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Turismo do Pampa conquista prioridade em novo programa de crédito do Estado
por Miquéli Romero
Por muito tempo, falar do Pampa era falar da força do campo, das grandes extensões de terra, da pecuária, da agricultura e de um modo de vida profundamente ligado ao território. Aos poucos, porém, uma nova possibilidade vem ganhando espaço nessa paisagem: a de transformar o patrimônio natural, cultural e gastronômico da região também em experiência turística.
É nesse cenário que o Pampa aparece entre as quatro regiões prioritárias do CrediTur RS, programa do Governo do Estado voltado ao financiamento de empresas do setor turístico. A iniciativa, apresentada oficialmente em 30 de julho, no Palácio Piratini, em Porto Alegre, disponibiliza recursos para investimentos que podem contribuir para a modernização e a qualificação de empreendimentos. A região esteve representado no lançamento pela presidente da Associação Pampa Gaúcho de Turismo (Apatur), Luciane Gomes.
A prioridade dada ao Pampa nos primeiros 90 dias de operação da linha, ao lado do Vale do Taquari, da Costa Doce e do Litoral Norte, vai além de uma definição administrativa. Para quem atua no setor, ela representa também um reconhecimento: existe potencial turístico na região e há espaço para que esse potencial seja transformado em novos negócios, experiências e oportunidades. “Eu vejo isso como um reconhecimento muito importante do potencial que a nossa região possui”, avalia Lorenzo Baraldi, chef e proprietário da Osteria Santa Tecla, em Bagé.
Para ele, a Campanha reúne características que dificilmente podem ser reproduzidas em outros destinos. A paisagem do Pampa, a cultura de fronteira, a gastronomia, os vinhos, os azeites e o patrimônio histórico formam, segundo o empresário, um conjunto capaz de oferecer ao visitante uma experiência autêntica. “Hoje, ela começa a ser percebida também como um território capaz de oferecer experiências turísticas diferenciadas”, afirma.
Quando o potencial vira investimento
O CrediTur RS prevê R$ 100 milhões destinados ao capital de giro de empresas do setor de turismo do Rio Grande do Sul. Inicialmente, R$ 20 milhões serão disponibilizados para cada um dos sistemas de crédito participantes, na região do Pampa, as agências do Sicredi e Sicoob, Empresas de todos os portes podem acessar os recursos, desde que estejam regularizadas junto ao Cadastur, do Ministério do Turismo.
O limite é de até R$ 4 milhões por CNPJ. Os recursos podem ser utilizados, entre outras finalidades, em melhorias e ampliações de estruturas, permitindo que empreendimentos já existentes possam se preparar melhor para receber visitantes.
É justamente nesse ponto que o crédito encontra uma demanda concreta do setor. “Um exemplo é a melhoria de instalações, ampliação de instalações. Alguém que tenha uma pousada e que pretende fazer uma ampliação, fazer mais quartos ou melhorar sua estrutura, reformar aquilo que já existe, é uma possibilidade de entrar nessa linha”, explica Joamar Vieira, gerente regional de desenvolvimento do Sicredi.
A instituição está entre as cooperativas responsáveis pela operação da linha e já iniciou os atendimentos. Segundo Vieira, o primeiro passo para o empresário é procurar uma agência com uma ideia clara sobre aquilo que pretende melhorar ou investir.
Não é necessário chegar com um projeto completo. A orientação é apresentar inicialmente a necessidade e uma estimativa do investimento. A partir daí, a instituição avalia a capacidade econômico-financeira da empresa e orienta os próximos passos.
A linha pode ser contratada em prazo de até cinco anos, com possibilidade de até um ano de carência. A taxa é composta pelo IPCA mais 6% ao ano, e os pagamentos podem ser ajustados ao fluxo de caixa da empresa, conforme as condições da operação.
O crédito como ferramenta para contar a história do território
Para Wendel Moraes, assessor de Pessoa Jurídica do Sicredi, a iniciativa encontra sintonia com o próprio papel da cooperativa nas comunidades onde atua. “É uma modalidade destinada justamente ao fomento do turismo na nossa região”, explica.
O Sicredi possui atuação tanto no Pampa quanto na região da Costa Doce, duas áreas contempladas pela política de incentivo. Para Moraes, fomentar o turismo significa também estimular uma atividade que ainda possui espaço para crescer e que pode contribuir para movimentar diferentes setores da economia. “Promover essa história que nós temos e essa área que pode ainda ser tão explorada, que é a área do turismo”, destaca.
Joamar Vieira reforça que o interesse da cooperativa vai além da operação financeira. “Tudo aquilo que vem trazer desenvolvimento local nos interessa. A gente entende que nós só temos condições de crescer se a nossa região cresce”, afirma.
A lógica ajuda a explicar por que uma pousada, um restaurante, uma vinícola ou outro empreendimento turístico não deve ser analisado de forma isolada. Quando um negócio melhora sua estrutura, a movimentação pode chegar a fornecedores, trabalhadores, produtores, restaurantes, comércio e outros serviços.
É uma cadeia que começa em um empreendimento, mas pode terminar em toda a comunidade.
Um destino que quer crescer sem perder sua identidade
Para Lorenzo Baraldi, o momento pode representar uma oportunidade para elevar o padrão do turismo regional, mas também traz uma responsabilidade. “Eu acredito que esta seja uma oportunidade para elevar o nível do turismo regional. Não apenas para construir novos empreendimentos, mas para qualificar aquilo que já existe. Muitas vezes, o diferencial não está em fazer mais, mas em oferecer uma experiência melhor”, observa.
O empresário defende que o crescimento seja acompanhado pela preservação das características que tornam o Pampa singular. Afinal, o visitante não procura apenas uma estrutura nova. Procura justamente aquilo que não encontra em qualquer lugar. “A gente precisa crescer preservando aquilo que faz o Pampa ser especial. O visitante procura justamente a autenticidade da região, sua paisagem, sua cultura e sua forma de receber”, afirma.
Um movimento que já começou
A prioridade concedida pelo Estado não surge em um território vazio. Municípios da região vêm trabalhando na construção de uma governança turística e na valorização de diferentes segmentos, como turismo rural, gastronomia, enoturismo, patrimônio histórico e experiências ligadas à cultura do Pampa.
A presidente da Apatur, Luciane Gomes, que representou Bagé no lançamento do programa, considera que o acesso ao crédito pode ajudar a transformar projetos em realidade. “Essas linhas de crédito representam oportunidades concretas para que nossos empreendedores possam modernizar seus negócios, qualificar e ampliar seus serviços. Beneficiam não apenas Bagé, mas todos os municípios que trabalham para consolidar o Pampa como um destino turístico”, afirma.
O secretário municipal de Turismo, Gustavo Andrade, também avalia que a escolha da região entre as prioridades demonstra o resultado da articulação regional. “A inclusão do Pampa entre as regiões prioritárias demonstra que o trabalho de articulação regional está trazendo resultados concretos”, destaca.
Mais do que uma linha de financiamento, o CrediTur RS coloca uma pergunta diante do Pampa: o que a região fará com o reconhecimento de seu potencial? A resposta poderá estar nas pousadas que ampliarem seus quartos, nos restaurantes que qualificarem suas experiências, nas propriedades rurais que abrirem suas porteiras, nas vinícolas que receberem visitantes e nos empreendedores que encontrarem no turismo uma nova possibilidade de negócio.
O Pampa sempre teve uma história para contar. Agora, a oportunidade é transformar essa história em experiência e fazer dela também um caminho para o desenvolvimento.

