Minuano Conecta
Cardapê transforma identidade do Pampa em moda contemporânea
por Érica Alvarenga
Quando decidiu aprender a costurar, em 2020, Taynan do Canto não imaginava que uma curiosidade despertada durante a pandemia se transformaria em uma marca reconhecida muito além da fronteira gaúcha. O que começou entre tecidos, erros e experimentos no quarto de casa deu origem à Cardapê, empresa bajeense especializada na produção artesanal de bonés que hoje carrega, em cada coleção, referências do bioma Pampa, da cultura gaúcha e da vida no interior.
O nome da marca também nasceu de forma inesperada. Quando Taynan trabalhava em uma lancheria famosa da cidade, um cliente pronunciou "cardápio" como "Cardapê". A sonoridade chamou atenção do jovem, que decidiu adotá-la para batizar o projeto que ainda engatinhava.
Sem tradição familiar na costura – exceto pela bisavó – Taynan aprendeu praticamente sozinho. Foram cerca de dois anos estudando técnicas, testando modelagens e entendendo os processos de confecção até transformar o interesse em profissão. Depois, a experiência em uma fábrica de uniformes, em Bagé, e o período trabalhando com alfaiataria em Curitiba ajudaram a consolidar a identidade da marca. "Eu trouxe o cuidado e o acabamento da alfaiataria, mas também a agilidade da produção industrial. Hoje a Cardapê consegue unir esses dois mundos sem perder o caráter artesanal", explica.
Mais do que fabricar bonés, Taynan percebeu que precisava construir uma narrativa capaz de representar quem ele era. A resposta estava justamente na própria trajetória.
Criado entre a cidade e o interior, convivendo tanto com a cultura gaúcha quanto com referências do rap e da moda urbana, encontrou na mistura desses universos uma linguagem própria. Em vez de reproduzir símbolos tradicionais de forma literal, passou a reinterpretar elementos do Pampa sob um olhar contemporâneo. "Eu não quero que alguém vista uma fantasia de gaúcho. Quero transmitir um sentimento. As referências estão ali, mas de um jeito que converse com qualquer jovem que cresceu no interior do Brasil", pondera.
Essa proposta ganhou força na coleção Bagé Velho, lançada em 2025. Fotografada no primeiro bairro da cidade, a campanha despertou um movimento espontâneo entre jovens bajeenses, que passaram a visitar os mesmos cenários utilizados nas imagens. Para Taynan, esse retorno mostrou que a moda também pode fortalecer a autoestima local. "Às vezes a gente acredita que só o que vem de fora é interessante. Mas o campo, as construções antigas, o bioma Pampa e a nossa história também têm muito valor", enumera.
A decisão de retornar definitivamente para Bagé, após a temporada em Curitiba, também fez parte desse processo. Mesmo consciente das dificuldades de empreender em uma cidade do interior, o fundador da Cardapê enxergou justamente nesse contexto uma oportunidade para criar algo diferente.
Sem acesso facilitado a matérias-primas, encontrou soluções nos brechós da cidade. Blazers, saias e peças de lã passaram a ser desmontados e transformados em novos bonés, dando origem à linha uma nova linha, desenvolvida a partir do reaproveitamento de tecidos de alfaiataria.
Hoje, a produção reúne três pessoas: Taynan, responsável pela criação e costura; um colaborador que realiza o corte das peças; e um artesão de São Leopoldo, encarregado das regulagens em couro, finalizadas com a mesma fivela utilizada nas botas gaúchas – um detalhe que se tornou assinatura da marca.
Um espaço para encontros
O próximo passo da Cardapê também nasce do desejo de fortalecer vínculos. Depois de quase seis anos atuando exclusivamente no ambiente online, a marca prepara a inauguração do primeiro espaço físico, prevista para setembro. Instalado em um antigo sebo de Bagé, o local passa por reformas e promete ser mais do que uma loja.
Além de expor os produtos, o ambiente abrigará o ateliê aberto da marca, permitindo que visitantes acompanhem de perto todas as etapas da produção artesanal. A ideia também é transformar o espaço em um ponto de encontro para jovens interessados em moda, cultura e criatividade. "Quero que as pessoas venham para conversar, conhecer gente nova, ouvir música, trocar ideias. Não é só um lugar para comprar um boné. É um lugar para viver essa comunidade", define.
E talvez seja justamente essa a essência da Cardapê: mostrar que tradição e contemporaneidade não precisam ocupar lados opostos. Quando encontram um ponto de equilíbrio, tornam-se capazes de contar histórias que começam em Bagé, mas dialogam com jovens de qualquer outro lugar.

