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Teatro Avenida se gabava de estrutura contra incêndios 80 anos antes de ser consumido pelas chamas
por Márlon Castro Posqui
Bagé carrega, em sua história cultural, uma marca recorrente: a destruição de espaços de espetáculo pelo fogo. Entre teatros, cinemas e casas de exibição, incêndios atravessaram décadas e mudaram a paisagem cultural da cidade. Um dos episódios mais marcantes aconteceu em 1997, quando o Edifício Avenida foi atingido por um incêndio de grandes proporções, encerrando simbolicamente a trajetória de um dos cinemas mais importantes da Rainha da Fronteira. Mas a relação do Avenida com o medo do fogo começou muito antes, há pelo menos 80 anos.
Em 1917, após o incêndio que destruiu o Teatro 28 de Setembro, a empresa responsável pelo então Teatro Avenida publicou no Jornal O Dever um comunicado buscando tranquilizar o público. O texto destacava que o espaço possuía estrutura moderna e preparada para evitar tragédias.
A nota afirmava que a cabine de projeção era “absolutamente incombustível”, construída com cimento armado, ferro e portas de aço. O comunicado ainda ressaltava a existência de mangueiras distribuídas pelo teatro, garantindo “a maior e mais perfeita segurança”.
“Em vista do incêndio que destruiu o Teatro 28 de Setembro, a Empresa do Teatro Avenida leva ao conhecimento do público que a sua cabine, além de ser construída de cimento armado, ferro e portas de aço, fica situada completamente fora da parte do edificio que forma a sala de espectáculos propriamente dita, por cujo motivo é absolutamente incombustível, além de possuir imediamente ao seu lado possante mangueira, assim como outras três situadas na plateia, no palco e no fundo do Teatro, que garantem a maior e mais perfeita segurança e cujo funcionamento é rigorosamente verificado cada dia.”
Naquele momento, o discurso fazia sentido. No início do século XX, incêndios em teatros e cinemas eram uma preocupação constante. Películas cinematográficas inflamáveis, iluminação precária e estruturas predominantemente de madeira transformavam casas de espetáculo em locais vulneráveis.
O antigo Avenida e o novo edifício
O Cine-Teatro Avenida original, inaugurado em 1914, funcionou até 1954, quando foi demolido. Em seu lugar, começou a construção de um novo complexo, inaugurado em 1957 como Edifício Avenida. O incêndio ocorrido em 1997 não atingiu o mesmo prédio citado no comunicado de 1917, mas sim o novo edifício construído décadas depois no mesmo local.
A nova estrutura passou a abrigar apartamentos, espaços comerciais e uma moderna sala de cinema, considerada uma das mais luxuosas do Rio Grande do Sul na época. Conforme registros históricos reunidos pela pesquisadora Elizabeth Macedo de Fagundes, o espaço possuía calefação, sistema de renovação de ar, poltronas estofadas e equipamentos de projeção de ponta para os padrões dos anos 1950. Foi nesse período que Bagé viveu sua era de ouro do cinema.
O empresário Aristides Kucera, um dos principais nomes da história cinematográfica da cidade, assumiu o controle do Avenida, além de outras salas importantes, como o Glória e o Capitólio. Na época, os cinemas de rua movimentavam a vida cultural bajeense e reuniam centenas de pessoas em sessões diárias.
O fim da era dos grandes cinemas
A partir das décadas de 1970 e 1980, os grandes cinemas de rua começaram a enfrentar crises sucessivas. Mudanças no mercado audiovisual, a concorrência da televisão e a queda do público afetaram diretamente as salas de exibição.
O Cine Glória encerrou as atividades no fim da década de 1970. O Capitólio fechou definitivamente em 1982. Já o Avenida resistiu até 1995, quando encerrou suas atividades. Mas, mesmo desativado, o prédio seguia como símbolo afetivo da cidade.
Embora ainda fosse conhecido popularmente como Teatro Avenida ou Cine Avenida, o edifício já não vivia os tempos áureos das sessões lotadas e das grandes apresentações culturais. Parte da estrutura abrigava apartamentos e espaços comerciais, enquanto a antiga sala de cinema permanecia desativada.
O incêndio de 1997
Na madrugada de 19 de março de 1997, um incêndio de grandes proporções atingiu o Edifício Avenida, no centro de Bagé. O fogo destruiu parte significativa da estrutura e mobilizou bombeiros, engenheiros, autoridades e moradores da cidade. A área mais atingida foi justamente a antiga sala de cinema. A edição de 20 de março de 1997 do Jornal Minuano classificou o caso como “o maior incêndio que Bagé assistiu”.
As reportagens da época relatavam destruição severa em setores internos, danos estruturais importantes e risco de desabamento. Nos dias seguintes, o local passou a receber perícias e avaliações técnicas realizadas por bombeiros, engenheiros e profissionais do Instituto de Criminalística.
As causas do incêndio nunca foram oficialmente esclarecidas. Uma das hipóteses levantadas na época apontava para um possível curto-circuito na rede elétrica. Além dos danos estruturais, o incêndio também destruiu parte do acervo guardado por Aristides Kucera, que mantinha materiais históricos relacionados aos cinemas da cidade.
Uma cidade marcada pelo fogo
O incêndio do Avenida não foi um caso isolado na história cultural bajeense. Outros cinemas e teatros da cidade também enfrentaram tragédias semelhantes ao longo do século XX. O Cinema Petrópolis foi destruído por um incêndio em 1937. O Cine Capitólio pegou fogo em 1941 e precisou ser reconstruído. Ainda no século XIX, o Cine Teatro Coliseu registrou uma explosão causada por um depósito de querosene utilizado na iluminação.
Mais do que coincidências históricas, esses episódios revelam como o fogo acompanhou a trajetória das casas de espetáculo em uma época em que a tecnologia de projeção, iluminação e estrutura ainda oferecia riscos constantes.
Quase três décadas depois, o incêndio do Avenida continua presente na memória coletiva de Bagé. O prédio não representava apenas um cinema. Era um espaço de convivência, encontros e experiências que atravessaram gerações. Foi ali que muitos bajeenses tiveram o primeiro contato com a sétima arte, assistiram a clássicos do cinema e viveram parte importante da vida cultural da cidade. Também, muitos tiveram seus primeiros encontros com os grandes amores de suas vidas.

