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A maternidade na perspectiva histórica: representações, papéis e transformações
Clarisse Ismério
Historiadora, Doutora em História do Brasil
Coordenadora dos Cursos de Pedagogia e História da Urcamp
Professora na EEM Dr. Carlos Antônio Kluwe e na Urcamp
O Dia das Mães constitui uma data marcada por profundos significados afetivos, sociais e históricos. Sua origem moderna está vinculada à atuação da norte-americana Anna Jarvis que, no início do século XX, empenhou-se na criação de uma data destinada à valorização das mães, inspirada pelo trabalho social desenvolvido por sua própria mãe, Ann Reeves Jarvis. Em 1914, o então presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, oficializou a celebração como uma data nacional, contribuindo para sua posterior difusão em diversos países, incluindo o Brasil, onde é comemorada no segundo domingo de maio.
No contexto brasileiro, a primeira celebração do Dia das Mães ocorreu em 1918, por iniciativa da Associação Cristã de Moços de Porto Alegre. Contudo, a oficialização da data deu-se apenas em 1932, durante o governo de Getúlio Vargas. Posteriormente, em 1947, o Arcebispo Dom Jaime de Barros Câmara determinou sua inclusão também no calendário oficial da Igreja Católica, reforçando seu reconhecimento institucional e ampliando seu alcance simbólico na sociedade brasileira.
A origem da palavra mãe está ligada a uma construção sócio-histórica, na qual é definida como a mulher que gera, dá à luz ou cria e educa filhos. Tornando -se assim a representanção do amor incondicional, proteção e cuidado.
Na Grécia antiga a figura da mãe oscilava entre o culto sagrado à fertilidade, glorificando as deusas Gaia (Mãe Terra) e Reia (Mãe dos Deuses), mas por outro lado predominava uma estrutura patriarcal limitadora do poder feminino. Uma vez que as mulheres casadas deveriam ficar restritas ao gineceu (um local separado do resto da casa, longe da visão do público), onde passavam a maior parte do tempo, cuidando da fiação, tecelagem e administração doméstica.
Já na Roma antiga, a figura materna (matrona) ocupava um papel central na organização da vida familiar. Cabia-lhe não apenas a procriação, mas também a educação dos filhos, sendo considerada o alicerce do lar (domus) e a principal responsável pela transmissão dos valores tradicionais (mos maiorum). Embora juridicamente submetida à tutela masculina,do pai ou do marido, e excluída da participação política formal, a mulher romana exercia influência no âmbito social e doméstico. Administrava o lar, coordenava as atividades familiares e atuava de forma indireta na projeção e no prestígio político de seus maridos.
Tanto na Grécia quanto em Roma, a presença de deusas-mães associadas à proteção das cidades reforçava a ligação simbólica entre o feminino e o cuidado coletivo. Nessa perspectiva, Carl Gustav Jung (1989) observa que as cidades podem ser compreendidas como símbolos maternos, pois acolhem e protegem seus habitantes, à semelhança da mulher que abriga seus filhos.
Na tradição cristã católica, o maior símbolo materno é a Virgem Maria, representada como modelo de pureza, obediência e devoção. Escolhida, segundo os evangelhos, para ser a mãe de Jesus Cristo, Maria tornou-se um ideal feminino que influenciou profundamente as concepções de maternidade no Ocidente.
Já na doutrina positivista, bastante influente no sul do Brasil, destacou-se a valorização da mãe como formadora das futuras gerações. Inspirada, em certa medida, na figura de Clotilde de Vaux, a ideia da “Mãe da Humanidade” reforçava o papel da mulher como “rainha do lar”, responsável por procriar, educar os filhos, cuidar do marido e administrar a casa. Essa construção, embora distinta do catolicismo, dialogava simbolicamente com a imagem mariana.
Tal representação da maternidade difundiu-se amplamente na literatura, nas artes visuais, na publicidade e na arte cemiterial, evocando frequentemente a imagem da mater dolorosa, cuja expressão máxima encontra-se na obra Pietà. A figura da mãe com a criança ao colo consolidou atributos como acolhimento, paciência e dedicação, associando a maternidade a uma suposta vocação natural para o sacrifício. Como observa Elisabeth Badinter (1985), esse ideal construiu a imagem de uma mãe permanentemente vigilante, cuja existência se organiza em função do bem-estar dos filhos.
Essa construção simbólica contribuiu para naturalizar a ideia de que toda mulher nasce para ser mãe, atribuindo-lhe, de forma quase exclusiva, às funções de cuidado e trabalho doméstico, o que historicamente limitou sua autonomia.
Entretanto, as transformações sociais contemporâneas têm questionado esse modelo. Hoje, a maternidade é cada vez mais compreendida como uma possibilidade, e não uma imposição. As mulheres conquistaram maior autonomia para decidir se desejam ou não ser mães, rompendo com padrões historicamente impostos pelo patriarcado.
Além disso, ampliaram-se as formas de vivenciar a maternidade. Há mães biológicas, adotivas e socioafetivas; mães solo, que assumem integralmente a criação dos filhos; mães que conciliam múltiplas jornadas de trabalho; e aquelas que se dedicam exclusivamente ao cuidado do lar. Destacam-se também as mães avós, as mães de coração (como tias, madrinhas e cuidadoras) e as mães em famílias homoafetivas, que reafirmam que o cuidado e o afeto não dependem de laços biológicos.
Temos também as mães de pets que expressam novas formas de vínculo afetivo, baseadas em cuidado, responsabilidade e apego emocional, evidenciando a ampliação contemporânea do conceito de maternidade.
Por outro lado, nem todas as experiências maternas devem ser romantizadas, uma vez que muitas mulheres enfrentam vulnerabilidades sociais, violência, sobrecarga emocional e ausência de apoio. Reconhecer essas realidades é fundamental para uma compreensão mais humana e plural da maternidade.
Assim, mais do que uma data comemorativa, o Dia das Mães constitui um convite à valorização de todas as formas de cuidado e à reflexão crítica sobre o papel social da maternidade. Celebrá-lo implica reconhecer a diversidade das experiências maternas e a necessidade de construir uma sociedade que apoie, respeite e valorize todas as mães, em suas múltiplas formas de existir.

