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Suco Voador: quando o rock deixa de ser música e vira experiência
por Yuri Cougo Dias
Por Yuri Cougo Dias
Há coisas que não foram feitas para serem completamente compreendidas. Talvez a psicodelia esteja entre elas. É justamente quando a razão começa a perder o controle sobre o caminho que a imaginação encontra espaço para avançar. Foi assim, em algum ponto entre guitarras distorcidas, improvisos, filosofia, blues e uma vontade quase artesanal de fazer diferente, que nasceu a Suco Voador. Em Bagé, a banda construiu sua trajetória sem a pressa de acompanhar tendências e sem a obrigação de explicar ao público exatamente o que ele deveria sentir. “Se vocês não me entendem, eu sinto que eu tenho razão.” A frase, escolhida pelos próprios integrantes para resumir a banda, parece menos uma provocação do que uma espécie de manifesto. É um ponto de partida para compreender uma música que não pretende entregar todas as respostas. O convite é outro: entrar, ouvir e deixar a consciência percorrer outros caminhos.
A Suco Voador surgiu em 2021, ainda sob a atmosfera estranha de um mundo atravessado pela pandemia. Enquanto as ruas lentamente retomavam seus movimentos, Matheus Azevedo e André Reck começaram a construir as primeiras composições, experimentando sons e gravando ideias. No fim daquele ano, com a retomada das atividades presenciais, veio a primeira apresentação ao vivo. O que havia começado como experimentação ganhou corpo, volume e, principalmente, público. Atualmente, a formação reúne Matheus Azevedo, no baixo e vocal; André Reck, no teclado; Pedro Coelho, na bateria; Pedro Albano, na guitarra; e Felipe Gamonal, também na guitarra. O próprio nome já carregava a intenção. “Suco Voador” nasceu para provocar estranhamento, curiosidade e uma associação imediata com aquilo que escapa do cotidiano.
A história da psicodelia, afinal, também nasceu de uma recusa. Entre o fim dos anos 1960 e o início dos 1970, uma geração de músicos passou a tratar o rock não apenas como gênero, mas como território de experimentação. Pink Floyd ajudou a transformar atmosferas em linguagem. No Brasil, Os Mutantes, Novos Baianos, Som Nosso de Cada Dia e Casa das Máquinas encontraram maneiras próprias de absorver aquele espírito e devolvê-lo ao país, misturando psicodelia, rock, samba, blues, música popular e liberdade. A Suco Voador bebe dessa fonte sem tentar reproduzi-la como peça de museu. As referências aparecem como ecos, não como cópias. Há o rock psicodélico e progressivo, há o blues, há a música brasileira, há a filosofia e, sobretudo, existe a vontade de não fechar a música dentro de uma única possibilidade.
É nos palcos que essa fresta se transforma em abismo. No bosque do Palacete Pedro Osório, durante a edição deste ano do Rock no Galpão, a Suco Voador encontrou um cenário que parecia desenhado para sua música. Entre árvores, sombras, a arquitetura histórica do entorno e uma plateia formada por diferentes tribos da cena alternativa, a apresentação foi menos uma sequência de músicas do que uma experiência coletiva. A guitarra rasgava o ar, o baixo sustentava o chão e, por alguns instantes, parecia haver menos separação entre quem estava no palco e quem acompanhava do lado de fora.
Talvez seja essa uma das heranças mais interessantes da psicodelia: a compreensão de que ouvir também pode ser uma forma de viajar. A música pode alterar a percepção do tempo, provocar lembranças, despertar imagens, reorganizar sentimentos. Pode tocar em questões que não cabem em uma letra objetiva. Pode sugerir uma experiência espiritual sem necessariamente recorrer à religião. Pode simplesmente abrir uma janela para que cada pessoa olhe o mundo de outro jeito durante alguns minutos. Filosofia, existência, tempo, relações humanas e diferentes maneiras de enxergar a realidade aparecem nas letras. Mas a música não chega com uma placa indicando o significado correto. Cada ouvinte pode construir o seu.
Essa liberdade também aparece no processo de criação. Algumas músicas nascem das composições individuais de Matheus Azevedo ou André Reck; outras são construídas em parceria. Depois, o material chega aos demais integrantes e passa por um processo coletivo de transformação. Arranjos são acrescentados, ideias são modificadas e a canção vai encontrando sua forma definitiva. Ao vivo, porém, ela deixa de ser definitiva novamente. A improvisação permite que uma mesma música respire de maneira diferente a cada apresentação. Essa disposição para experimentar não está restrita aos instrumentos. A Suco Voador se tornou parte de uma rede cultural independente que vai além dos palcos convencionais. Seus integrantes também participam da organização de festivais e iniciativas culturais, aproximando a banda de artistas, produtores, coletivos, artesãos e diferentes formas de manifestação artística que ajudam a construir uma cena própria em Bagé.
Nesse ambiente, música não é uma ilha. Uma banda conversa com um artista plástico, um artesão conversa com um produtor, um festival aproxima públicos diferentes e um espaço alternativo pode se transformar em ponto de encontro para quem procura algo que não encontra nos circuitos tradicionais. A Suco Voador está inserida justamente nessa movimentação. O Rock no Galpão talvez seja uma das expressões mais visíveis dessa filosofia. Ao incentivar a produção autoral e independente, o festival cria uma possibilidade de encontro. É ali que músicos encontram músicos, público encontra novos sons e a cidade reconhece que também existe produção cultural acontecendo longe dos grandes centros.
Produzir arte no interior, contudo, continua sendo uma tarefa que exige insistência. A distância dos grandes circuitos dificulta a circulação, reduz oportunidades e torna cada apresentação uma pequena conquista. Mas também existe uma força particular nessa condição: quando o espaço não está pronto, é preciso construí-lo. E a Suco Voador ajuda a construir. Participações no Morrostock, no Bando de Rock e nas edições do Rock no Galpão estão entre os momentos que marcaram a trajetória da banda. Mais do que os lançamentos, foram os palcos que ajudaram a consolidar sua identidade. É diante do público que o projeto deixa de ser apenas uma coleção de músicas e se transforma em presença.
A banda já colocou no mundo um EP de estreia e singles como “Nada é Preciso”, “Daqui Pra Frente” e “Arco-Íris de Papel”. Agora, novas composições estão em desenvolvimento, acompanhadas do planejamento de novos lançamentos e da intenção de ampliar a circulação por outras cidades e festivais. Mas talvez seja um erro procurar compreender a Suco Voador apenas pelos discos, pelas músicas ou pelas referências. Há algo mais na proposta. Uma atitude. Uma disposição para atravessar fronteiras entre música e outras formas de expressão. Uma tentativa de preservar a criação autoral em um tempo em que tendências surgem e desaparecem com velocidade. No fundo, talvez a banda esteja interessada justamente naquilo que não cabe em algoritmo, rótulo ou fórmula.
E então voltamos à frase. “Se vocês não me entendem, eu sinto que eu tenho razão.” Pode soar como ironia. Pode soar como provocação. Pode ser apenas uma brincadeira interna transformada em definição. Mas há uma verdade escondida ali: algumas experiências não precisam ser totalmente explicadas para fazer sentido. Talvez a Suco Voador seja isso. Uma banda que prefere a pergunta à resposta, o caminho ao destino, a experiência à explicação. Um punhado de rock psicodélico, blues, filosofia, improvisação e inquietação pairando sobre uma cidade do interior do Rio Grande do Sul. Um suco que, por alguma razão, decidiu voar. E talvez seja justamente por isso que ele não precise ser entendido. Basta embarcar.

