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De Bagé à Assembleia: Santinha é homenageada por trajetória de trabalho comunitário
por Érica Alvarenga
Reconhecida na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul com o Troféu Mulher Cidadã 2026, na categoria liderança comunitária, Santa Geneci Scoto da Silva, popularmente conhecida como Santinha, indicada pela deputada Bruna Rodrigues, do PCdoB, carrega uma história construída muito antes da homenagem.
Primeira mulher negra a ocupar uma cadeira no legislativo bajeense, Santinha tem uma trajetória marcada por perdas, recomeços e, principalmente, pela escolha de dedicar a vida ao cuidado com outras pessoas.
O apelido que hoje a identifica nasceu na infância. Foi o pai quem começou a chamá-la de Santinha, por considerá-la a mais espontânea entre os irmãos. O nome ficou, atravessou décadas, comunidades e histórias. Mas por trás da leveza do apelido, existe uma infância difícil. Aos cinco anos, Santinha perdeu a mãe e passou a viver com os irmãos em uma rotina de ausência e instabilidade. O pai, ferroviário, passava longos períodos fora de casa, e as crianças precisaram aprender, cedo demais, a cuidar umas das outras. “Não foi uma infância fácil. A gente se criou praticamente sozinhos”, relembra.
Santinha passou a frequentar a escola mais tarde do que o habitual, e a sua juventude foi marcada pelo trabalho. Ainda adolescente, começou a trabalhar em casas de família, cuidando de crianças e ajudando nas tarefas domésticas. Aos 17 anos, enfrentou outra perda: a morte do pai. Sem uma estrutura familiar sólida, passou a viver de forma provisória. “Eu fiquei na rua, onde me dava um abrigo, eu ficava”, afirma.
Mesmo enfrentando dificuldades, Santinha lembra que sempre buscou ajudar quem estava ao redor. Um dos episódios que considera mais marcante aconteceu ainda na juventude, quando, ao trabalhar em uma região rural, passou a auxiliar uma família com sete filhos que não tinham o que comer. “Eu levava o que conseguia, ajudava como podia”, conta.
O gesto simples, repetido ao longo dos anos, se transformou em prática constante
Com o tempo, o que começou como uma ajuda espontânea se consolidou como trabalho comunitário. A atuação como líder comunitária também está diretamente ligada à espiritualidade, que ela define como um ponto de virada em sua vida. Foi a partir dessa conexão que o trabalho social ganhou ainda mais força e sentido.
Hoje, Santinha é líder espiritual no Templo de Jesus, onde o acolhimento espiritual caminha junto com a ação social. Quem procura atendimento no local também contribui com alimentos não perecíveis, que são destinados a famílias em situação de vulnerabilidade. A iniciativa deu origem a outras ações como distribuições de roupas, festas para crianças e apoio contínuo a moradores de diferentes comunidades da cidade.
Entre os projetos, um dos mais significativos é o Clube de Mães, onde atua como presidente. O espaço é voltado ao acolhimento de mulheres em situação de fragilidade, promovendo cursos que incentivam a autonomia financeira. Ao longo dos anos, Santinha chegou a coordenar grupos que reuniam centenas de participantes, promovendo apoio, orientação e fortalecimento feminino. “É um trabalho para que essas mulheres se tornem mais fortes dentro da sociedade”, explica.
Mesmo com o reconhecimento, ela destaca que a caminhada não foi fácil. Ao longo da vida, enfrentou dificuldades financeiras, perdas familiares e discriminação, ainda assim, desistir nunca foi uma opção. “Se Deus colocou essa luta, eu vou vencer. E eu venci”, afirma.
Além da atuação local, Santinha também passou por experiências fora de Bagé, incluindo vivências em outras cidades e participações em atividades religiosas que contribuíram para ampliar sua visão de mundo e reforçar seu compromisso com o próximo.
Para ela, o trabalho comunitário vai além da assistência material. É também uma forma de fortalecer vínculos, gerar pertencimento e devolver dignidade a quem muitas vezes não é visto. “Tem muita gente fazendo esse trabalho e ninguém vê. Mas é importante que as pessoas conheçam, para que também se inspirem”, diz.
A homenagem
O reconhecimento na Assembleia Legislativa, segundo Santinha, foi recebido com emoção. Durante a cerimônia, ela foi homenageada entre mulheres de diferentes regiões do estado, todas destacadas por sua atuação em comunidades. “Foi um momento muito lindo. Eu me emocionei muito. Não só por mim, mas por tudo que representa”, conta.
Além da distinção estadual, Santinha também foi homenageada em Bagé com a Comenda de Mérito Vereadora Lígia Farinha Almeida, concedida pela Câmara de Vereadores. A honraria, instituída em 2016 por proposição do então vereador Omar Ghani, tem como objetivo reconhecer mulheres que se destacam por sua atuação e pelas contribuições prestadas ao desenvolvimento social, cultural, comunitário e profissional do município.
A distinção é entregue anualmente e valoriza trajetórias femininas que impactam positivamente a comunidade. Neste ano, a indicação de Santa Geneci Scoto da Silva foi feita pela vereadora Andrea Gallina. A cerimônia aconteceu no dia 20 de março, na Câmara de Vereadores de Bagé.
Mulher, negra, de origem humilde e com uma trajetória construída a partir do trabalho voluntário, ela vê nas homenagens não apenas um reconhecimento individual, mas um símbolo coletivo. “Representa uma mulher que quer continuar trabalhando, que quer o bem, a união”, afirma.
{AD-READ-3}Para Santinha, o papel das mulheres dentro das comunidades é essencial. São elas, muitas vezes, que identificam necessidades, mobilizam ações e sustentam redes de apoio. Ao mesmo tempo, alerta para a violência e as dificuldades que ainda atingem mulheres em diferentes contextos.
Mesmo após a homenagem, o plano segue o mesmo: “Enquanto eu estiver aqui, vou continuar ajudando”, afirma.

