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Guapamala transforma arte, convivência e resistência em cultura viva em Bagé
Espaço criado pela atriz e arte-educadora Thay Fernandes reúne coletivos, promove oficinas e feiras e leva a produção cultural de Bagé para além das fronteiras do município
por Márlon Castro Posqui
O aroma do café passado se mistura ao incenso, enquanto uma música embala conversas, entre livros, objetos artesanais, texturas e cores. Na Guapamala Artesanal Cultural, cada detalhe convida a permanecer. O espaço acolhe não apenas pelo que oferece aos olhos, mas pela atmosfera que cria. Surgida a partir do desejo da atriz, diretora, performer e arte-educadora, Tai Fernandes, de criar um centro cultural em Bagé, a iniciativa acabou se tornando um espaço de encontro para diferentes manifestações artísticas e, atualmente, um Ponto de Cultura reconhecido pelo Ministério da Cultura.
Formada em Teatro pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Tai trabalha com arte há cerca de 25 anos. Depois de viver em cidades como Pelotas, Porto Alegre e Florianópolis, decidiu retornar a Bagé e trazer consigo o projeto da Guapamala. A ideia inicial era ampliar o espaço como um centro cultural, mas a pandemia interrompeu os planos. Foi nesse período que a pizzaria passou a ocupar um papel importante na manutenção da estrutura.
A cultura, entretanto, nunca deixou de estar no centro da proposta. Aliás, segundo a artista, gastronomia também é uma forma de expressão artística. Ao longo dos anos, a Guapamala passou a receber grupos e coletivos para reuniões, oficinas e formações. Hoje, mais de dez coletivos utilizam o espaço, que também abriga feiras, shows e atividades de diferentes áreas.
A certificação como Ponto de Cultura, concedida pelo Ministério da Cultura, ampliou essa atuação. A Guapamala passou a integrar uma rede que, segundo Tai, permite não apenas fortalecer as ações desenvolvidas localmente, mas também estabelecer conexões com outros territórios. Recentemente, o espaço esteve na Teia Nacional dos Pontos de Cultura, realizada em Aracruz, no Espírito Santo, representando Bagé e a região da fronteira.
Economia criativa que circula
Entre as principais atividades desenvolvidas pela Guapamala estão as feiras de economia criativa e solidária. Para Tai, elas cumprem uma função que vai além da exposição de produtos: colocam dinheiro em circulação e dão visibilidade a pessoas que muitas vezes não possuem um espaço físico para apresentar aquilo que produzem.
Artesãos, produtores de alimentos e artistas encontram nas feiras uma possibilidade de comercialização e de aproximação com o público. Ao mesmo tempo, o espaço mantém uma agenda de formação, com oficinas gratuitas de escrita criativa, teatro, música e ritmos. Há ainda parcerias com iniciativas como o Hip Hop, além de outros Pontos de Cultura.
É justamente a condição fronteiriça que, para Tai, pode ser um diferencial para a produção cultural local. Ela integra um Grupo de Trabalho internacional voltado aos territórios de fronteira e à integração latino-americana, representando a região do Pampa. A proposta é ampliar a circulação de informações, projetos e oportunidades e aproximar também artistas de países vizinhos, incluindo comunidades e bandas uruguaias.
A pizza que mantém o espaço
Se a Guapamala consegue manter suas portas abertas para diferentes coletivos, parte dessa história passa pela cozinha.
A pizzaria surgiu como uma alternativa para sustentar financeiramente o espaço e acabou se tornando uma das principais responsáveis por sua continuidade. Segundo a artista, há mais de seis anos a Guapamala não recebe fomentos ou incentivos, e são os recursos gerados pela atividade gastronômica que ajudam a manter o local funcionando e disponível para os grupos culturais.
E até a pizza carrega um pouco da identidade artística do espaço. Entre os sabores estão opções batizadas com nomes de artistas, como a Frida Kahlo, uma pizza vegetariana, colorida e apimentada.
Hoje, a Guapamala vive uma nova fase. O espaço passou a funcionar em um formato mais intimista, que Tai define como um “restaurante secreto”. O atendimento ocorre mediante reserva, permitindo que grupos sejam recebidos em uma experiência mais próxima e personalizada. Ao mesmo tempo, a proprietária segue envolvida na articulação das políticas públicas voltadas à cultura.
Expressões que vem da comunidade
Ser reconhecida como Ponto de Cultura não significa apenas receber um título. Existe uma atuação que precisa ser comprovada e mantida. Oficinas, feiras, apresentações e formações são parte dessa trajetória.
A artista explica que a proposta dos Pontos de Cultura está ligada à chamada Cultura Viva, política que busca reconhecer manifestações culturais que muitas vezes estiveram fora dos espaços tradicionais de produção artística. Nesse campo entram desde grupos de teatro e dança até hip-hop, capoeira, comunidades indígenas e quilombolas e outras expressões culturais de base comunitária.
No Rio Grande do Sul, Tai aponta a existência de 846 Pontos de Cultura, enquanto Bagé reúne cerca de 30. Em âmbito nacional, são aproximadamente 16 mil. A rede também começa a ultrapassar as fronteiras brasileiras, com iniciativas em países como Chile e Argentina.
É dentro dessa rede que a proprietária do espaço também atua como delegada nacional e participa da comissão e do comitê estadual dos Pontos de Cultura. Os grupos trabalham na discussão das políticas públicas e na circulação de informações sobre leis e editais que podem chegar aos municípios.
Políticas públicas e a sobrevivência
Para além das atividades culturais, existe uma questão que atravessa a rotina de quem mantém um espaço como a Guapamala: como fazer a cultura sobreviver?
A resposta passa, segundo Tai, pelo financiamento público. Ela destaca que os editais são fundamentais para que grupos possam se manter e para que artistas tenham condições dignas de trabalho.
“Artista também tem família e também tem filhos para sustentar.”
A preocupação aparece justamente porque a produção de um projeto cultural envolve pesquisa, elaboração, documentos e uma série de exigências. Para quem trabalha de forma independente, nem sempre há recursos próprios para manter essa estrutura funcionando.
Por isso, a defesa dos Pontos de Cultura também é uma defesa de políticas públicas permanentes. Tai participa atualmente das discussões sobre a destinação de recursos para a Cultura Viva e sobre a manutenção de mecanismos de fomento aos grupos que atuam diretamente com as comunidades.
A Guapamala, nesse cenário, representa uma das faces de uma cultura que acontece fora dos grandes centros e dos espaços tradicionalmente destinados à arte. Uma cultura feita de oficinas, feiras, apresentações, reuniões, comida, encontros e articulação.
No fim, a ideia que movimenta o espaço é fazer com que a cultura esteja presente no cotidiano. Não como algo distante ou reservado a poucos, mas como parte da vida da comunidade. De ponto em ponto, de coletivo em coletivo, mantendo a arte em circulação.
Para saborear pizzas artesanais de diferentes sabores e vivenciar um pouco da cultura que pulsa no espaço, faça sua reserva pelo número: 53 9 9924-0013.

