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Mesmo com queda de leitores no país, clubes e biblioteca mantêm a leitura viva em Bagé
por Melissa Louçan
Apesar de o Brasil registrar queda no número de leitores nos últimos anos, o cenário local mostra sinais de resistência, e até de crescimento. Em Bagé, clubes de leitura, projetos comunitários e o movimento da Biblioteca Púbica Municipal Dr. Otávio Santos indicam que, embora o hábito de ler enfrente desafios, ele continua mobilizando grupos e criando novas formas de encontro em torno dos livros.
A contradição chama atenção: segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, considerada a principal referência nacional sobre o tema, o país perdeu cerca de 6,7 milhões de leitores entre 2019 e 2024. Atualmente, 47% dos brasileiros são considerados leitores, enquanto 53% não leram nenhum livro nos três meses anteriores à pesquisa. Ao mesmo tempo, especialistas apontam que nunca houve tanto acesso a livros, seja pela ampliação de bibliotecas, feiras literárias, clubes de leitura, redes sociais e facilidade de compra em plataformas digitais.
Se a oferta aumentou, porque a leitura caiu? Entre as explicações mais recorrentes estão a disputa de atenção com telas e redes sociais, a falta de tempo e as mudanças nos hábitos culturais. Mesmo assim, iniciativas coletivas têm buscado reverter esse cenário.
Nos últimos anos, clubes de leitura têm se multiplicado na cidade, reunindo leitores interessados em compartilhar experiências literárias. Entre os grupos ativos estão o Leia Mulheres, o Românticas Book Club, Contraponto, Contos de Godot, além de clubes ligados a instituições como o IFSul, a EMEF João Severiano e a Escola Justino Quintana.
A diversidade de propostas é um dos fatores que ajudam a explicar o interesse crescente. Há clubes voltados para romances, clássicos, literatura contemporânea ou debates mais amplos. Para quem participa, o encontro coletivo funciona como estímulo para manter o ritmo de leitura e descobrir novos autores.
A diretora da Biblioteca Pública Municipal Dr. Otávio Santos, Nelci Jeismann, observa que esse movimento tem se intensificado nos últimos anos. “Hoje existem clubes de leitura com os mais variados focos e formatos , presenciais ou online, pagos ou gratuitos, e não há quem possa dizer que não exista um que atenda às suas expectativas e gosto literário”, observa Nelci.
Para alguns leitores, a biblioteca acaba sendo mais do que um espaço de empréstimo de livros. O frequentador Rafael de Souza Wiesel deixou registrado em uma carta o impacto que o local teve em sua trajetória como leitor.
Depois de terminar o ensino fundamental, ele passou a frequentar o espaço em busca de novos interesses e descobertas. “Esta biblioteca deu o meio para me redescobrir”, escreveu. Entre romances, quadrinhos e livros de história encontrados nas estantes, Rafael conta que encontrou ali um caminho para desenvolver novos objetivos e curiosidade, algo que, para ele, a biblioteca segue oferecendo a quem passa por suas portas.
Biblioteca registra aumento de uso
Os números da Biblioteca Pública também indicam maior movimentação. Em 2025, o espaço registrou 2.049 empréstimos de livros de literatura, além de 3.218 leituras locais e 718 pesquisas em livros técnicos. Além disso, o local ainda recebeu 11.518 visitas para atividades diversas, como reuniões e jogos de xadrez.
Na comparação com 2024, houve crescimento em diferentes indicadores: 13,14% no número de empréstimos, 7,4% no total de sócios ativos e 9,29% no fluxo de frequentadores.
Outro dado expressivo é a ampliação do acervo. Apenas em 2025, a biblioteca recebeu 2.146 livros, provenientes de programas públicos, projetos culturais, doações de escritores e contribuições da própria comunidade. Entre as iniciativas estão envios do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas, do Plano Nacional do Livro Didático e de editoras contempladas pela Política Nacional Aldir Blanc.
“Percebemos que esse crescimento na procura por livros e pelo espaço da biblioteca tem relação com a divulgação do acervo nas redes sociais e também com o grande volume de conteúdo literário que circula hoje na internet”, afirma Nelci.
Os dados da biblioteca revelam ainda algumas preferências do público local. Entre os títulos mais emprestados em 2025 aparecem obras como o drama familiar Atlas, de Lucinda Riley; um peso pesado da ficção científica, Duna, de Frank Herbert; e o clássico da distopia contemporânea, A estrada, de Cormac McCarthy.
Já entre os autores mais procurados estão nomes bastante populares, como Nora Roberts, Lisa Kleypas, Anne Jacobs, Colleen Hoover e Julia Quinn. O levantamento mostra forte presença de romances contemporâneos e séries literárias.
Mulheres puxam a leitura e clubes ajudam a fortalecer o hábito
O perfil dos leitores também acompanha uma tendência observada no país. Dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil indicam que as mulheres leem mais do que os homens: são cerca de 50,4 milhões de leitoras, contra 42,9 milhões de leitores. Em termos proporcionais, 49% das mulheres são consideradas leitoras, enquanto entre os homens o índice é de 44%. A presença feminina predominante aparece também em muitos clubes de leitura e ajuda a explicar o sucesso de gêneros como o romance, justamente o tipo de obra que aparece com frequência entre os títulos mais emprestados na Biblioteca Pública de Bagé.
Se os números nacionais mostram que as mulheres são maioria entre os leitores brasileiros, em Bagé essa tendência também aparece na prática. Um exemplo é o Clube do Livro das Românticas, grupo formado exclusivamente por mulheres que se reúnem para ler e debater literatura romântica.
O clube surgiu de forma simples, a partir de uma publicação em rede social feita pela atual presidente, Victória da Cruz Ferreira. O primeiro encontro aconteceu em março de 2024, com apenas quatro participantes. Desde então, o grupo cresceu rapidamente e hoje reúne dezenas de leitoras, além de manter presença ativa nas redes sociais.
Ao longo desses dois anos, mais de uma centena de mulheres já passaram pelo grupo. Atualmente, o clube conta com cerca de 35 integrantes premium e mais de 70 participantes no grupo geral, que acompanham as leituras e discussões. Os encontros, que começaram de forma mensal, também ganharam novos formatos, incluindo sessões de cinema, atividades de lazer e até iniciativas voltadas a hábitos saudáveis, como o projeto Românticas Fitness.
Para as organizadoras, esse lado social ajuda a explicar o engajamento. Mais do que discutir livros, os encontros acabam se transformando em um espaço de convivência e amizade entre mulheres que compartilham o mesmo interesse.
{AD-READ-3}“Muitas mulheres gostam de romances, mas nem sempre falam sobre isso porque o gênero ainda é visto como fútil. Queríamos criar um espaço onde pudéssemos discutir nossas leituras sem julgamentos e compartilhar emoções”, explica a presidente.
A proposta também dialoga com um movimento mais amplo observado no país: a formação de comunidades de leitura. Em tempos de atenção disputada por telas e redes sociais, encontros presenciais e grupos online têm ajudado leitores a manter o hábito e a descobrir novos livros, muitas vezes a partir da motivação coletiva.

