Cidade
Peruzzo diz que prioridade será equilibrar as finanças da Santa Casa
por Melissa Louçan
Escolhido para conduzir a Santa Casa de Caridade de Bagé durante o período de transição administrativa, o empresário Lindonor Peruzzo afirma que o principal desafio da futura gestão será enfrentar a crise financeira que atinge a instituição. Embora ainda não tenha assumido oficialmente a provedoria, ele garante que a prioridade será conhecer a real situação do hospital para, a partir disso, definir as primeiras medidas.
A posse da nova administração ainda depende do cumprimento dos trâmites previstos no Estatuto da Irmandade. Segundo Peruzzo, a atual provedoria deverá formalizar a renúncia em reunião marcada para os próximos dias e, na sequência, convocar uma assembleia geral para a eleição da nova mesa administrativa. "Nós não assumimos ainda a gestão da Santa Casa. Só depois da assembleia é que vamos tomar pé da situação", explica. Até lá, o empresário afirma que prefere não antecipar decisões sobre o funcionamento do hospital ou sobre as medidas que serão adotadas.
Peruzzo esclarece que a intenção é constituir uma chapa completa, conforme prevê o Estatuto da Irmandade, com provedor, vice-provedores, secretários, tesoureiros e conselho fiscal. Essa administração ficará responsável por concluir o mandato da atual provedoria, até dezembro. Ao final do ano, uma nova assembleia será convocada para eleger a diretoria que comandará a Santa Casa pelos dois anos seguintes.
Integrante da Irmandade há mais de 15 anos e com passagem pela mesa diretora da instituição, Peruzzo diz que aceitou o convite consciente da responsabilidade que terá pela frente. "É um grande desafio, mas acredito que toda a comunidade espera uma reação positiva de recuperação da Santa Casa", afirma.
Apesar de reconhecer que ainda não conhece em profundidade a situação administrativa do hospital, o empresário não tem dúvidas sobre qual será o foco inicial da gestão. "O grande problema é financeiro, então a gente tem que atacar esse que é o principal", resume.
Peruzzo avalia que anúncios recentes de recursos, como emendas parlamentares destinadas à instituição, podem amenizar momentaneamente as dificuldades enfrentadas pela Santa Casa. No entanto, ele acredita que a recuperação dependerá de medidas permanentes e de uma administração capaz de equilibrar receitas e despesas.
Segundo ele, a futura gestão deverá trabalhar na busca de novos recursos, na melhoria dos serviços prestados, na revisão de contratos e na redução de custos, sempre que possível. O empresário também considera necessária uma discussão mais ampla sobre o financiamento da saúde pública, especialmente em relação aos valores pagos pela tabela do Sistema Único de Saúde (SUS). "Uma instituição, uma empresa ou uma família é tudo igual. Só muda o tamanho. Se a gente ganha dez, não pode gastar onze. Esse equilíbrio financeiro é o grande desafio da Santa Casa e nós vamos trabalhar muito forte para buscá-lo", afirma.
Paralelamente ao processo de transição, Peruzzo já iniciou tratativas com o Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), em meio ao agravamento da crise enfrentada pela instituição. Em reunião realizada na quinta-feira, 2, o empresário informou que busca viabilizar emendas parlamentares para garantir, em caráter emergencial, o pagamento de dois meses de honorários aos médicos. A proposta, segundo ele, é utilizar esse reforço financeiro para iniciar a regularização dos atrasados e, posteriormente, buscar novas fontes de receita que permitam colocar os pagamentos em dia.
Durante o encontro, Peruzzo pediu um voto de confiança ao corpo clínico, conforme informado pelo sindicato: "Não posso exigir nada de quem está há meses sem salário, mas eu peço mais 30 dias de esforço para tentar equilibrar a situação financeira", afirmou. Atualmente, há profissionais que acumulam até nove meses de atraso no recebimento dos honorários.
Representando o departamento jurídico do Simers, Antônio Vanzin apresentou reivindicações da categoria, entre elas a definição de critérios transparentes para eventuais pagamentos parciais enquanto a situação não for normalizada e a necessidade de recomposição do quadro médico para garantir o fechamento das escalas. Em resposta, Peruzzo comprometeu-se a conduzir as decisões com transparência e a manter diálogo permanente com o corpo clínico.
Na noite anterior, quarta-feira, 1º, representantes da atual administração da Santa Casa também haviam solicitado ao presidente do Simers, Marcelo Matias, e ao diretor da Região Sul da entidade, Felipe Cunha, um prazo maior para apresentar uma proposta de regularização dos pagamentos. "Quem está sustentando o hospital são os médicos. É preciso que a instituição encontre meios de sustentabilidade a longo prazo. Enquanto seguir com déficit operacional, o problema no atraso de honorários será recorrente", alertou Matias.
A negociação ocorre em um momento de agravamento da assistência. Desde 15 de junho, o corpo clínico iniciou uma série de restrições nos atendimentos, que foram ampliadas nesta quarta-feira. Informações repassadas pelo hospital também apontam dificuldades iminentes para o fechamento das escalas médicas, o que poderá comprometer o funcionamento da Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
A expectativa é de que a próxima semana seja dedicada ao processo de transição entre a atual administração e a futura mesa diretora. Após a oficialização da posse, a nova gestão pretende realizar um diagnóstico detalhado da situação financeira e administrativa da Santa Casa para definir as medidas prioritárias voltadas à manutenção dos serviços e à recuperação da instituição.

