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Bajeense ou bageense? A história por trás da grafia que divide opiniões

Em 21/07/2026 às 07:15h

por Melissa Louçan

Bajeense ou bageense? A história por trás da grafia que divide opiniões | Minuano Conecta | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
Segundo Marialda, estudo identifica relação entre gentílico e os primeiros registros do nome da cidade / Foto: Miquéli Romero

Quem acompanha o Jornal Minuano provavelmente já percebeu. Basta aparecer a palavra "bajeense" para que, pouco depois, cheguem comentários apontando um suposto erro de português. A dúvida é compreensível, afinal, o nome oficial do município é Bagé, com G. Mas o que muitos não sabem é que escrever "bajeense" com J também tem respaldo histórico e linguístico.

A discussão está longe de ser recente. Ela já mobilizava pesquisadores há mais de seis décadas. Em novembro de 1958, Tarcísio Taborda, um dos principais pesquisadores da história da cidade, publicou o artigo Por que Bajé com "jota"?, no qual reuniu registros históricos para defender que a grafia com J antecedia a adoção da forma atual. Um ano depois, voltou ao tema em novo texto, relacionando a mudança para o G às reformas ortográficas do início do século XX.

Antes do G, veio o J

Para o pesquisador, jornalista e mestre em História Diones Franchi, compreender o gentílico passa, necessariamente, por conhecer a história do próprio nome da cidade. Segundo ele, a origem de "Bagé" ainda desperta debates entre os pesquisadores. 

Há hipóteses que apontam para uma origem indígena e outras que relacionam o nome à influência espanhola na região. O que os estudos históricos permitem afirmar com segurança é que os registros mais antigos conhecidos utilizavam a grafia com J: "A gente ainda não consegue afirmar com certeza qual é a origem do nome Bagé. Existem hipóteses diferentes. Mas, independentemente da origem, os primeiros registros históricos conhecidos utilizam a grafia com J."

As primeiras referências aparecem em documentos produzidos durante a demarcação das fronteiras entre Portugal e Espanha, no fim do século XVIII e início do XIX. Entre os exemplos estão documentos de Paulo José da Gama, em 1801, correspondências de Dom Diogo de Sousa e a denominação São Sebastião de Bajé, registrada em 1817.

Nos artigos publicados em 1958 e 1959, Taborda observa que, tanto pela hipótese de origem espanhola quanto pela indígena, a grafia histórica do nome seria com J. Para Franchi, a substituição pelo G ocorreu apenas após as reformas ortográficas portuguesas de 1910, incorporadas pelo Brasil no ano seguinte. "Historicamente, o J não está errado. A mudança para o G aconteceu por uma questão ortográfica. Os primeiros registros conhecidos utilizavam o J", comenta.

Hoje, a forma oficial é Bagé, com G. Ainda assim, Franchi destaca que a grafia anterior faz parte da história do município: "Hoje, claro, Bagé com G é a forma oficial. Mas a gente não pode esconder a questão histórica. A grafia com J faz parte dessa trajetória."

Para Franchi, a permanência da grafia do gentílico como "bajeense" com J também abre espaço para uma reflexão sobre a própria formação histórica da região. O pesquisador avalia que, embora os primeiros registros escritos tenham sido feitos por portugueses e espanhóis, o uso do J pode preservar uma referência aos povos indígenas que habitavam essas terras antes deles. "Onde está a voz dos indígenas? Será que o uso do J também não representa esse pertencimento histórico da região?", pondera. 

Uma escolha baseada em pesquisa

Quando trabalhou como revisora do Jornal Minuano, entre 2004 e 2014, a professora Marialda Monteiro deu continuidade a um levantamento iniciado anteriormente pela professora Lourença Faria para embasar a definição da grafia adotada pelo jornal. Ao lado da também revisora Simone Gonçalves, ela revisitou as mesmas fontes e pesquisas históricas antes de manter a padronização editorial.

Segundo Marialda, o estudo identificou uma relação direta entre o gentílico e os primeiros registros do nome da cidade. "Quando pesquisamos, observamos que havia uma ligação direta desse gentílico com os primórdios do uso da palavra Bajé, com J. E foi mantido, e até hoje é mantido", aponta.

A decisão também levou em conta a identidade editorial do periódico: "Uma das características do Minuano é a tradição. A grafia com J acabou ficando como uma marca registrada do jornal. Ela desperta discussões, mas não representa um erro."

Marialda observa que, durante a pesquisa realizada pela equipe, também foram encontrados documentos oficiais que utilizavam a grafia com J, o que reforçou a decisão editorial de preservá-la.

Vale destacar que a grafia com J também aparece em documentos oficiais atuais. O Manual de Redação da Presidência da República, utilizado como referência para a redação oficial do Poder Executivo Federal, registra a forma "Bagé (mas bajeense)" ao tratar do emprego das letras G e J.

Mais de seis décadas depois dos artigos de Tarcísio Taborda, a discussão permanece. Mas, da próxima vez que "bajeense" aparecer nas páginas do Minuano, talvez mais leitores saibam que a polêmica entre o J e o G está longe de ser um simples detalhe ortográfico. Ela ajuda a contar a própria história de Bagé.

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