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No centro do cruzamento, uma história de Bagé

Muito antes de organizar o trânsito, os postes iluminavam as ruas. Hoje, mais de um século depois, continuam sendo uma das marcas mais curiosas e características da paisagem urbana bajeense

Em 27/07/2026 às 11:25h
Miquéli Romero

por Miquéli Romero

No centro do cruzamento, uma história de Bagé | Minuano Conecta | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
Registro mostra a presença ainda dos postes em ferro fundido por volta da década de 1970 e auxiliando na mobilidade. Foto: Divulgação

Quem chega a Bagé pela primeira vez quase sempre estranha. No encontro de duas ruas, onde muita gente esperaria encontrar apenas o cruzamento, há um poste. O motorista reduz a velocidade, observa o movimento e, por alguns segundos, tenta descobrir por onde deve passar.

Foi exatamente essa a reação do arquiteto Lessandro, natural de Pelotas, quando chegou à cidade para trabalhar. “Me senti surpreso. Pensei: ‘o que eu faço agora?’. Para quem chega pela primeira vez, assusta”, conta.

Para quem nasceu em Bagé, no entanto, a cena passa despercebida. Os postes instalados no centro dos cruzamentos fazem parte da paisagem há tanto tempo que deixaram de chamar a atenção dos moradores.

Mas essa história começou muito antes dos automóveis. De acordo com pesquisas do historiador Claudio Antunes Boucinha, antes mesmo da chegada da energia elétrica, Bagé já possuía estruturas instaladas nos cruzamentos para sustentar lampiões que iluminavam a cidade. “A maioria desses postes era construída em ferro fundido, com mãos francesas em ferro trabalhado, sustentando as luminárias”, registra o historiador em seus estudos.

Com a implantação definitiva da energia elétrica, em 1899, essas estruturas passaram a receber iluminação elétrica, preservando sua posição estratégica nos cruzamentos.

Ao longo dos anos, os antigos postes de ferro fundido deram lugar às estruturas de concreto que compõem a paisagem urbana atualmente. O material mudou, acompanhando a modernização da cidade, mas a localização permaneceu a mesma, mantendo viva uma característica que atravessa gerações e continua sendo uma das marcas mais peculiares de Bagé.

Boucinha também destaca que o ferro fundido era amplamente empregado na infraestrutura urbana da época. Além dos postes, fazia parte de portões, balaustradas e outros elementos arquitetônicos, acompanhando uma tendência de embelezamento das cidades no final do século XIX.

A iluminação pública era uma novidade e um símbolo de modernidade para Bagé, já que foi a terceira cidade do país a ter energia elétrica. Segundo o pesquisador Gladimir Aguzzi, a chegada da luz elétrica despertava a curiosidade da população, que saía às ruas durante a noite para admirar a cidade iluminada.

Décadas depois, com o crescimento expressivo da frota de veículos, principalmente entre as décadas de 1960 e 1970, aquelas estruturas passaram a cumprir também outra função. Além de iluminar a cidade, passaram a ajudar na organização do trânsito.

Os "precursores das rótulas"

Para a arquiteta Gladis Savedra, mais conhecida como Neneca, que integrou a equipe responsável pela elaboração do Plano de Mobilidade Urbana de Bagé, em 2013, essa característica tornou-se parte da identidade urbana do município. “Até determinado momento da história de Bagé nós tínhamos lamparinas exatamente onde hoje estão instalados os postes. Com a chegada da energia elétrica, esses pontos continuaram sendo utilizados para iluminação e, com o passar do tempo, passaram também a organizar o trânsito.”

Ela costuma definir esses postes como “os precursores das rótulas”. “Bagé manteve essa cultura. A gente aprende a dirigir com o poste. Tanto que, quando ele não existe, existe o poste imaginário”, comenta.

Segundo Gladis, durante a elaboração do Plano de Mobilidade Urbana, profissionais de outras cidades contratados para participar da elaboração também questionaram essa característica do desenho urbano bajeense. No entanto, a equipe concluiu que os postes fazem parte da cultura local e continuam exercendo um papel importante na organização dos cruzamentos.

Se para quem mora em Bagé eles são naturais, para quem chega de fora o sentimento costuma ser outro.

Lessandro lembra que, no primeiro contato com um desses cruzamentos, a solução foi observar os motoristas que já conheciam a cidade. “No meu primeiro dia, fui no ‘copia e cola’. Olhei o que o carro da frente estava fazendo e fiz igual, até para não causar nenhum acidente.”

Já a arquiteta Adriana Ança, natural de Jaguarão e moradora recente de Bagé, teve uma experiência diferente. Como sua cidade natal possui um desenho viário semelhante, a adaptação foi imediata. “Não senti tanta diferença no trânsito. Esses postes acabam dando uma ordem para a circulação. Eles servem como referência para fazer conversões e ajudam até no posicionamento do veículo antes de atravessar o cruzamento.”

Para os bajeenses, esse ponto de referência faz parte da rotina. A professora Isabel Carvalho conta que utiliza os postes como orientação para realizar curvas e retornos e acredita que eles continuam sendo essenciais para a organização do trânsito na cidade.

O contador José Antônio também percebeu essa diferença ao dirigir em outros municípios. “A gente tem hábitos aqui em Bagé que em outras cidades não tem. A primeira vez que parei no meio da rua, em outra cidade, recebi bastante buzinada”, lembra, referindo-se ao costume bajeense de utilizar o poste como referência durante a travessia dos cruzamentos.

Acostumado ao trânsito da cidade, o taxista Rafael Feres resume essa lógica de forma simples. “Tem que imaginar ele ali e fazer a conversão do jeito certo, e não do jeito que muitos fazem, que acabam cortando o poste.”

Mais do que estruturas de concreto que orientam a circulação de veículos, esses postes carregam uma herança que começou praticamente junto com a história de Bagé. Iluminaram ruas com lampiões, acompanharam a chegada da energia elétrica, testemunharam a transformação da cidade e permaneceram presentes enquanto Bagé crescia e os automóveis se multiplicavam.

Hoje, continuam despertando a curiosidade de quem chega pela primeira vez. E, talvez sem que muitos moradores percebam, seguem indicando o caminho de uma cidade que fez dos postes instalados no centro dos cruzamentos uma de suas mais singulares marcas de identidade.

Cinco curiosidades sobre os postes em Bagé

Eram usados para sustentar lampiões antes da energia elétrica.
Passaram a receber iluminação elétrica em 1899.
Eram produzidos em ferro fundido, seguindo uma tendência arquitetônica da época.
Ajudaram a organizar o trânsito quando a frota de veículos cresceu, especialmente a partir das décadas de 1960 e 1970.
Até hoje, continuam sendo uma das características mais marcantes da paisagem urbana bajeense.

 

 

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