Minuano Conecta
O ano em que Bagé, ao sopro do Minuano, aprendeu a se narrar
por Redação JM
Antes mesmo do apito autorizar, já havia silêncio em Bagé. Um silêncio diferente, desses que vêm da expectativa. Enquanto Branco caminhava até a bola, ajeitando-a com um cuidado quase ritual, recuando alguns passos ao medir a distância, a barreira, o goleiro (e de algum modo invisível, também a própria cidade que ele carregava consigo), nos bares, diante dos televisores, os bajeenses prendiam a respiração como se pudessem, com isso, ajudar na trajetória daquele chute. E quando o pé encontrou a bola e ela desenhou sua curva no ar até estufar a rede da Holanda, Bagé explodiu em gol, como se o minuano soprasse mais forte, com a certeza de que, naquele instante, o destino de uma Copa do Mundo, da conquista de um tetracampeonato, passava de alguma forma pela Campanha Gaúcha.
Foi nesse mesmo tempo de pulsações coletivas, em que a Terra parecia caber numa sala de estar e uma cidade inteira podia se reconhecer num único gesto, que Bagé ganhava também outra forma de se ver e de se contar. Na manhã de 1º de abril de 1994, nascia o Minuano, jornal que se propunha a noticiar e traduzir esse espírito invisível que une uma comunidade em torno de suas histórias.
E o nome não poderia ser outro. O vento minuano, que atravessa a Campanha com sua presença firme e, às vezes, inclemente, bem mais do que fenômeno climático, é metáfora de resistência, identidade e permanência. Assim também se pretendia, desde o início, o jornal, um sopro constante de informação e memória, capaz de percorrer ruas, bairros e estâncias, ligando o centro ao interior, o cotidiano ao extraordinário.
Em uma época em que os grandes centros ditavam o ritmo das notícias, das páginas do Minuano passaram a emergir personagens que, como Branco naquele chute decisivo, carregavam consigo o orgulho de pertencer. Passava a existir, assim, espaço para tudo. Para a política local que moldava os rumos da cidade, para o comércio que resistia às mudanças econômicas, para o campo que sustentava gerações e para as vozes anônimas que raramente encontravam eco. O Minuano se tornou, aos poucos, uma espécie de praça pública impressa, onde o bajeense podia se reconhecer, discordar, celebrar e, sobretudo, participar.
Se o gol contra a Holanda naquele 3 a 2 em uma quarta de final mostrou que um filho Bagé podia, simbolicamente, interferir no destino de uma Copa do Mundo, o jornal provou, dia após dia, que a cidade também tinha o poder de narrar a si própria. E isso não é pouco. Contar-se é existir com mais força, é não depender apenas do olhar de fora, é afirmar que mesmo os acontecimentos mais cotidianos carregam em si uma dimensão de grandeza.
Ao longo de 32 anos anos, o Minuano acompanhou transformações, registrou conquistas e atravessou dificuldades, sempre com a mesma vocação inicial: aproximar a cidade de si mesma, os leitores de suas histórias e Bagé do mundo; esse mundo que, por vezes, parece distante, mas que, como naquele instante em 1994, pode caber inteiro no coração de uma comunidade.
E talvez seja essa a sua maior herança, a de lembrar que, entre o silêncio antes do chute e o grito depois do gol, existe um espaço para a narrativa. E é nele que uma cidade se reconhece, se preserva e se projeta. É nele que o vento continua soprando, página após página.

