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Casos de maus-tratos a animais chocam Bagé e reforçam importância das denúncias
por Rochele Barbosa
Dois episódios de extrema crueldade contra animais registrados em Bagé mobilizaram a comunidade, provocaram forte repercussão e resultaram em ações da Polícia Civil. Os casos foram detalhados pelas comissárias Patrícia Coradini e Eliane Hidalgo (atualmente aposentada), responsáveis pelo Cartório de Crimes Ambientais, durante entrevista ao podcast Almoxarifado de Crimes.
As policiais destacaram que, além da crueldade praticada contra os animais, os casos demonstram a importância da participação da população nas denúncias e reforçam a relação frequentemente observada entre a violência contra animais e outros tipos de violência praticados contra pessoas vulneráveis.
Cachorro foi arrastado vivo por quilômetros
Um dos casos que mais chocou a comunidade ocorreu quando um cachorro morreu após ser arrastado por um veículo com uma corda amarrada às patas traseiras.
Segundo Patrícia Coradini, a investigação começou após um casal procurar espontaneamente a delegacia para relatar o que havia presenciado. O fato chamou a atenção das policiais porque as testemunhas decidiram se identificar formalmente e prestar depoimento, demonstrando profunda indignação com a cena.
Conforme o relato, o animal era arrastado por uma estrada enquanto moradores gritavam para que o motorista parasse. Apesar dos apelos, o condutor continuou o trajeto, causando sofrimento extremo ao cachorro.
A partir da denúncia, a Polícia Civil iniciou imediatamente a investigação. O corpo do animal foi localizado e recolhido para a realização de necropsia veterinária, procedimento fundamental para comprovar a materialidade do crime.
De acordo com Patrícia, o laudo pericial confirmou que o cachorro estava vivo durante o arrastamento. Diversas lesões identificadas pelos veterinários somente poderiam ter ocorrido enquanto o animal ainda respirava.
Outro detalhe que marcou a investigação foi o fato de o cachorro ter sido encontrado ainda com a corda presa às patas traseiras.
A polícia reuniu depoimentos de testemunhas, provas periciais e demais elementos que embasaram o pedido de prisão preventiva do suspeito. O homem permaneceu preso por cerca de dois meses.
As policiais destacaram que a prisão foi considerada um marco na responsabilização criminal por maus-tratos a animais, diante da gravidade do caso e da robustez das provas produzidas durante o inquérito.
Apartamento com animais mortos causou choque e revolta
Outro caso de grande repercussão ocorreu em um apartamento da região da Cohab. A situação veio à tona após vizinhos sentirem um forte odor de decomposição vindo do imóvel.
Inicialmente, moradores acreditavam que poderia haver uma pessoa morta dentro da residência. A Guarda Municipal foi acionada e, posteriormente, a Brigada Militar ingressou no local.
O que os agentes encontraram foi uma cena descrita pelas policiais como "horrorosa".
Dentro do apartamento havia diversos animais mortos, restos de ossadas, extrema sujeira, lixo acumulado e condições completamente insalubres. Segundo as investigações, alguns gatos haviam morrido e seus corpos foram consumidos pelos demais animais que ainda tentavam sobreviver à fome.
No local foram encontrados três gatos vivos e um cachorro. Um dos felinos foi reconhecido por sua tutora após fotografias divulgadas pelas autoridades. Conforme apurado, o animal havia sido furtado anteriormente.
Quando as equipes retornaram ao imóvel para o resgate, encontraram os animais sobreviventes em situação crítica. O cachorro, segundo o relato das policiais, alimentava-se de restos ósseos de um gato.
Além dos maus-tratos, a investigação apontou indícios de furto de animais. Imagens de câmeras de segurança mostraram a suspeita recolhendo um gato da rua e levando-o para o imóvel.
A mulher foi presa em flagrante e passou a responder por maus-tratos e furto. Posteriormente, teve a liberdade concedida pela Justiça, seguindo o processo judicial em liberdade, conforme prevê a legislação em determinadas circunstâncias.
Maus-tratos vão além da agressão física
Durante a entrevista, Patrícia Coradini explicou que muitas pessoas associam maus-tratos apenas à violência física, mas a legislação considera diversas situações que comprometem o bem-estar animal.
Entre elas estão:
* Falta de alimentação adequada;
* Ausência de água;
* Animais presos em espaços incompatíveis;
* Uso de correntes curtas;
* Falta de abrigo contra frio, chuva e calor;
* Ausência de atendimento veterinário quando necessário;
* Situações de abandono e negligência.
Segundo a policial, a produção de provas é essencial para responsabilizar os autores. Fotografias, vídeos, laudos veterinários e testemunhos são elementos fundamentais para o andamento das investigações.
Violência contra animais pode indicar outros crimes
Um dos pontos destacados pelas entrevistadas foi a chamada "teoria do elo", amplamente estudada por especialistas em comportamento criminoso.
De acordo com Patrícia, pessoas que praticam violência contra animais frequentemente apresentam comportamento agressivo também contra outros grupos vulneráveis, como crianças, mulheres e idosos.
A policial relatou situações em que investigações de maus-tratos acabaram revelando casos de violência doméstica dentro da mesma residência. Em uma dessas ocorrências, após o resgate de um cachorro espancado, a esposa do agressor também precisou ser retirada do local por ter sido vítima de agressões graves.
Para as agentes, os maus-tratos aos animais devem ser encarados como um sinal de alerta para possíveis situações de violência familiar.
Denúncias são fundamentais
As policiais ressaltaram que o aumento das denúncias demonstra uma mudança positiva no comportamento da sociedade.
Segundo Patrícia Coradini, somente em um dos levantamentos realizados pelo cartório especializado, já haviam sido registradas mais de 260 denúncias relacionadas a maus-tratos em pouco mais da metade do ano, além de centenas de ocorrências e verificações realizadas pelas equipes.
As denúncias podem ser feitas de forma anônima por meio do WhatsApp do Cartório de Crimes Ambientais: (53) 98424-0469. Em situações de flagrante ou emergência, a orientação é acionar imediatamente a Brigada Militar pelo telefone 190.
As policiais reforçam que a participação da comunidade é decisiva para salvar animais em situação de sofrimento e garantir que os responsáveis sejam identificados e responsabilizados pela Justiça.

