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O retorno de um clássico que nunca envelhece: nova montagem de Auto da Compadecida leva humor, crítica e música ao palco

Após meses de preparação o espetáculo será apresentado nos dias 8, 9, 15 e 16 de agosto, no Teatro do Cenarte/Urcamp

Em 29/07/2026 às 07:30h
Márlon Castro Posqui

por Márlon Castro Posqui

O retorno de um clássico que nunca envelhece: nova montagem de Auto da Compadecida leva humor, crítica e música ao palco | Minuano Conecta | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
Com ensaios intensos, elenco se prepara para apresentar a nova montagem de Auto da Compadecida / Foto: Divulgação

No sertão criado por Ariano Suassuna, a esperteza desafia a miséria, o riso convive com a fé e a justiça ganha contornos divinos. Décadas após sua estreia, Auto da Compadecida continua atravessando gerações e encontrando novos palcos, novos intérpretes e novos olhares. O Grupo de Teatro Os Carlitos revisita o clássico da dramaturgia brasileira em uma montagem que reúne elenco renovado, música ao vivo e uma proposta cênica que preserva a essência da obra enquanto imprime a identidade artística do grupo.

A decisão de remontar o espetáculo resgata um dos trabalhos mais marcantes da trajetória do grupo. Segundo o diretor Michel Godinho, a vontade de revisitar a obra existe desde o sucesso da montagem apresentada em 2018. “Fazia anos que eu queria retomar Auto da Compadecida. É uma obra que marcou profundamente a história do grupo e do público. Agora ela retorna em um novo espaço, que é a nossa casa atual, com um elenco renovado e novas possibilidades cênicas. Sentimos que este era o momento certo para revisitar esse clássico, sempre respeitando a essência de Ariano Suassuna e buscando oferecer algo inédito ao público”, afirma.

Reconhecida nacional e internacionalmente, a peça acompanha as aventuras de João Grilo e Chicó, personagens que enfrentam as dificuldades do sertão com inteligência, criatividade e humor. Entre críticas sociais, religiosidade e poesia, a narrativa culmina no célebre julgamento conduzido por Manuel, pelo Encourado e pela Compadecida, considerado um dos momentos mais emblemáticos do teatro brasileiro.

Para Godinho, a permanência da obra no imaginário popular está na atualidade de seus temas. “O texto fala da condição humana. Aborda desigualdade, poder, corrupção, preconceito, fé, esperança e misericórdia, sempre com muito humor e inteligência. João Grilo representa essa criatividade do brasileiro para sobreviver e se reinventar diante das injustiças. São temas que continuam extremamente atuais e fazem com que pessoas de diferentes gerações se identifiquem com a história.”

Embora preserve o texto de Suassuna, a nova montagem traz uma identidade própria do Grupo Os Carlitos. O diretor explica que o desafio foi encontrar um equilíbrio entre respeitar a obra original e imprimir uma linguagem cênica particular. “A preocupação não era reinventar Ariano Suassuna, porque sua obra já é brilhante. Nosso trabalho foi construir uma linguagem própria por meio da interpretação dos atores, da movimentação cênica, da música ao vivo, do cenário, da iluminação, dos figurinos e de toda a equipe artística. Quem conhece a história vai reconhecer o texto, mas encontrará uma montagem com a identidade dos Carlitos.”

Um dos diferenciais desta edição é justamente a música executada ao vivo. Para o diretor, ela deixa de ser apenas um acompanhamento e passa a integrar a narrativa. “A música conduz as emoções, marca as mudanças de atmosfera e aproxima o espectador do universo da cultura nordestina. Ela cria ritmo, tensão, humor e emoção. É praticamente outro personagem dentro da peça”, pontua.

Além da construção artística, o processo de montagem também exigiu intenso comprometimento do elenco. Ensaios, preparação corporal, estudo da cultura nordestina, desenvolvimento dos personagens e a integração da música ao vivo estiveram entre os principais desafios enfrentados pelo grupo.

No palco, Brênder Fagundes interpreta João Grilo e Laura Maruri dá vida a Chicó. O elenco conta ainda com Santiago Marques (Padre João), Fabi Godinho (Dorinha), Éderson Coitinho (Padeiro Eurico), Carol Lima (Freira Selma), Luh Barcellos (Palhaço), Thomas Porto (Palhaço Músico), Michel Godinho (Major Antônio Morais), Pedro Saraiva (Bispo de Taperoá), Rodrigo Dias (Severino do Aracaju), Manoel Henrique (Cangaceiro 1), Samuel Delabari (Cangaceiro 2), Márlon Posqui (Encourado), Renato Pereira (Manuel) e Alice Simões (A Compadecida).

Com uma trajetória consolidada no teatro bajeense, o Grupo Os Carlitos vê a montagem como mais um passo em sua missão de fortalecer a produção cultural local. “Cada espetáculo aumenta nossa responsabilidade. Somos um Ponto de Cultura reconhecido pelo Ministério da Cultura e acreditamos no teatro como ferramenta de transformação, de formação de público e de valorização da cultura local. Produzir um espetáculo desse porte reafirma nosso compromisso com a arte e mostra que Bagé tem artistas capazes de realizar trabalhos de alta qualidade.”

A nova geração de atores

Dar vida a dois dos personagens mais emblemáticos do teatro brasileiro foi um processo marcado por pesquisa, troca e dedicação. Nesta nova montagem, Brênder Fagundes assume o papel de João Grilo, enquanto Laura Maruri interpreta Chicó, dupla responsável por conduzir a história criada por Ariano Suassuna.

Brênder Fagundes volta a protagonizar um espetáculo do Grupo Os Carlitos após se destacar em O Morto do Encantado Morre e Pede Passagem. Na montagem, que teve seis sessões com ingressos esgotados, o ator conquistou o público e, agora, assume outro grande desafio ao interpretar João Grilo, um dos personagens mais emblemáticos da dramaturgia brasileira. Para ele, dar vida ao protagonista de Auto da Compadecida exige entrega do início ao fim da temporada. "Qualquer que seja o personagem exige uma exposição, entrega e presença muito grande do ator. O desafio é constante, trazer à vida um persoagem tão querido é um trabalho que corre até o fechar das cortinas na última apresentação", explica.

Ao seu lado está Laura Maruri, que também integrou o elenco de O Morto do Encantado Morre e Pede Passagem e agora assume o papel de Chicó, fiel companheiro de João Grilo. A atriz conta que a construção do personagem foi marcada pelo cuidado em preservar sua essência, sem abrir mão de uma interpretação própria. "Por ser um personagem tão conhecido e querido, eu senti a responsabilidade de preservar sua essência justamente por existir duas grandes referências, mas também de encontrar uma forma de torná-lo verdadeiro na minha interpretação. Procurei entender seus medos, sua ingenuidade e principalmente, a forma como ele usa as histórias para enfrentar as situações. Foi um trabalho que exigiu estudo, ensaios e muita troca."

Embora seja muito engraçado, João Grilo também carrega uma forte crítica social. Fagundes explica como trabalha essa dualidade nos palcos. "Acredito que o peso e a crítica que o personagem carrega com a sua luta por sobrevivência é relacionável a todos que vivem e percebem a dureza que nosso sistema nos coloca. O sorriso no rosto sempre acompanhou os que tem menos no bolso, eu tento manter isso em destaque sempre dentro de minha cabeça, enquanto João".

Conhecido pelas histórias improváveis e pelo humor característico, Chicó exige um equilíbrio delicado entre a comicidade e a verdade cênica. Para Laura, a construção do personagem partiu justamente da busca por uma interpretação autêntica, distante da caricatura. "Acredito que o segredo foi enxergar o Chicó como uma pessoa antes de enxergá-lo apenas como um personagem cômico. O humor dele nasce da sinceridade com que acredita ou conta suas histórias. Então, durante os ensaios, busquei interpretar suas emoções de forma verdadeira. Isso fez com que o humor acontecesse naturalmente, durante o processo", destaca.

A cumplicidade entre João Grilo e Chicó, um dos pilares da história, também é resultado da amizade construída entre os intérpretes fora dos palcos. Para Laura, a relação de confiança desenvolvida ao longo de outros trabalhos foi essencial para dar vida à dupla. “Sempre é um grande reencontro. Minha parceria com o meu companheiro de cena vai muito além dos palcos, e isso faz toda a diferença durante o processo. Esses personagens exigem uma conexão muito forte, aquela sintonia de conseguir entender o outro apenas com um olhar, e nós construímos isso ao longo de trabalhos anteriores”, afirma.

Brênder compartilha da mesma percepção e destaca a importância da atriz em sua trajetória artística. “A Laura sempre foi uma companheira de cena absurda e uma pessoa muito importante pra minha trajetória em cima do palco e fora dele. Admiro ela desde que a conheço, ela preenche o lugar. A relação de Chicó e João Grilo foi muito mais fluida de se construir com ela ali como Chicó”, completa.

Ao convidar o público para prestigiar o espetáculo, Godinho destaca a experiência única proporcionada pelo teatro. “O teatro é um encontro ao vivo entre artistas e espectadores. Auto da Compadecida faz rir, emociona, provoca reflexão, reúne música, poesia e uma história que atravessou gerações. Esperamos que as pessoas prestigiem o teatro de Bagé e saiam da plateia levando consigo toda a beleza e a humanidade dessa grande obra”, conclui.

No palco, a montagem reúne além de Brênder Fagundes e Laura Maruri, os atores Santiago Marques (Padre João), Fabi Godinho (Dorinha), Éderson Coitinho (Padeiro Eurico), Carol Lima (Freira Selma), Luh Barcellos (Palhaço), Thomas Porto (Palhaço Músico), Michel Godinho (Major Antônio Morais), Pedro Saraiva (Bispo de Taperoá), Rodrigo Dias (Severino do Aracaju), Manoel Henrique (Cangaceiro 1), Samuel Delabari (Cangaceiro 2), Márlon Posqui (Encourado), Renato Pereira (Manuel) e Alice Simões (A Compadecida).

Após meses de preparação o espetáculo será apresentado nos dias 8, 9, 15 e 16 de agosto, no Teatro do Cenarte/Urcamp. Os ingressos antecipados custam R$ 30 e podem ser adquiridos na Leb Livraria, além de estarem disponíveis com o elenco e a produção.

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