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José Francisco Botelho e a arte de reinventar palavras

“É preciso encontrar maneiras de renovar constantemente aquele assombro inicial que nos levou a escrever a primeira linha”

Em 09/05/2026 às 09:16h

por Melissa Louçan

José Francisco Botelho e a arte de reinventar palavras | Minuano Conecta | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
Bajeense também é reconhecido nacionalmente pelas traduções de obras de Shakespeare Foto: Divulgação

“Um minotauro tentando voar com as asas de Ícaro”. É assim que José Francisco Botelho define a própria literatura. A imagem improvável, mas simbólica, ajuda a compreender a obra de um autor que transita entre o fantástico, o filosófico e o mítico, construindo narrativas que parecem oscilar constantemente entre o sonho e a realidade. Mas a trajetória do escritor bajeense vai além da ficção: Botelho também é um dos principais tradutores literários do país, vencedor do Prêmio Jabuti em 2014, pela tradução de Contos da Cantuária, de Geoffrey Chaucer, e novamente em 2017, por sua tradução de Romeu e Julieta, de William Shakespeare.

E ele transita com naturalidade entre mundos distintos. Ao mesmo tempo em que recria, em português, os jogos de linguagem e os labirintos verbais de Shakespeare, o autor constrói uma literatura própria marcada por criaturas míticas, símbolos e atmosferas de estranhamento. Mesmo atuando há anos nas duas áreas, ele não hesita ao definir qual delas ocupa o centro de sua identidade artística: “O tradutor só existe graças ao escritor: sou um escritor que traduz, não um tradutor que escreve”.

Segundo Botelho, traduzir grandes autores significa mergulhar profundamente nas estruturas da linguagem. “A tradução de bons livros é sempre uma forma de aprendizado, pois nos permite viver dentro da literatura dos bons autores, convivendo com as ideias e as palavras como seres individuais, que acabam por se derramar sobre nossa rotina”, diz. Esse processo exige explorar os próprios limites do idioma. “Traduzir autores como Shakespeare nos leva a explorar os limites do idioma, as fronteiras das palavras e da escrita. Sempre voltamos transformados”, completa.

Inclusive, desenvolveu um método de tradução para trabalhar a escrita do dramaturgo inglês, denominado método polimétrico, utilizando diferentes métricas para traduzir o pentâmetro iâmbico e variando o tipo de verso conforme questões retóricas e metafóricas. Segundo ele, o objetivo é equilibrar proximidade e estranhamento na experiência do leitor. “Meu método é buscar um equilíbrio ou mesmo uma mescla entre a familiaridade e a estranheza, transmitindo ao leitor a impressão de que esses mundos tão longínquos no tempo e no espaço talvez estejam misteriosamente próximos”, explica.

A convivência intensa com esses textos também reforçou sua percepção de que toda tradução carrega, inevitavelmente, marcas pessoais. Para ele, não existe neutralidade absoluta quando um escritor traduz outro escritor. As escolhas de ritmo, vocabulário e construção verbal acabam atravessadas pela sensibilidade do próprio tradutor. Por isso, afirma preferir traduções feitas por escritores, justamente por carregarem voz e personalidade.

Entre os maiores desafios da carreira, Botelho cita os trocadilhos presentes nas obras de Shakespeare. Muitas vezes, a construção cômica depende da semelhança sonora entre palavras que simplesmente não possuem equivalente em português. Nesses casos, explica, o tradutor precisa praticamente reinventar a piada utilizando os recursos disponíveis no idioma brasileiro. 

Mas, curiosamente, uma das passagens mais difíceis que já traduziu não veio de um clássico inglês, mas da descrição de uma partida de baseball em um romance contemporâneo. Sem termos consolidados em português para boa parte das expressões do esporte, precisou encontrar soluções que evitassem uma página tomada por palavras em inglês. Atualmente, José Francisco Botelho trabalha em um romance histórico planejado em três volumes e segue dedicado à tradução de novas obras de Shakespeare, entre elas Antônio e Cleópatra.

Na literatura autoral, Botelho costuma construir narrativas atravessadas pelo fantástico. Muitas ideias surgem de fragmentos aparentemente banais: conversas, sonhos, leituras ou pequenas impressões do cotidiano. Um dos contos, relembra ele, nasceu quase inteiro durante um sonho. Outro teve origem em uma conversa com o escritor Eron Vaz Mattos sobre antigas crenças ligadas à clarividência dos cavalos, ideia que mais tarde daria origem ao conto Cavalos de Cronos, presente no livro de mesmo nome, vencedor do Prêmio Açorianos de Literatura nas categorias Livro do Ano e Contos.

Mesmo após prêmios e reconhecimento nacional, Botelho afirma que pouco muda na prática cotidiana da escrita. O verdadeiro desafio está em preservar o frescor da imaginação diante das pressões da vida adulta. “É preciso encontrar maneiras de renovar constantemente aquele assombro inicial que nos levou a escrever a primeira linha”, observa.

Mesmo sem viver mais na Rainha da Fronteira, o escritor segue defendendo que a boa literatura pode nascer em qualquer lugar. Para ele, o essencial é cultivar atenção ao cotidiano e curiosidade diante da experiência humana. “Todos os dias milhares de histórias passam por nós, muitas vezes sem que notemos”, observa ele, que foi Patrono da Feira do Livro de Bagé em 2018.

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