas e facas.
Antes de chegar pronta ao público, porém, cada uma dessas peças passa por um processo que pode levar horas, dias ou até meses. Em Bagé, diferentes artesãos mantêm técnicas que aprenderam com familiares, mestres ou, em alguns casos, pela própria curiosidade. São profissionais que têm outras ocupações, mas encontram no trabalho manual uma fonte de renda, expressão e continuidade de conhecimentos ligados à cultura gaúcha.
Nesta Semana Farroupilha, o Minuano ouviu cinco desses personagens. Com linhas, lã, couro, tecido e aço, eles mostram que, por trás de uma peça pronta, existe muito mais do que matéria-prima.
A boina que “escolheu” Bruna
Moradora do Centro de Bagé, a arquiteta e urbanista Bruna Saraçol, de 44 anos, trabalha em uma empresa com georreferenciamento de imóveis rurais. Paralelamente à profissão, mantém há 17 anos uma relação com o crochê.
Natural de Candiota, veio ainda criança para Bagé e começou a fazer crochê em 2009. No início, a atividade era um hobby, uma forma de ocupar as mãos e desacelerar. Em 2018, porém, o artesanato passou a representar também uma fonte de trabalho.
A produção de boinas surgiu quase por acaso. Bruna fazia diferentes peças, principalmente amigurumis, quando os irmãos pediram que ela criasse uma boina mais estruturada, com tassel. A primeira tentativa não saiu como imaginava, mas foi tentando, desmanchando e refazendo até chegar num modelo que ela gostasse.
Depois das primeiras peças para os irmãos, outras pessoas começaram a encomendar. A procura foi crescendo e Bruna percebeu que havia encontrado uma peça com a qual poderia concentrar seu trabalho. “Eu costumo dizer que a boina me escolheu.”
Uma boina adulta leva, em média, de seis a oito horas para ser produzida, dependendo do tamanho. Se houver bordado, o tempo aumenta.
Bruna utiliza principalmente fios de algodão e dá preferência ao Barroco. Todo o processo é manual, inclusive parte da embalagem. Ela corta o tecido, a mãe costura e, depois, Bruna desenha cada embalagem à mão.
A relação com o crochê começou ainda na infância, quando observava a avó produzir peças para a família. O aprendizado efetivo, entretanto, veio na vida adulta, com a sogra, Rosana.
Hoje, Bruna também compartilha conhecimentos com outros artesãos. A receita que desenvolveu para as boinas, inclusive, é disponibilizada para outras pessoas que querem produzir e comercializar as próprias peças.
A Semana Farroupilha representa um período de maior procura, mas as encomendas acontecem durante todo o ano. Há clientes que utilizam as boinas no cotidiano, que compram para crianças ou para presentear.
Alguns pedidos também se transformaram em relações duradouras. Há clientes que começaram comprando uma boina para si e, anos depois, voltaram para encomendar peças para os filhos. “Tenho clientes que compraram uma boina para eles, depois tiveram filhos e hoje eu faço peças para a família toda.”
A lã que começa a ser preparada no verão
No bairro Popular, a artesã Maria Ceni Oliveira, de 70 anos, começa cedo. Por volta das 6h, já está trabalhando. Natural de São Gabriel e moradora de Bagé há mais de 40 anos, ela dedica-se à lã crua desde os 14 anos.
São 56 anos de experiência, conhecimento que aprendeu com a mãe e que continua colocando em prática diariamente.
Maria trabalha praticamente sozinha em todas as etapas. A matéria-prima chega por meio de trabalhos que realiza, trocas e também doações. Depois, começa um processo que passa pela lavagem, abertura, cardagem, fiação e tecelagem.
O trabalho exige tempo e planejamento. Para abastecer a produção do inverno, Maria começa a preparar a lã ainda durante o verão. A estação facilita uma das etapas fundamentais: a lavagem e a secagem do material. Um poncho, por exemplo, pode levar aproximadamente 12 dias para ser produzido.
O resultado são peças como ponchos, casacos e blusões, procurados tanto por moradores da zona rural quanto por pessoas da cidade.
A Semana Farroupilha aumenta o movimento. Segundo Maria, quando setembro chega, “a gauchada toda quer peças novas”. Mas a procura não fica restrita ao período.
A artesã comercializa seus produtos na Coobart, Cooperativa Bageense dos Artesãos, no Coreto e em feiras. Também atende turistas que visitam Bagé e clientes de outras cidades que levam suas peças quando passam pelo município.
Assim, o trabalho que começa meses antes do inverno continua durante o ano inteiro.
A costura que atravessa gerações
Coincidência ou não, moradora do mesmo bairro, Popular, Ângela Techera, de 61 anos, conhecida como “Castelhana”, também carrega uma história familiar na sua trajetória.
Natural de Montevidéu, no Uruguai, mora em Bagé há 41 anos e, há três décadas, dedica-se à costura. Aprendeu a costurar com a mãe, ofício que foi passado também pela avó.
Ângela começou produzindo diferentes tipos de roupas. A entrada na indumentária gaúcha aconteceu quando percebeu uma procura significativa na cidade. A experiência adquirida com a confecção de roupas também facilitou a adaptação ao vestuário tradicionalista.
Uma bombacha pode ser confeccionada em aproximadamente um dia. Já um vestido de prenda exige outro nível de dedicação. “É um trabalho daqueles”, resume Ângela, destacando a quantidade de detalhes e o cuidado necessário para deixar a peça pronta.
Uma das encomendas mais marcantes foi justamente um vestido de prenda produzido para uma jovem que participaria de uma competição no Estado. O trabalho foi intenso, mas a reação da cliente fez o esforço valer a pena.
“Quando a gente termina um trabalho assim, sente uma satisfação enorme ao ver a reação da cliente e aquela alegria.”
A costureira atende clientes de diferentes pontos da cidade e trabalha tanto com encomendas quanto com ajustes. A Semana Farroupilha representa um período de maior movimento, não apenas pela procura dos moradores, mas também pela presença de pessoas de outras cidades que visitam Bagé e aproveitam para fazer compras.
Ângela mantém páginas no Instagram e Facebook, mas, assim como outros artesãos ouvidos pelo Minuano, identifica no boca a boca uma das principais formas de divulgação.
O couro que começa no campo
A relação de Clair Almeida, de 56 anos, com o artesanato começou ainda na infância. Natural de Bagé e morador do bairro Castro Alves, ele viveu até os 18 anos em uma estância na região das Palmas. O pai era capataz e permaneceu 26 anos na propriedade.
Foi naquele ambiente que Clair começou a observar o trabalho realizado nos galpões. Durante o inverno e nos dias de chuva, enquanto alguns trabalhadores permaneciam no galpão produzindo cordas e outros artigos, o menino se aproximava para observar e tentar aprender.
Aos 18 anos, veio para Bagé. Na cidade, encontrou outros mestres, como Jesus Veloso, referência que contribuiu para sua formação como guasqueiro.
Também morou durante 13 anos em Pelotas, onde continuou trabalhando com cordas e conheceu outros profissionais do ofício. Hoje, são mais de três décadas dedicadas à atividade.
Clair trabalha com o couro desde a preparação da matéria-prima. Diferentemente de quem compra o material já pronto, ele adquire o couro recém-carneado e realiza processos como limpeza, preparação e sovagem.
O tempo de produção varia conforme a peça. Alguns trabalhos trançados podem levar dois ou três meses.
A estação também influencia no processo. No inverno, segundo ele, a umidade natural ajuda a trabalhar o couro. No verão, o material tende a ressecar.
A Semana Farroupilha é um período especialmente movimentado. “A Semana Farroupilha é a safra”, define o guasqueiro.
Neste ano, mais de 20 peças produzidas por ele foram destinadas diretamente ao período das comemorações. Entre os trabalhos, estão preparos, bainhas de faca e guaiacas.
Para ele, existe uma distância entre o consumidor e quem produz. Muitas pessoas conhecem as correarias e lojas onde encontram os produtos, mas não sabem que existem artesãos responsáveis pela confecção das peças.
O guasqueiro defende justamente essa aproximação. “Cada peça é única”, explica. Mesmo que duas sejam semelhantes, o trabalho artesanal impede que sejam exatamente iguais.
A divulgação também acontece principalmente pelo boca a boca. Para Clair, um trabalho bem feito e um cliente satisfeito acabam sendo a melhor forma de apresentar o ofício a novas pessoas.
Da curiosidade pela faca à cutelaria
Morador do bairro Malafaia, o bajeense Magaiver Rodal, de 39 anos, tem na segurança sua profissão, mas encontrou na cutelaria um segundo caminho.
Há quase oito anos, começou a produzir facas a partir de um desejo antigo: ter uma peça própria.
Criado nos anos 1980, Magaiver tinha como referência filmes de ação como Rambo e Crocodilo Dundee, nos quais as facas chamavam sua atenção. O preço de uma peça de alta qualidade, entretanto, fez com que o desejo permanecesse por anos.
Até que um vídeo do cuteleiro Márcio D'Ávila despertou a pergunta: por que não tentar?
A partir daí, passou a estudar técnicas, pesquisar formas de adaptar ferramentas e acompanhar vídeos de outros profissionais, entre eles Ricardo Vilar.
Sem um professor, aprendeu pela curiosidade e pela prática. A primeira faca foi publicada no Facebook sem intenção de venda. Cerca de dez minutos depois, surgiu uma pergunta: se ele queria vender a peça?
Vendeu.
Fez outra para si, e ela também acabou sendo vendida. Foi assim que começou a produzir por encomenda.
Hoje, atende clientes de diferentes lugares e procura fazer cada faca de acordo com a personalidade de quem irá recebê-la. “Posso fazer parecido, mas nunca igual. Gosto da ideia de cada um com a sua personalidade.”
Uma peça leva cerca de sete dias para ficar pronta, desde o início da produção até a finalização da bainha, também feita manualmente.
A matéria-prima é outro diferencial. Segundo Magaiver, cerca de 90% do aço utilizado vem de materiais recicláveis, como molas, peças de suspensão, rolamentos e discos de arado.
Algumas das peças já viajaram para Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e até Amsterdam.
Entre os trabalhos que considera especiais estão quatro facas enviadas para um cliente na Holanda, peças produzidas para Itamar Charlie, um dos primeiros brasileiros a participar do programa Largados e Pelados, do Discovery Channel, e trabalhos feitos para o amigo Ronaldo Evangelista, que era apaixonado por lâminas, aventuras e cursos de bushcraft.
Ainda assim, Magaiver diz que existe algo especial em cada encomenda: observar a reação de quem recebe a peça.
O tempo que existe dentro de cada peça
As histórias são diferentes. Bruna encontrou nas boinas um caminho que começou quase por acaso. Maria mantém há mais de cinco décadas um processo aprendido com a mãe. Ângela dá continuidade a uma tradição familiar de três gerações de costureiras. Clair carrega desde a infância o conhecimento adquirido entre estâncias e galpões. Magaiver transformou a curiosidade por uma faca em um ofício desenvolvido de forma autodidata.
Os materiais também mudam: crochê, lã, couro, aço e tecido.
Mas há algo que aproxima todos eles: o tempo.
É o tempo necessário para lavar e preparar a lã, transformar o couro em uma peça trançada, construir uma faca, confeccionar um vestido de prenda ou contar os pontos de uma boina.
Na Semana Farroupilha, quando as peças prontas ganham as ruas, esse processo muitas vezes passa despercebido. Para os artesãos, entretanto, é justamente nele que está o valor do trabalho.
Mais do que produzir objetos para vestir ou acompanhar o gaúcho, eles mantêm conhecimentos que foram aprendidos, aperfeiçoados e, em diferentes histórias, continuam sendo compartilhados.
Porque a tradição não aparece apenas na peça pronta. Ela também está nas mãos de quem aprendeu a fazê-la.

