Minuano Conecta
Ba-Gua: o domingo em que torcedores vestem os mantos, abrem os trapos e pulam na arquibancada
por Yuri Cougo Dias
Os personagens desta reportagem são fictícios. As histórias foram construídas a partir de vivências que representam gerações de torcedores do Grêmio Esportivo Bagé e do Guarany Futebol Clube.
Por Yuri Cougo Dias
Domingo. Ainda não são sete horas quando a geada termina de desenhar. Os grupos de WhatsApp já discutem escalações desde antes do amanhecer. Na fila da padaria, ninguém pergunta quanto vai fazer de frio ou se vão arrumar o buraco da rua. Perguntam quem joga no ataque. Porque o Ba-Gua tem esse poder.
No bairro Menino Deus, Ana desperta antes mesmo do despertador. Tem 34 anos. Há oito meses perdeu a mãe para um câncer que parecia pequeno demais para ser fatal. Há pouco mais de um ano, viu o casamento terminar. O futebol nunca resolveu seus problemas. Mas sempre lhe deu forças para enfrentá-los na segunda-feira.
Do outro lado da cidade, no bairro Estrela D'alva, Miguel termina o chimarrão enquanto a esposa, Luiza, ainda dorme. Grávida de três meses. Sobre a cômoda, uma roupinha minúscula espera pelo bebê. Branca e vermelha. No peito, um pequeno escudo do Guarany. Miguel sorri. Ainda nem sabe se será menino ou menina. Pouco importa. Antes mesmo de nascer, aquela criança já herdou uma história. O avô, Ernesto, foi um dos jogadores campeões gaúchos de 1938. O único do interior bicampeão estadual.
Ana herdou outra história. Seu avô, Joaquim, ainda menino, corria pelas calçadas quando ouviu falar dos Imortais de 1925. Foi o primeiro grande time do Bagé. O elenco que conquistou o Campeonato Gaúcho e fez o interior desafiar o Grêmio do goleiro Lara. Ela fecha o portão da pequena casa e atravessa ruas que conhece desde menina. No banco do carro, repousa o surdo que ela toca na Fúria Jalde-Negra. Enquanto isso, Miguel termina de prender uma bandeira alvirrubra na carroceria da caminhonete.
Os caminhos começam a convergir. Na Rua Monte Líbano, em frente à Pedra Moura, o cheiro de carvão já domina o ar muito antes do meio-dia. O primeiro espeto ainda chia quando chegam os integrantes da Fúria Jalde-Negra. Há amigos que só se encontram ali. Um cooler se abre. O pagode começa numa caixa de som. Logo os tambores assumem o ritmo.
Torcida organizada não nasce pronta. É construída. Faixa por faixa. Viagem por viagem. Rifa por rifa. Cada bandeirão tem uma história. Cada instrumento já atravessou quilômetros acompanhando o clube. Ana pega o surdo. Os primeiros toques ainda são tímidos. A arquibancada aprende música do jeito antigo. Vivendo.
Do outro lado da cidade, o estacionamento em frente ao Estrela D'Alva também desperta. A torcida Índio Guerreiro chega carregando caixas, churrasqueiras e instrumentos. Cada faixa representa horas de trabalho voluntário. Miguel ajuda a prender uma das barras no alambrado. Um dos amigos brinca: “Se perder hoje, tu dorme no sofá”. Todos riem.
Não existe clássico sem lembranças. Na roda de conversa da Fúria, alguém revive um Ba-Gua dos anos 1990, um que terminou com 60 minutos porque uma pancadaria generalizada acabou com a partida. Outro prefere falar de um gol improvável nos acréscimos. Do lado alvirrubro acontece exatamente o mesmo. Cada torcedor guarda um Ba-Gua favorito. Cada geração acredita ter vivido o maior de todos. E talvez tenham razão.
Poucas cidades brasileiras podem dizer que possuem dois campeões gaúchos. Menos ainda podem afirmar que ambos continuam vivos, centenários, dividindo ruas, bares, famílias e arquibancadas. Bagé pode. E talvez seja justamente isso que torne o Ba-Gua diferente.
Ana conhece aquele caminho de olhos fechados. Há quem veja apenas um campo cercado por concreto. Ela enxerga um pedaço da própria vida. Foi ali que comemorou a primeira vitória com o pai, ainda menina, sentada em seus ombros. Ali aprendeu os primeiros palavrões, todos dirigidos ao árbitro.
Do outro lado da cidade, Miguel atravessa os portões do Estrela D'Alva. O cheiro é sempre o mesmo. Grama. Carvão. Cerveja derramada no cimento. Pipoca. E uma mistura impossível de explicar para quem nunca viveu um estádio de futebol. Ali não importa profissão. Nem renda. Nem escolaridade. Nem sobrenome. Miguel ajuda a abrir um bandeirão da Índio Guerreiro para pendurar na tela. São necessários muitos braços. Cada um segura uma ponta. O pano sobe lentamente.
As equipes entram em campo. O estádio explode. Não há outra palavra. O árbitro apita. Começou. Os primeiros minutos passam como uma disputa de território. Ana já perdeu a conta de quantas vezes levantou. Aliás, quem ficar sentado é xingado. Quando o atacante do Bagé acerta um chute forte e a bola passa raspando a trave, ela leva as duas mãos à cabeça: “Uuuhhh…!”
Miguel aperta o cachecol. O Guarany cresce. Há jogos em que se percebe o gol chegando. O meia alvirrubro recebe entre as linhas. Passa por um marcador. Encontra o centroavante. O chute sai seco. A rede balança. Por um instante, o mundo desaparece. Miguel abraça um desconhecido. Outro sobe em suas costas. Um copo de cerveja voa e cai nos pés de uma criança. Alguém perde o boné.
Mas o Ba-Gua nunca termina cedo. Poucos minutos depois, o Bagé responde. Escanteio. A bola sobe. Desvia. Sobra dentro da pequena área. Gol. Ana nem vê exatamente quem marcou. Só percebe que está abraçando uma senhora que nunca encontrou antes. O surdo cai no chão. Alguém o levanta. Outro continua tocando.
O árbitro passa a ser personagem. Toda falta contra um lado é um absurdo. Toda falta a favor era evidente. Quando ele mostra cartão para um jogador do Bagé, Ana protesta. Do outro lado, Miguel faz exatamente a mesma coisa quando a decisão favorece o rival. O juiz nunca sai ileso.
Não importa como termina. Porque o verdadeiro resultado do Ba-Gua nunca cabe no placar. O árbitro olha para o relógio. Um apito longo atravessa o frio da tarde. Os jogadores começam a se empurrar. Um desfere um soco, mas outro aparta e todos se acalmam e vão lentamente para seus vestiários. “A rivalidade é dentro de campo”, adverte um diretor.
Quando se vira para ir embora, Miguel encontra um menino, talvez com seis anos, segurando a mão do pai. Se reconheceu naquela cena. E, também lembrou que, num futuro breve, ele que será o pai. Ana guarda o surdo no porta-malas. As mãos ainda doem. Tocar durante quase duas horas exige mais esforço do que parece. Mas ela gosta daquela dor.
Miguel entra em casa. Luiza está esperando. Ele se ajoelha diante da barriga da esposa e passa a mão delicadamente sobre o ventre. Na parede da sala, uma fotografia antiga do avô Ernesto parece observar a cena. O bicampeão gaúcho de 1938 talvez não pudesse imaginar que, quase nove décadas depois, ainda haveria um bisneto preparando a chegada de mais um alvirrubro à família.
Ana chega em casa quando o céu começa a mudar de cor. Abre a porta. O silêncio volta. Mas já não pesa como antes. Segunda-feira haverá contas. Trabalho. Saudade da mãe. Problemas que o futebol jamais resolverá. Mesmo assim, alguma coisa mudou.
O clássico nunca pertenceu apenas aos clubes. Sempre pertenceu ao tiozinho da pipoca, do cambista da praça, dos integrantes da organizadas. São eles que ocupam os “lugares de memórias”. Como se chamam: Pedra Moura e Estrela D'Alva.

