Minuano Conecta
Sete décadas de um museu em movimento
por Melissa Louçan
É difícil pensar em um museu sem pensar no tempo, já que ele se faz presente nas fotografias, nos jornais, nos objetos do acervo. No Museu Dom Diogo de Souza, o tempo está em toda parte. Em 20 de setembro, a instituição completa sete décadas em que deixou de ser apenas um lugar de guarda de objetos antigos para se tornar, nas palavras de quem trabalha diariamente com seu acervo, um espaço de memória, pesquisa, educação e construção de conhecimento.
A história começa antes mesmo da inauguração. Em maio de 1955, quando Bagé se preparava para o nascimento de uma nova instituição cultural, uma exposição histórico-cultural sobre o município já revelava o sonho de Tarcísio Antônio Costa Taborda de criar um museu na cidade. Um ano depois, em 20 de setembro de 1956, o Museu Dom Diogo de Souza era inaugurado na sede da Vila Vicentina.
Tarcísio Taborda é nome protagonista dessa história. Professor, pesquisador e, sobretudo, um homem que enxergava no passado uma matéria-prima para o futuro, foi ele quem idealizou e colocou em movimento a criação do museu. A trajetória que começou com um sonho pessoal, porém, ganhou dimensão institucional e atravessa gerações.
Em 1969, o museu passou a ser vinculado à Fundação Attila Taborda (FAT), criada por seu pai, Attila Taborda. Desde então, a FAT é responsável pela manutenção dos museus de Bagé, além do Dom Diogo de Souza, o Museu da Gravura Brasileira e o Museu Patrício Corrêa da Câmara.
É uma continuidade que Maria Luiza Pêgas, integrante da Gestão de Museus, considera fundamental para compreender os 70 anos da instituição. “A história começa com Tarcísio Taborda, e esse longo período que ele contribuiu. Então, a Fundação Attila Taborda tem esse compromisso com a memória, com a cultura e com esse patrimônio.”
A própria história do prédio que hoje abriga o museu é uma cápsula do tempo. Construído pela Sociedade Portuguesa de Beneficência, fundada em Bagé em 1870, o imóvel teve diferentes usos ao longo do tempo. Foi concebido para atender às necessidades dos portugueses residentes no município e chegou a abrigar um hospital. Durante a Revolução Federalista, serviu de Hospital de Guarnição; posteriormente, também funcionou como casa de saúde e até como quartelamento.
Entre 1974/75, o prédio foi reformado pelo município e passou a acolher o Museu Dom Diogo de Souza. Em 2025, completaram-se 50 anos desde que o museu passou a ocupar o espaço onde permanece até hoje. O museu, entretanto, não se limita ao que está disponível à vista.
Nas salas, estão objetos, fotografias, documentos e coleções que ajudam a contar diferentes capítulos da história de Bagé e da região. Nos bastidores, há cerca de oito reservas técnicas, além da fototeca, da hemeroteca e da discoteca. O acervo reúne aproximadamente 150 mil documentos fotográficos, 20 mil volumes de jornais, cinco mil artefatos e três mil documentos, entre outros itens. A maior parte dessa história chegou pelas mãos da própria comunidade.
Há documentos, fotografias, roupas, objetos de uso cotidiano, moedas, máquinas de escrever, telefones, peças religiosas, armas, registros ligados à medicina, ao Direito, às revoluções e à vida doméstica. Há também materiais arqueológicos relacionados ao Forte Santa Tecla e coleções que ajudam a compreender aspectos da formação social e cultural da região.
Nesse processo, o próprio conceito de documento mudou. Um objeto que durante muito tempo poderia ser visto apenas como uma coisa velha passa a ser entendido como vestígio capaz de contar uma história.
Uma pequena peça de cerâmica, por exemplo, pode ajudar a compreender a presença indígena no Forte Santa Tecla. Uma roupa pode revelar costumes e diferenças sociais. Uma máquina de escrever pode explicar transformações tecnológicas. Um jornal de décadas atrás pode mostrar como a sociedade se expressava, quais assuntos discutia e quais valores carregava.
A mudança de perspectiva também aparece no público que chega ao Dom Diogo. São mais de 15 mil visitas anuais, entre estudantes, pesquisadores, turistas e moradores de Bagé e de outros municípios da região. Há grupos escolares de Dom Pedrito, Hulha Negra, Pinheiro Machado e Santana do Livramento, além de visitantes de diferentes partes do Brasil e do exterior.
Para as crianças, a passagem do tempo pode estar numa máquina de escrever que nunca haviam visto. Para os adultos, a surpresa muitas vezes vem na forma de uma fotografia revelando o rosto de um familiar. É nesse encontro entre o coletivo e o íntimo que o museu encontra uma de suas principais funções, conforme destaca Carmen Barros, também integrante da Gestão dos Museus.
Um ano para relembrar
Os 70 anos não serão comemorados em um único dia. A programação inicia no domingo, 20, das 14h às 18h, com recepção com bolo aos visitantes, e se estende até setembro de 2027, com exposições, publicações, mesas-redondas e outras atividades que pretendem revisitar a própria trajetória do museu. Entre elas está prevista, para novembro, a inauguração da sala dedicada ao ex-governador do estado, o bajeense Alceu Collares, falecido em 2024. Também estão sendo preparadas ações relacionadas à recuperação das telas de Pedro Obino, da Capela de Santa Thereza.
Preservar uma história tão extensa também depende de quem ajuda a mantê-la viva. Criada em 1979, a Associação dos Amigos dos Museus de Bagé apoia ações de preservação e divulgação e busca aproximar novos públicos da instituição.
Para Elizabeth Macedo de Fagundes, vice-presidente da entidade, esse vínculo é também uma forma de multiplicar o conhecimento: “O museu é um livro aberto para as pessoas conhecerem e ajudarem. Eu acho que o ponto inicial e principal, para mim, é o conhecimento. O museu é uma maneira de as pessoas conhecerem sua história.”
O reitor da Urcamp, professor doutor Guilherme Cassão Marques Bragança, destaca que os 70 anos do Museu Dom Diogo de Souza representam um compromisso com a preservação da história e da memória de Bagé e da região. Para ele, a instituição reúne elementos que ultrapassam as fronteiras do município e refletem a formação cultural da comunidade. A Fundação Attila Taborda, mantenedora da Urcamp, é também responsável pela manutenção do museu, com apoio da Associação dos Amigos dos Museus.
“Estas sete décadas de história do Museu Dom Diogo de Souza representam muito mais do que um marco temporal. Estamos falando em pertencimento e em responsabilidade social, cultural e histórica para com a nossa municipalidade, para o nosso Brasil e para o mundo.”
Segundo Bragança, a permanência do museu sob responsabilidade da instituição também está relacionada ao vínculo construído desde sua origem. Embora já tenha sido sugerida a transferência da gestão para o poder público, a Urcamp entende que o espaço faz parte de sua trajetória e que cabe à instituição preservar seu acervo e sua memória.
“Ele nasceu para a Fundação, nasceu para a Urcamp e nós temos responsabilidade sobre ele. Assim seguiremos cuidando, zelando e sendo, de fato, aqueles que guardam a sua história e a sua memória por mais 70 vezes 7 anos.”

