Cidade
A morte silenciosa do Bioma Pampa
Quando muda a paisagem, o que acontece com a cultura construída em torno dela?
por Melissa Louçan
Márcia Colares conhece o Pampa desde sempre. Nascida e criada no distrito bajeense de Palmas, ela cresceu entre a pecuária familiar e os campos nativos que ainda marcam a paisagem e, ao longo dos anos, acompanhou de perto as transformações desse território. Isto porque no local, a transformação do bioma foi menor. Há áreas de soja e eucalipto, mas ainda pequenas diante da extensão do território. É quando percorre outras regiões da Campanha que ela percebe uma mudança mais profunda. “É latente a ‘invasão’ da monocultura e a ausência da pecuária”, afirma.
Os mapas mostram uma paisagem em transformação. Entre 1985 e 2024, o Pampa perdeu 3,8 milhões de hectares de vegetação nativa, redução de 30,3% em relação ao que existia no início da série. A maior parte da perda ocorreu nas formações campestres, que diminuíram cerca de 3,9 milhões de hectares no período.
Dados divulgados em agosto pelo MapBiomas aponta que o Pampa é o bioma brasileiro que mais perdeu áreas naturais desde 1985. Hoje, a vegetação campestre ocupa 31,3% do território, enquanto a agricultura já supera 45%. Apesar de representar apenas 2,3% do Brasil, o bioma concentra cerca de 9% da biodiversidade nacional, com mais de 12,5 mil espécies. Em apenas um metro quadrado, podem ser encontradas até 57 espécies de plantas.
Campo que sustenta famílias
No assentamento Abrindo Fronteiras, no interior de Hulha Negra, Marili Porto conhece a transformação por outro ângulo. A família cultiva cerca de 1,2 mil pés de uva em meio hectare. O pomar com outras frutas começou a ser formado em 2014 e as primeiras videiras chegaram à produção alguns anos depois.
O primeiro ano foi de comemoração. A produção, segundo Marili, rendeu cerca de R$ 15 mil para a família. Depois, começou a cair. Ela relata que pêssegos, araçás e cerejas deixaram de produzir como antes e que as videiras também passaram a apresentar problemas após aplicações de herbicidas nas proximidades. Até mesmo a plantação de abóboras, normalmente mais forte no cultivo, não resistiu.
A família produz de forma orgânica e comercializa parte da produção em Bagé, além de já ter atendido a demanda de merenda escolar da região. O fornecimento de suco integral de uva para o Exército, que era um dos maiores contratos da família, acabou sendo rescindido, em função da queda na produção. Com isso, a continuidade do parreiral está em dúvida: “O meu marido já queria ter cortado fora ano passado, eu não deixei. Eu quis dar mais uma chance este ano”.
O filho do casal se formou em agropecuária, mas, segundo Marili, não tem vontade de voltar para a propriedade para trabalhar, justamente em função das perdas sucessivas. A família estima um prejuízo de R$ 15 mil a R$ 16 mil por ano com a perda da produção. “Tu investir e depois perder tudo... não tem condições.”
O relato de Marili é uma experiência individual e não comprova, sozinho, a causa dos danos observados nas plantas. Mas mostra como conflitos entre atividades produtivas podem chegar à pequena propriedade e afetar não apenas uma safra, mas a decisão de continuar produzindo.
Para Márcia, a permanência dessas famílias também é parte da conservação do bioma. Ela considera necessário criar condições para que os jovens possam adquirir suas próprias terras e permanecer no campo. “Se esse jovem pecuarista familiar abandonar o campo, por falta de condições financeiras e de políticas públicas que lhe possibilitem adquirir sua terra, esse Pampa será destruído por outra atividade, seja monocultura ou mineração.”
Produzir sem apagar a paisagem
O engenheiro agrônomo e professor universitário Norton Sampaio, é uma das vozes mais ativas em defesa do Bioma Pampa. Ele acompanha as transformações do campo e chama atenção para aquilo que não aparece imediatamente aos olhos. “O que está sendo perdido é muito forte”, afirma.
Segundo ele, a redução das formações campestres significa também perda de biodiversidade, estoque de carbono no solo, capacidade de retenção de água e conhecimentos construídos ao longo de gerações.
A relação entre pecuária e conservação, entretanto, não é simplesmente uma oposição entre produção e preservação. Para Sampaio, o campo nativo pode continuar sendo utilizado economicamente quando há manejo adequado. “Conservar o Bioma Pampa é manejar de uma forma racional e inteligente.”
A transformação, porém, não ocorre apenas pela agricultura. Na região das Palmas, a mineração também aparece entre as preocupações de quem defende a permanência das características naturais e do modo de vida local. Para Márcia, o território carrega conhecimentos que não estão nos mapas. “Existe um saber ancestral, no sentido de que desenvolvimento não é conseguir ‘rios de dinheiro’, mas viver feliz em comunidade, em harmonia com a natureza, na companhia dos amigos e produzindo alimentos de qualidade.” Nesse território em transformação que diferentes atividades precisam encontrar espaço e um dos conflitos mais concretos dessa convivência envolve o uso de herbicidas.
O glifosato é um dos ingredientes ativos de maior utilização na agricultura. No Brasil, a Anvisa concluiu sua reavaliação em 2020 e manteve o registro, com medidas de mitigação de riscos. A substância continua, entretanto, no centro de controvérsias sobre seus possíveis efeitos. Em maio de 2026, o Ministério Público do Trabalho ajuizou ação pedindo a proibição nacional de produtos à base de glifosato. O pedido não alterou a situação regulatória do produto, que permanece autorizado no país.
Outro herbicida ganhou atenção especial na Campanha: o 2,4-D. Autorizado no Brasil, ele é utilizado no controle de plantas daninhas de folhas largas e possui regras específicas de aplicação. A deriva ocorre quando o produto atinge uma área diferente daquela onde deveria ser aplicado.
Como é realizada a fiscalização dos produtos?
Segundo Rafael Friedrich, chefe da Divisão de Insumos e Serviços Agropecuários do Departamento de Defesa Vegetal da Secretaria da Agricultura do Estado, a aplicação depende de fatores como vento, temperatura, umidade, equipamento, velocidade de deslocamento, altura da barra e tamanho das gotas. “O grande gargalo é identificar a origem da deriva”, explica. A fiscalização analisa a área atingida, o entorno e as condições meteorológicas do momento da aplicação. Quando possível, também são realizadas análises químicas.
A dimensão do problema aparece em estudo da Secretaria de Agricultura do Estado que analisou 1.098 comercializações de herbicidas hormonais em Bagé, Candiota, Caçapava do Sul, Dom Pedrito, Hulha Negra e Lavras do Sul. O 2,4-D foi o princípio ativo mais comercializado e 60% das transações analisadas apresentaram algum tipo de desacordo com a legislação.
Em agosto deste ano, o Estado criou zonas de exclusão para produtos contendo 2,4-D em áreas delimitadas de Dom Pedrito, Santana do Livramento e Jaguari. A medida considera a presença de vinhedos cadastrados e estabelece faixas de proteção. Não é uma proibição geral do herbicida no Estado.
Candiota e Hulha Negra, onde também existem atividades vitícolas, não estão entre os municípios abrangidos pelos atuais polígonos. Inclusive, Bruno Onsi, presidente da Associação Vinhos da Campanha e enólogo à frente da Vinuta, acompanhou um caso em seu vinhedo recém-implantado em Candiota. O plantio começou em novembro de 2025 e, poucas semanas depois, surgiram sintomas que ele considera compatíveis com a ação de herbicidas hormonais.
O caso não foi confirmado por análise físico-química de resíduos, ainda assim, segundo Onsi, cerca de 30% das mudas morreram, contra aproximadamente 2% de mortalidade esperada em uma implantação nova. A reposição das plantas, afirma, pode representar anos de espera até que o vinhedo volte a produzir. “O ponto de partida é de volta para a estaca zero”, resume.
Em Bagé, o produtor de oliveiras Marcelo Lobo também relata ter enfrentado problemas relacionados à deriva. Ele afirma que os efeitos podem comprometer principalmente períodos de floração e formação dos frutos, aumentando custos e reduzindo a produção. “Perder uma planta é muito doloroso, pois além do trabalho e cuidados diários ao olival, o custo é elevado.”
Os casos mostram uma dimensão particular do problema: uma cultura pode ser legalmente instalada ao lado de outra também legal, mas as práticas utilizadas em uma propriedade podem interferir diretamente na produção da vizinha.
Sempre vale lembrar que o Pampa não é apenas o cenário onde essas atividades acontecem, mas é parte daquilo que sustenta a vida e a produção no território. Ou seja, quando o campo nativo é substituído, não muda somente a cor, mas sim mudam as espécies que encontram abrigo, a relação da água com o solo, o trabalho necessário na propriedade e os conhecimentos associados àquele modo de vida.
“O que a gente precisa é continuar vivendo aqui, produzindo e cuidando desse lugar. A gente não precisa escolher entre produzir e preservar. Precisa aprender a produzir sem destruir aquilo que nos trouxe até aqui ”, finaliza Márcia.

