Saúde
Longevidade: a importância de manter o corpo ativo e os vínculos sociais
Aos 97 anos, a bajeense Luiza Portella mora sozinha, mantém uma rotina de exercícios físicos e cultiva amizades; profissionais destacam a importância da autonomia e da convivência para o envelhecimento saudável
por Miquéli Romero
Aos 97 anos, a bajeense Luiza Portella mora sozinha, cuida da própria casa e mantém uma rotina que inclui caminhadas, ginástica e encontros com vizinhos. Aposentada do Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer), ela organiza os próprios compromissos e duas vezes por semana vai de táxi ao Centro do Idoso de Bagé para participar das atividades físicas. A disposição para se movimentar e preservar a independência faz parte do cotidiano de Luiza, cuja trajetória também evidencia a importância dos vínculos sociais para a qualidade de vida na velhice.
Viúva desde os 33 anos, Luiza construiu sua trajetória ao lado das duas filhas, que tinham sete e oito anos quando perderam o pai. Hoje, a família cresceu: são três netos e dois bisnetos.
A disposição também aparece na maneira como aproveita a vida. Faceira, gosta de se arrumar, passear e resolver os assuntos da casa. Aprecia lanches e pizzas e, de vez em quando, não dispensa uma cervejinha. No condomínio onde mora, é querida pelos vizinhos. Um de seus programas favoritos é descer para passear e sentar no banco em frente ao prédio para conversar com as vizinhas, uma delas é a Lourdes Constantino. Vizinha há 32 anos, Lourdes mantém uma amizade com a dona Luiza. "Estou sempre de olho nela, assim como os outros vizinhos, ajudo com algumas coisas, nada demais, porque ela independente pra tudo, ela é amiga de todos do condomínio", comenta a vizinha.
A rotina inclui ainda caminhadas e cuidados com a saúde. Atualmente, Luiza toma apenas um medicamento, para controlar a pressão arterial. Entre as atividades que mantém regularmente, a ginástica no Centro do Idoso ocupa um lugar especial.
Movimento e convivência na rotina
A história de Luiza ajuda a ilustrar uma das dimensões do envelhecimento saudável: a possibilidade de continuar realizando atividades significativas e fazendo escolhas sobre a própria vida. Para a enfermeira Ana Romero, especialista em Saúde da Família e Comunidade, a longevidade não depende apenas das condições físicas.
“Muitos estudos mostram que não só o corpo deve estar saudável para termos longevidade, mas também a mente sã, com o objetivo de nos mantermos bem por muito mais tempo”, destaca.
Segundo Ana, o envelhecimento saudável está relacionado à preservação da capacidade funcional, que permite à pessoa idosa continuar sendo e fazendo aquilo que considera importante. Isso não significa, necessariamente, viver sem doenças, mas manter o bem-estar e a qualidade de vida mesmo diante de eventuais limitações.
A profissional ressalta a importância da prática regular de exercícios físicos, da alimentação equilibrada, da hidratação e da manutenção de atividades que proporcionem satisfação. Fisioterapia, caminhadas, contato com a natureza, passeios e participação em grupos de convivência também podem contribuir para a saúde física e emocional.
“É possível envelhecer mantendo a autonomia. Por isso, a importância de realizar exercícios físicos, fisioterapia, se movimentar, na verdade, para que o corpo e a mente saibam que o organismo está ativo e saudável”, explica.
Ana atua há 21 anos como enfermeira em Bagé e região, com experiência na assistência a pessoas idosas em atendimentos particulares, serviços de atenção domiciliar e instituições geriátricas. Também é professora em cursos de formação de cuidadores de idosos.
Autonomia exige atenção e cuidado
Morar sozinho não significa, necessariamente, estar em situação de vulnerabilidade. No entanto, a condição exige atenção às necessidades e às capacidades de cada pessoa, especialmente quando surgem mudanças físicas ou cognitivas.
Ana orienta que familiares e cuidadores observem alterações na rotina, como esquecimentos frequentes, dificuldade para encontrar caminhos conhecidos, problemas no uso do fogão, descuido com a higiene e a alimentação ou abandono de atividades habituais. Esses sinais merecem avaliação profissional para identificar possíveis necessidades de acompanhamento.
Para a enfermeira, o desafio está em oferecer proteção sem retirar da pessoa idosa a possibilidade de continuar fazendo aquilo que ainda consegue realizar.
“Temos que incentivar e não travar o que eles sempre gostaram ou fizeram”, afirma Ana. Ela defende que atividades antes realizadas de forma independente possam continuar sendo feitas com supervisão ou auxílio, quando necessário.
“Manter a dignidade de que eles ainda podem, ainda conseguem, mesmo que de uma forma mais limitada, é fundamental para que se sintam pertencentes a esse mundo”, acrescenta.
A profissional reconhece que encontrar esse equilíbrio exige dedicação diária das famílias e dos cuidadores. O objetivo é adaptar os cuidados às necessidades individuais, preservando a participação nas decisões e as atividades que contribuem para o bem-estar.
Centro do Idoso reúne cerca de mil inscritos
Em Bagé, o Centro do Idoso é um dos espaços destinados à promoção da convivência e da qualidade de vida da população com mais de 60 anos. De acordo com a coordenadora Leila Abdallah, o local conta atualmente com cerca de mil idosos inscritos em diferentes atividades.
A programação inclui ginástica, pilates, dança, crochê, tricô, idiomas, oficinas da memória, alfabetização, reiki, coral, atividades de uso de aplicativos de celular, teatro e grupos com psicólogo.
Para Leila, a proposta vai além da oferta de atividades. “Nós queremos que os idosos se sintam acolhidos, valorizados, façam amizades e tenham qualidade de vida, tanto física como emocional”, afirma. “O Centro do Idoso é, acima de tudo, um espaço de convivência, carinho e valorização da pessoa idosa.”
Luiza frequenta as aulas do professor Ely Castro desde a inauguração do Centro, assim como o próprio profissional. Segundo a coordenadora, acompanhar a participação da idosa é motivo de satisfação para a equipe.
“Para nós, é uma alegria muito grande recebê-la e ver a disposição dela em participar das aulas. Ela é um exemplo de que não existe idade para continuar se movimentando”, destaca Leila.
Atualmente, o Centro do Idoso não dispõe de vagas para novas inscrições. Conforme Leila, as rematrículas serão realizadas em novembro, enquanto as novas matrículas estão previstas para fevereiro. Para participar, é necessário ter mais de 60 anos e apresentar atestado médico, RG, CPF e comprovante de residência.

