Minuano Conecta
Um Gringo Velho em Bagé
por Melissa Louçan
Os fãs da literatura de horror reconhecem rapidamente qualquer menção a Carcosa, cidade arruinada e mítica criada pelo escritor americano Ambrose Bierce no conto Um habitante de Carcosa, publicado em 1886. A obra influenciou outros grandes nomes da literatura de horror, como Robert W. Chambers e H.P. Lovecraft, e deixou ecos até na cultura pop contemporânea, como na primeira temporada da série True Detective. Mas poucos sabem que, cerca de sete anos depois da publicação do conto, o Gringo Velho pode ter passado por Bagé.
A hipótese nasceu de uma série de indícios relacionados à Revolução Federalista, conflito que mergulhou o Rio Grande do Sul em uma guerra civil entre 1893 e 1895. À época, Bierce já era um nome conhecido nos Estados Unidos. Veterano da Guerra de Secessão, jornalista, crítico literário, satirista e escritor, havia transformado a experiência da guerra em matéria-prima de sua literatura. A alcunha de Gringo Velho foi popularizado pelo escritor mexicano Carlos Fuentes, que imaginou os últimos dias de Bierce durante a Revolução Mexicana.
Segundo a reconstrução feita pelo jornalista e historiador Décio Freitas, um correspondente identificado como “A. Bierce” acompanhava de perto a situação política do Rio Grande do Sul antes mesmo da eclosão da Revolução. Em junho de 1892, teria enviado ao Tribune, de Nova York, uma análise na qual previa que o Estado caminhava para uma guerra civil e relatava já ter entrevistado os dois principais líderes políticos daquele momento, Júlio de Castilhos e Gaspar Silveira Martins.
A pista chegou às mãos de Freitas durante suas pesquisas para O homem que inventou a ditadura no Brasil. Ao investigar matérias sobre o conflito em jornais platinos, ele encontrou, no argentino La Prensa, um artigo assinado por “A. Bierce”. A descoberta o levou à coleção do New York Tribune, em Nova York. Segundo a reconstrução publicada sobre a pesquisa, ali estavam 62 cadernos relacionados à temporada do correspondente na América do Sul, 18 deles dedicados ao Rio Grande do Sul e principalmente à guerra civil.
Foi justamente nessa etapa da investigação que surgiu o primeiro grande problema: não era possível afirmar com absoluta certeza que o “A.” daqueles textos correspondia a Ambrose Bierce. Os biógrafos do escritor americano não registram sua passagem pelo Rio Grande do Sul. Décio Freitas, porém, teria associado o jornalista ao escritor a partir de um conjunto de circunstâncias e pelo estilo da prosa.
Os textos atribuídos ao correspondente mostram, no entanto, que quem os escreveu acompanhava atentamente a política gaúcha. Em um dos relatos, Júlio de Castilhos aparece como um líder positivista cuja ascensão poderia resultar no que Bierce teria chamado de “invenção de uma ditadura eletiva”. A expressão teria inspirado o título escolhido posteriormente por Décio Freitas para seu livro.
A possível passagem pelo Rio Grande do Sul também aparece na reconstrução feita pelo jornalista e escritor Laurentino Gomes em 1889. Segundo o relato, Bierce estaria em Buenos Aires quando tomou conhecimento, por meio da imprensa argentina, da violência ocorrida durante a Revolução Federalista. Uma das versões afirma que, depois de ler no La Prensa uma notícia sobre o massacre do Rio Negro, ele teria vindo para o Rio Grande do Sul para acompanhar de perto os acontecimentos.
A descrição atribuída ao correspondente é justamente um dos elementos que tornou a história tão persistente. Segundo a reconstrução de Freitas, também citada por Laurentino Gomes, Bierce teria relatado ter encontrado cadáveres de homens degolados e mulheres mortas a tiros, além de crânios espalhados pelo chão. A cena seria consequência do massacre da degola ocorrido na região do Rio Negro durante a Revolução Federalista.
POrém, é importante separar os indícios do que pode ser comprovado documentalmente. Há registros atribuídos a um jornalista identificado como “A. Bierce” sobre a crise política e a Revolução Federalista. Há também uma reconstrução posterior segundo a qual esse correspondente teria viajado de Buenos Aires ao Rio Grande do Sul para investigar a violência no Rio Negro. O que não existe, até o momento, é uma prova documental definitiva que permita afirmar que Bierce tenha estado na Rainha da Fronteira em determinada data, ou que tenha presenciado pessoalmente determinado episódio da guerra. A própria identificação do A. Bierce como o célebre escritor americano permanece baseada em um conjunto de circunstâncias.
Mas a dúvida não impediu que a história atravessasse da pesquisa histórica para a literatura. Na brecha entre o que a história consegue provar e o que ela permite imaginar, entra o escritor bajeense Rodrigo Tavares. Autor de obras como Andarilhos e Carancho, Tavares encontrou na possibilidade de uma passagem de Bierce pela região um elemento que se encaixava no universo de seu romance sobre a Revolução Federalista. Em Carancho, o americano deixa de ser apenas uma figura possível dos registros históricos e se transforma em personagem.
Durante pesquisa para a obra, Tavares se deparou com a figura de Bierce e com os textos assinados por “A. Bierce” sobre a situação do Rio Grande do Sul. A existência desses registros, somada às referências posteriores à presença do jornalista no Estado e à possível investigação do massacre do Rio Negro, foi suficiente para abrir uma possibilidade literária.
Para Tavares, porém, a questão mais interessante não era resolver definitivamente a presença do americano em Bagé. Era justamente explorar a possibilidade. “A partir daí, a pergunta que me interessou não foi simplesmente ‘Bierce esteve em Bagé?’. Foi: e se tivesse estado? É aí que começa a literatura”, explica.
A Revolução Federalista, marcada por episódios de extrema violência e pelas degolas, oferecia um cenário em que a experiência do escritor americano encontrava um inesperado espelho. “Ele é alguém que vem de fora, mas encontra aqui uma violência que reconhece”, observa Tavares.
Tavares faz questão de estabelecer uma fronteira entre aquilo que pode ser sustentado historicamente e o que pertence ao território da criação literária. Em vez de preencher a lacuna com uma certeza que os documentos não permitem, Carancho trabalha com a possibilidade. “A literatura não precisa resolver aquilo que a História não conseguiu resolver. Pelo contrário: às vezes, uma lacuna histórica é justamente o lugar onde a ficção pode trabalhar”, afirma Tavares.

