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Memórias da Guerra Farroupilha: heróis e símbolos no Cemitério da Santa Casa de Bagé

Clarisse Ismério Historiadora, Doutora em História do Brasil. Professora na EEM Dr. Carlos Antônio Kluwe e na Urcamp Coordenadora dos Cursos de Pedagogia da Urcamp

Em 29/08/2026 às 08:00h
Memórias da Guerra Farroupilha: heróis e símbolos no Cemitério da Santa Casa de Bagé | Minuano Conecta | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
Mausoléu Visconde de Serro Alegre Foto: Divulgação

O Cemitério da Santa Casa de Caridade de Bagé guarda parte significativa da história da Rainha da Fronteira, que pode ser conhecida por meio das trajetórias de
seus vultos históricos, das representações simbólicas presentes na arte funerária e das releituras promovidas pelo imaginário social. Nesse contexto, a arte cemiterial
revela forte influência do culto aos heróis, amplamente difundido pela doutrina positivista, especialmente no Rio Grande do Sul.
Seguindo essa tradição, o Cemitério da Santa Casa de Bagé possui em seu acervo sepulturas dedicadas a personagens que participaram de importantes conflitos do século XIX, como a Revolução Farroupilha e a Guerra do Paraguai. Entre eles destacam-se Antônio de Souza Netto e João da Silva Tavares, o Visconde de Cerro Alegre.
O mausoléu de Antônio de Souza Netto, o monumento foi construído na Itália, em mármore de Carrara, e transportado em blocos para Bagé.(Bonés,1995) Conforme relatou Elaine Tonini Bastianello (2010), Antônio de Souza Netto faleceu em julho de 1866, em um hospital de Corrientes, na Argentina. Após sua morte, seus restos mortais foram trasladados em diferentes momentos. Inicialmente, foram trazidos de Corrientes para Bagé e inumados no jazigo-capela de sua família, no Cemitério da Santa Casa de Caridade, construído poucos anos antes por suas irmãs, Floriana Marques Netto e Bernardina de Mattos Netto. Posteriormente, suas filhas, Teotonia Netto e Maria Antonia Netto Mendilaharsu, residentes no Uruguai, providenciaram a transferência dos restos mortais para Montevidéu, onde permaneceram até o centenário de sua morte. Em 1966, retornaram definitivamente a Bagé, sendo depositados no mausoléu destinado a preservar sua memória. O processo de transladação ocorreu por iniciativa do historiador Tarcísio Antônio da Costa Taborda, com o apoio da Câmara Municipal de Bagé e do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul.
Apesar de seu perfil militar e de sua participação na Revolução Farroupilha (1835–1845) e na Guerra do Paraguai (1864–1870), Netto não foi representado iconograficamente como general em seu leito de morte. Ao contrário, sua imagem o eterniza como um herói ilustrado: em lugar da farda militar, veste terno e gravata, elementos associados, naquele contexto, à sobriedade, distinção e elegância. Essa escolha iconográfica contribui para construir uma imagem que ultrapassa a figura do guerreiro, aproximando-o dos ideais de civilidade e distinção social. Sua efígie ocupa a parte central do túmulo, inserida em um brasão celebrativo e rodeada por flores.
Na simbologia da arte cemiterial, as flores são frequentemente associadas à saudade e à efemeridade da vida.
A celebração e a perpetuação da memória do herói também se manifestam nas representações femininas presentes no mausoléu, interpretadas como alegorias do saber e do heroísmo. A alegoria do saber pode ser associada a Clio, musa da História, sobretudo pela presença de dois livros fechados. O livro colocado sobre seu colo pode ser interpretado como uma referência à história da Guerra Farroupilha, conflito no qual se construíram e difundiram ideais como liberdade, republicanismo, separatismo e liderança política no Rio Grande do Sul. O segundo livro, disposto sob o pé da figura, pode remeter à Guerra do Paraguai, outro episódio marcante da trajetória militar de Netto. Nessa leitura, Clio assume simbolicamente o papel de guardiã da História e da memória, perpetuando a trajetória do herói e vinculando-a à própria história de Bagé, cidade escolhida como sua última morada.
A terceira representação feminina, localizada à direita do conjunto escultórico, constitui a alegoria do heroísmo. Trata-se de uma jovem de semblante triste que sustenta, em seu colo, uma coroa de louros. Desde a Antiguidade Clássica, o louro representa vitória, honra e glória, sendo utilizado para homenagear heróis, governantes e atletas. Sua presença reforça, portanto, o caráter celebrativo do monumento e a construção simbólica de Netto como personagem digno de permanecer na memória coletiva.
Outro elemento de destaque é a anja guardiã em posição orante, localizada na parte superior do mausoléu do General Netto. Na arte cemiterial, os anjos aparecem como intermediários entre o mundo terreno e o divino, exercendo funções de proteção, condução e mediação espiritual.Nesse processo, consolida-se também a representação do anjo feminino, associada às qualidades socialmente atribuídas à mulher: consoladora, orientadora, protetora e guardiã da família.
Continuando a visita ao nosso museu a céu aberto nos deparamos com um mausoléu que se destaca pela sua simplicidade e altivez. O mausoléu em mármore é uma capela neoclássica que apresenta colunas inspiradas na estética dórica, tem no seu frontão uma coroa com pequenas flores que, para o cristianismo, simboliza a salvação alcançada ou ainda a saudade. Sob a capela tochas acesas representam a iluminação espiritual e o conhecimento. Entre elas o resto de uma cruz, que significa a morte e a ressurreição de Cristo.
O mausoléu pertence a João da Silva Tavares, o Visconde de Cerro Alegre, comandante da divisão de cavalaria do Exército Imperial Brasileiro e um dos representantes da nobreza vinculados à história da Rainha da Fronteira.
A nobreza tem suas origens no período medieval, no qual a fidelidade entre os senhores e guerreiros era garantida pelo pacto militar de suserania e vassalagem. O suserano protegia, dava sustentação jurídica e terra enquanto que em troca o vassalo prestava obrigações militares. Era uma forma de garantir a proteção mútua e a estabilidade administrativa e social.
Essa estrutura tornou-se mais complexa a partir do Império Carolíngio, quando Carlos Magno organizou a administração de seus domínios em três esferas: condados,  governados pelos condes; governos provinciais, controlados pelos duques; e as marcas, governos militares que tinham como função defender fronteiras.
No período moderno, devido à centralização do poder nas mãos do rei e o crescimento da corte, a nobreza passou a ser também palaciana (viviam nas cortes sustentadas pelos monarcas) e togada (compravam os títulos nobiliários).
No Brasil, a nobreza iniciou sua formação com D. João VI e foi mantida durante o I e II Império, seguindo a estrutura portuguesa: duques, marqueses, condes, viscondes e barões. Era um título concedido pelo monarca ao súdito por serviços prestados à coroa, mas existiam também aqueles que eram comprados. Em nenhum dos casos o título era hereditário.
João da Silva Tavares recebeu seus títulos em reconhecimento aos serviços prestados à monarquia e à lealdade dedicada ao Império. Em 1859, recebeu o título de Barão de Cerro Alegre e, em 1870, ao final da Guerra do Paraguai, foi elevado a “Visconde com Grandeza”. Essa distinção conferia-lhe maior prestígio dentro da hierarquia nobiliárquica imperial. Por seus serviços, também recebeu importantes honrarias, sendo agraciado como Comendador da Ordem de Cristo e Cavaleiro da Ordem de Avis.
Apesar das honrarias recebidas, seu mausoléu não apresenta uma iconografia ostensiva alusiva aos títulos nobiliárquicos ou às distinções que lhe foram concedidas. A única referência encontra-se na inscrição: “Sepulcro do Visconde de Cerro Alegre e sua família”. A sobriedade do monumento contrasta, assim, com a relevância política e militar do personagem.
Há, porém, um aspecto especialmente significativo para aqueles que percorrem as ruelas do Cemitério da Santa Casa de Bagé: o Visconde de Cerro Alegre repousa próximo de Antônio de Souza Netto, seu adversário durante a Revolução Farroupilha. Em 1836, na Batalha do Seival, as forças comandadas por Netto derrotaram as tropas imperiais ligadas a João da Silva Tavares. 
A proximidade entre os dois túmulos produz uma das mais instigantes narrativas desse espaço de memória. Homens que, em vida, estiveram em campos adversários e defenderam projetos políticos distintos encontram-se, após a morte, integrados ao mesmo patrimônio cemiterial. A antiga oposição transforma-se, assim, em memória compartilhada.
Grande ironia do destino!

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