Minuano Conecta
Arquiteto da revitalização de Santa Thereza, Flávio Kiefer aponta Bagé como exceção no urbanismo brasileiro
Sugestão de olho: "O Pampa ainda guarda cidades como as cidades eram. Isso é maravilhoso. É um capital que vocês têm."
por Melissa Louçan
Muito antes de voltar a Bagé para lançar Cidade Abstrata, Flávio Kiefer já deixou sua marca na cidade. Arquiteto responsável pelo projeto de revitalização do Centro Histórico Vila de Santa Thereza, ele também assina a transformação do antigo Hotel Majestic na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre, e é um dos nomes mais reconhecidos da arquitetura gaúcha. Agora retorna à Rainha da Fronteira para apresentar um livro que reúne crônicas sobre arquitetura, urbanismo e a relação das pessoas com as cidades e escolhe justamente Bagé como um dos principais exemplos de uma realidade que, segundo ele, se tornou rara no Brasil.
O lançamento acontece no sábado, 4 de julho, às 11h, na Livraria e Café Leb, em conversa com a poeta Elvira de Macedo Nascimento. Mais do que discutir arquitetura, a proposta da obra é provocar uma reflexão sobre a forma como as pessoas vivem e compreendem as cidades.
Para Kiefer, a escolha da crônica como linguagem foi deliberada. Em vez de escrever um livro voltado apenas a arquitetos e urbanistas, ele buscou aproximar esse debate do público em geral, partindo da ideia de que o futuro das cidades depende também da compreensão de quem as habita: "Quis fazer um livro acessível aos leigos, onde eu pudesse escrever, em forma de crônicas, as inquietações que carrego em relação ao que observo nas cidades, tanto do ponto de vista técnico quanto poético. E também a vontade de me expressar do jeito que mais gosto: escrevendo".
O título da obra resume uma das ideias centrais desenvolvidas pelo arquiteto. Para ele, a cidade contemporânea deixou de ser uma experiência claramente delimitada e passou a existir mais como conceito do que como espaço reconhecível. Em muitas regiões do país, explica, as fronteiras entre cidade e campo praticamente desapareceram, dando lugar a um território contínuo, cada vez mais homogêneo.
Nesse cenário, Bagé ocupa um lugar especial: "A cidade passou a ser abstrata porque passou a ser mais um conceito do que uma realidade. Fica difícil explicar isso para um bageense, porque o Pampa ainda guarda cidades como as cidades eram. Isso é maravilhoso e precisa ser conscientizado por vocês. É um capital que vocês têm".
Na avaliação do arquiteto, Bagé preserva características urbanas que desapareceram em grande parte do país: limites bem definidos entre cidade e campo, a convivência nas calçadas, a possibilidade de fazer deslocamentos a pé e um conjunto arquitetônico capaz de contar a própria história da cidade. Para ele, essa identidade urbana não é apenas um legado histórico, mas um diferencial que pode orientar o futuro do município.
Essa percepção também dialoga com sua experiência à frente do projeto de revitalização da Vila de Santa Thereza. Kiefer conta que o antigo complexo industrial o surpreendeu por reunir, em um mesmo espaço, todos os elementos de uma pequena cidade, desde as casas dos operários até o teatro. Na sua visão, o local tinha potencial para se transformar em um novo núcleo de expansão urbana, conciliando preservação e novos usos.
Ao falar sobre essa experiência, o arquiteto faz questão de combater uma ideia que considera equivocada: preservar o patrimônio histórico não significa impedir o desenvolvimento. Pelo contrário, acredita que a memória pode servir de base para construir cidades mais qualificadas e atrativas.
Essa valorização da história, segundo ele, representa também uma oportunidade concreta para o futuro de Bagé. "À medida que a riqueza patrimonial que vocês têm aqui for sendo descoberta, mais e mais turistas virão para conhecer. E tem as atividades culturais que não param de florescer em Bagé", destaca.
Para Kiefer, patrimônio, cultura e identidade caminham juntos e podem impulsionar não apenas o turismo, mas também o comércio, a economia e a qualidade de vida da população.
Ao encontrar os leitores bageenses, o arquiteto espera que Cidade Abstrata desperte um novo olhar sobre a cidade e sobre seu potencial: "Que cada um tenha vontade de entender por que Bagé é como é e sonhar em como ela poderia vir a ser, explorando o potencial de sua identidade", conclui.

