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Trabalho com madeira ganha novas formas nas mãos de artesão bajeense
por Suélen Delabari
O que para muitos pode parecer apenas um pedaço de madeira, para Ricardo Brignole pode ser o início de uma nova peça. Um formato diferente, uma curva, uma parte deteriorada ou um galho podem despertar no artesão a imagem de algo que ainda não existe, mas que ele já consegue visualizar.
Há cerca de oito anos, foi assim que surgiu a Brignole Artes em Madeira. O primeiro passo veio com duas tábuas de carne. Depois, vieram novas peças, ferramentas, estudos e o aperfeiçoamento de uma atividade que, aos poucos, deixou de ser apenas uma experiência para se transformar em um projeto profissional.
A relação com a madeira, no entanto, começou muito antes. Antes de ingressar no Exército, Ricardo trabalhou em uma fábrica de móveis, onde atuava como pintor. Foi naquele ambiente que passou a observar os retalhos deixados pela produção.
A ideia permaneceu guardada por anos. Até que decidiu experimentar. Fez duas tábuas, gostou do resultado e resolveu investir em equipamentos. Comprou uma serra e uma tico tico e começou a buscar conhecimento sobre os diferentes tipos de madeira e suas possibilidades.
Desde então, o trabalho foi crescendo.
Atualmente, a produção inclui tábuas de corte, petisqueiras, floreiras, cabides, porta chaves, abridores de garrafa, colheres de diferentes tamanhos e modelos, abajures, espelhos e luminárias. Algumas peças recebem também pintura hidrográfica, ampliando as possibilidades de acabamento.
Um olhar que encontra formas
O diferencial do trabalho está também na maneira como Ricardo observa a matéria prima. Em algumas peças, a forma final começa a existir antes mesmo do primeiro corte.
Um dos exemplos é uma madeira encontrada na casa do cunhado. O pedaço de tronco tinha aproximadamente dois metros e apresentava uma extremidade com formato irregular. Ricardo enxergou ali uma figura.
A partir daquele olhar, começou a trabalhar a madeira, retirando partes deterioradas e revelando aos poucos a forma que havia imaginado.
“Quando eu enxerguei ela, eu enxerguei algo aqui e me pareceu uma flor, foi ai que coloquei um ponto de luz e se tornou uma linda luminária”, conta.
O processo exige paciência. Algumas madeiras apresentam partes que não possuem aproveitamento ou características que só aparecem durante o trabalho. Por isso, a peça pode sofrer pequenas alterações ao longo do caminho. Ainda assim, a percepção inicial costuma orientar o artesão.
As tábuas utilizadas na produção de peças de corte são adquiridas em madeireiras. O artesão trabalha com diferentes tipos de madeira, incluindo materiais considerados nobres e o pinus.
Outras peças chegam pelas mãos de amigos. Pessoas que conhecem o trabalho do artesão encontram pedaços de madeira e os guardam para ele. “Quando enxergam algo, se lembram de mim e me trazem”, relata.
Assim, materiais que poderiam ser descartados encontram uma nova possibilidade. Cada pedaço passa a ser observado, limpo e trabalhado de acordo com aquilo que pode revelar.
Entre a tradição e o futuro
O trabalho artesanal também encontra espaço no período em que o Rio Grande do Sul celebra suas tradições. Durante a Semana Farroupilha, o fazer manual ganha destaque por sua relação com costumes, utensílios e objetos presentes no cotidiano do campo.
A madeira é uma matéria prima historicamente presente na vida campeira, utilizada na construção de ferramentas, móveis, utensílios e diferentes objetos. O trabalho de Ricardo dialoga com esse universo ao valorizar a transformação manual da matéria e a criatividade necessária para aproveitar cada peça.
Não se trata apenas de produzir um objeto. Existe um processo de observação, escolha, corte, acabamento e transformação. Um trabalho que exige tempo e dedicação e que mantém vivo o princípio de fazer com as próprias mãos.
Para Ricardo, o artesanato também representa satisfação pessoal. “Quando eu estou mexendo ali, esqueço de tudo”, resume.
Atualmente, a atividade ainda divide espaço com outras responsabilidades profissionais. Mas o objetivo está definido: migrar gradualmente para o artesanato e dedicar-se integralmente à madeira.
“É uma paixão trabalhar com madeira, que me completa essa área profissional e, se Deus quiser, vai ser com isso que eu vou seguir trabalhando”, afirma.
Enquanto esse projeto avança, novas peças continuam surgindo na oficina. E, diante de cada pedaço de madeira, permanece o mesmo exercício: olhar além do que está à frente dos olhos e descobrir o que aquela matéria ainda pode se tornar.

