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Mercado Cultural Fronteira: o ponto de encontro que conecta artistas e transforma a cena independente da fronteira
por Márlon Castro Posqui
O calor da lareira ameniza o frio típico da fronteira enquanto o aroma de café recém-passado convida quem chega a permanecer. Sofás, quadros, instrumentos espalhados e paredes marcadas pela arte fazem o visitante quase esquecer que está em uma das ruas mais movimentadas de Bagé. A sensação é a de chegar à casa de um amigo, onde a conversa, a música e a criação acontecem naturalmente. É nesse ambiente acolhedor que o Mercado Cultural Fronteira vem se consolidando como um ponto de encontro para artistas independentes e um espaço dedicado ao fortalecimento da cultura na região.
O que começou como um mapeamento da produção artística da faixa de fronteira acabou se transformando em um ambiente vivo de encontros, ensaios, shows, oficinas e criação coletiva. Em poucos meses, o Mercado Cultural Fronteira deixou de ser apenas uma ideia para se tornar um dos principais pontos de articulação da produção cultural independente em Bagé.
Idealizado pela musicista, produtora cultural e pesquisadora Kika Simone, o projeto nasceu de uma inquietação. A multiartista queria descobrir onde estavam os artistas da fronteira e criar caminhos para que eles se encontrassem. A proposta, porém, não surgiu do acaso. Ela é resultado de uma trajetória construída ao longo de anos de trabalho em redes culturais na Argentina, no Uruguai e no Brasil.
Kika viveu em Buenos Aires, na Argentina, a partir de 2010, onde participou do coletivo Solistas No Tan Solas, formado por mulheres compositoras de diferentes regiões da Argentina. A experiência envolvia circulação de artistas, produção de festivais, criação de um selo musical e intercâmbio entre coletivos culturais. Foi ali que se consolidou a forma de trabalhar que hoje inspira o Mercado Cultural Fronteira. “Eu sempre gostei de trabalhar em rede. Fazer ciclos de música, conhecer artistas, produzir eventos e conectar pessoas. Isso sempre foi o que me moveu.”
Nesse período, a artista também organizou apresentações de música, cinema e teatro em espaços colaborativos, gravou músicos independentes e participou da criação do Sonoro – Festival Internacional de Mulheres Compositoras, iniciativa que hoje reúne milhares de artistas em dezenas de cidades e diversos países.
Sempre que retornava a Bagé para visitar a família, Kika percebia uma realidade que a incomodava. Apesar da tradição musical da cidade e da formação de artistas pelo Instituto Municipal de Belas Artes (Imba), ela sentia dificuldade em encontrar locais onde músicos autorais e, especialmente, mulheres artistas pudessem se apresentar.
Em 2019, criou o projeto Mulheres Artistas de Bagé (MAB), reunindo representantes da música, teatro, dança, literatura e cinema. Na época, foram realizados dois eventos gratuitos, com arrecadação de alimentos, que mobilizaram dezenas de artistas locais.
Logo depois veio a pandemia e os planos precisaram ser interrompidos. Quando retornou definitivamente para Bagé, Kika percebeu que a produção cultural seguia dispersa. Foi então que iniciou, por iniciativa própria, um levantamento de artistas da Campanha e da fronteira com Uruguai e Argentina.
Com a chegada da Lei Paulo Gustavo, ela criou um grupo para reunir profissionais da cultura interessados em acompanhar a implantação dos editais. O que começou como um canal de informações rapidamente ganhou outro significado. Virou uma rede. Foi desse movimento que nasceu oficialmente o Mercado Cultural Fronteira.
A artista conta que a ideia começou a tomar forma a partir da criação de um formulário para catalogar artistas de diferentes áreas. “A expectativa era começar a mapear quem estava produzindo arte na região. O resultado me surpreendeu”, lembra.
Bandas de metal, grupos de hip-hop, escritores, artistas visuais, produtores culturais e músicos de Santa Vitória do Palmar, Caçapava do Sul, Uruguaiana, Sant’Ana do Livramento, além de artistas do Uruguai, da Argentina e até de outros estados passaram a integrar o levantamento. “Eu me apavorei. Tinha muita gente produzindo, gravando discos, lançando música no Spotify, fazendo arte, e essas pessoas simplesmente não se encontravam.”
Um espaço que surgiu sem estar nos planos
Quando criou o Mercado Cultural Fronteira, Kika Simone imaginava organizar ciclos de música e, no futuro, realizar um festival. Ter uma sede física nunca esteve nos planos. A mudança aconteceu quase por acaso. Enquanto preparava a gravação de um novo disco, ela alugou uma sala nos fundos do então Botequim S.A. para ensaiar com a banda. Pouco tempo depois, o proprietário do imóvel ofereceu que ela assumisse toda a estrutura. “Eu só precisava de um lugar para ensaiar. De repente, me vi com um espaço inteiro para cuidar”, relembra.
Desde abril, o endereço abriga oficialmente o Mercado Cultural Fronteira. Ao longo da semana, a programação é ocupada por ensaios de bandas, oficinas, aulas de música e dança, encontros literários e atividades abertas à comunidade. Nos finais de semana, artistas autorais dividem a agenda com músicos convidados de diferentes cidades do Rio Grande do Sul, do Uruguai, da Argentina e até mesmo da Alemanha.
A transformação do antigo bar preservou parte da história do imóvel. As pinturas continuam nas paredes e convivem com instrumentos, livros, colagens, obras produzidas pelos próprios frequentadores e pequenos presentes deixados por quem ajuda a construir o projeto diariamente.
Para a idealizadora, a troca que acontece entre um ensaio e outro é tão importante quanto o próprio palco. “A sala de ensaio não serve só para ensaiar. Está saindo uma banda e entrando outra. Uma escuta o que a outra está fazendo e começam as conexões”, explica.
Foi dessa convivência que surgiram novas parcerias, músicos encontraram bandas para integrar e artistas fizeram suas primeiras apresentações ao vivo. Um dos exemplos lembrados por Kika é o de um jovem cantor que, apesar de já ter músicas lançadas nas plataformas digitais, nunca havia se apresentado diante do público. Antes da estreia, ela abriu o estúdio para que ele pudesse ensaiar sozinho, ganhar confiança e subir ao palco com mais segurança.
Hoje, o Mercado Cultural Fronteira reúne diferentes linguagens artísticas. Além da música, a casa recebe oficinas de escrita, encontros de coletivos culturais, aulas e iniciativas ligadas ao teatro, à literatura, às artes visuais e à dança. “Quero que seja realmente um espaço cultural. Se alguém precisar de um lugar para fazer uma oficina, um encontro, um ensaio ou um evento, quero que exista esse lugar.”
O crescimento do projeto também ampliou seus horizontes. Um dos próximos passos é transformar o levantamento iniciado de forma independente em uma plataforma digital para catalogar artistas da faixa de fronteira, funcionando como um banco de dados capaz de facilitar conexões entre músicos, produtores, escritores, atores e coletivos culturais.
A outra meta é transformar esse mapeamento em um festival que reúna artistas de cidades brasileiras, uruguaias e argentinas, fortalecendo uma identidade cultural construída para além das fronteiras geográficas.
A sala de ensaio é um dos pilares do Mercado Cultural Fronteira. Equipada com bateria, amplificadores para guitarra e baixo, microfones e demais equipamentos necessários para ensaios, ela pode ser utilizada por bandas e artistas mediante agendamento e um pagamento que ajuda a manter toda a estrutura. Kika acredita que o espaço cumpre um papel importante na formação da cena musical local. Segundo ela, esse convívio já resultou no surgimento de novas parcerias, na formação de bandas e até nas primeiras apresentações ao vivo de artistas que ainda não haviam subido a um palco.
Essa movimentação também se reflete na agenda semanal da casa. Na primeira semana de julho, por exemplo, o Mercado Cultural Fronteira manteve a sala de ensaio ocupada praticamente todos os dias, além de receber uma aula de tango ministrada por Luan Conde, um show do músico Gilmar Pastel e um fim de semana será voltado ao rock, com apresentações das bandas Pragah e Thraggos.

