Minuano Conecta
O teatro que continua em movimento
Coletivo Movimento chega à marca de 50 apresentações durante o Festival Itaquiense de Teatro
por Márlon Castro Posqui
Toda companhia de teatro vive de estreias. A ansiedade antes da abertura das cortinas, o silêncio que antecede a entrada em cena e o encontro entre artistas e plateia fazem parte de um ritual que se renova a cada apresentação. No entanto, existem momentos em que o espetáculo deixa de ser apenas mais uma sessão para se transformar em símbolo de uma caminhada inteira. Para o Coletivo Movimento, esse instante acontece agora.
Nesta semana, durante o 23º Festival Itaquiense de Teatro (FIT), em Itaqui, o grupo bajeense apresenta o espetáculo Coração de Dinossauro. A sessão tem um significado especial. Marca a 50ª apresentação realizada pelo Coletivo Movimento desde sua fundação, reunindo, em uma mesma trajetória, montagens profissionais e estudantis. O marco sintetiza anos de pesquisa, formação de atores, circulação por festivais e a convicção de que o teatro pode transformar não apenas quem ocupa a plateia, mas também quem escolhe viver a experiência do palco.
O número, curiosamente, não nasceu de uma meta. Não havia uma contagem regressiva nem qualquer planejamento para que a quinquagésima apresentação acontecesse em um palco específico. A descoberta veio apenas quando o grupo organizou um levantamento das sessões já realizadas. Foi então que perceberam que a próxima viagem a Itaqui carregaria um significado inesperado. A coincidência ganhou ainda mais força por acontecer justamente em um dos festivais mais tradicionais do Rio Grande do Sul, realizado no Teatro Prezewodowski, um dos mais antigos da América Latina. Para o diretor Gabriel Medeiros, há uma potência poética nesse encontro entre a história do grupo e a história do próprio teatro gaúcho.
Mas reduzir a trajetória do Movimento a cinquenta apresentações talvez seja injusto. Afinal, por trás de cada espetáculo existe um processo muito maior, que envolve meses de ensaio, estudo, pesquisa, montagem, formação de elenco e, principalmente, pessoas. O coletivo acumulou experiências que ajudaram a formar uma nova geração de artistas em Bagé.
Um coletivo que cresceu junto com seus alunos
Quando Gabriel Medeiros olha para o passado, a imagem que primeiro lhe vem à memória não é a de um teatro lotado nem a de um festival. Ele recorda um pequeno grupo reunido em uma pizzaria, onde as primeiras ideias começaram a tomar forma. Eram apenas seis pessoas dispostas a experimentar o teatro, sem imaginar a dimensão que aquele encontro alcançaria poucos anos depois.
Desde então, o crescimento foi constante. A chegada ao Cenarte/Urcamp permitiu estruturar melhor as atividades e transformar aquilo que inicialmente era apenas um grupo artístico em um espaço permanente de formação. Hoje, o coletivo mantém seis turmas voltadas para diferentes faixas etárias, oferecendo aulas para crianças, adolescentes e adultos. Ao mesmo tempo em que amplia seu repertório de espetáculos, também amplia o número de pessoas que encontram no teatro um lugar de pertencimento.
É justamente nessa combinação entre criação artística e educação que Gabriel identifica o maior diferencial do Movimento. Para ele, ensinar teatro nunca foi uma atividade paralela às montagens; sempre foi parte da própria identidade do coletivo. Essa característica também explica por que o Movimento evita definir uma estética única. "Mais do que nós termos uma identidade específica, a nossa identidade passa justamente pela possibilidade e pela diversidade de experiências e experimentações que a gente se coloca e se dispõe a fazer", destaca o diretor.
Espetáculos que contam uma evolução
Ao longo dessas cinquenta apresentações, algumas produções tornaram-se capítulos fundamentais da história do grupo. O primeiro grande divisor de águas foi Para Onde Voam as Borboletas?. A montagem autoral, voltada ao público infantojuvenil, rapidamente ultrapassou as expectativas do grupo. Vista por mais de dois mil espectadores, abriu portas para festivais, editais e reconhecimentos importantes. A trilha sonora original, a proposta estética e a recepção do público transformaram o espetáculo em uma espécie de marco zero da profissionalização do coletivo. Foi a partir dele que novas turmas surgiram, novos integrantes chegaram e o Movimento passou a ser reconhecido para além de Bagé.
Na sequência veio O Doente Imaginário, primeira produção adulta da companhia. Curiosamente, o espetáculo nasceu dentro da sala de aula, como resultado de um processo pedagógico. O bom resultado obtido ao final do semestre fez com que o grupo decidisse incorporá-lo ao repertório profissional. A montagem ganhou novos figurinos, cenografia e direção artística, tornando-se uma das produções mais celebradas da trajetória recente do coletivo. Em Itaqui, rendeu ao ator Nelson Lorenzo o prêmio de Ator Revelação, reforçando a qualidade do trabalho desenvolvido pelo elenco.
Mais recentemente, Coração de Dinossauro passou a representar uma nova etapa dessa caminhada. O espetáculo reúne diversos elementos que sintetizam a maturidade alcançada pelo grupo: trilha sonora inédita, cenário móvel, figurinos confeccionados especialmente para a montagem e a participação de outros artistas convidados, como a artista plástica Clélia Camargo e a costureira Bia Machado. É justamente essa produção que agora carrega a responsabilidade de marcar a apresentação de número cinquenta.
Ao lado dessas montagens, Gabriel também destaca Alice no País das Maravilhas. A adaptação moderna, marcada por referências da cultura pop, música eletrônica e uma linguagem voltada ao público jovem, tornou-se símbolo da consolidação da primeira turma infantojuvenil formada pelo coletivo, demonstrando que o processo de ensino também é capaz de gerar espetáculos de grande alcance.
A estrada também forma artistas
Embora Bagé permaneça sendo o ponto de partida, o Movimento entende que crescer artisticamente também significa sair dela. Ao longo desses anos, o grupo percorreu diferentes cidades do Rio Grande do Sul, apresentou-se em escolas municipais e estaduais, participou de festivais e estabeleceu contato com outras companhias. Hulha Negra, Rosário do Sul, Uruguaiana e Itaqui tornaram-se paradas frequentes nessa trajetória.
Se a criação artística representa um dos pilares do Movimento, a sustentabilidade financeira continua sendo um dos principais desafios. Gabriel reconhece que o público tem respondido positivamente às produções e observa que as salas costumam estar cheias. Ainda assim, acredita que o teatro no interior depende de políticas culturais permanentes para garantir que seus profissionais consigam permanecer na atividade.
Ele cita a Lei Paulo Gustavo como um exemplo da capacidade de mobilização proporcionada pelos investimentos públicos, lembrando que a iniciativa contribuiu para uma intensa movimentação cultural em Bagé. Também destaca o financiamento obtido por Coração de Dinossauro junto ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, que possibilitou uma temporada exclusiva para estudantes da rede pública. Apesar disso, avalia que ações pontuais ainda não são suficientes para consolidar uma economia criativa sustentável. "A gente precisa de uma política econômica e cultural constante para que os grupos vivam de uma forma sustentável e não sempre só na resistência", conclui.
Porque, no fim das contas, talvez a história do Movimento nunca tenha sido sobre cinquenta apresentações. Talvez ela seja sobre cinquenta oportunidades de provar que o teatro produzido no interior não apenas resiste, mas continua encontrando novos artistas, novos públicos e novas razões para manter a cortina aberta.

