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Thraggos: a canção do bode e as tragédias do homem
por Yuri Cougo Dias
Por Yuri Cougo Dias
A chama das tochas dança contra a escuridão. O fogo projeta sombras irregulares sobre um altar de pedra erguido em algum lugar da Grécia Antiga. Ao redor dele, homens e mulheres se apertam sob o céu noturno enquanto o vinho percorre taças e mãos como parte de um ritual que parece tão antigo quanto a própria necessidade humana de encontrar sentido para a dor. No centro da celebração dedicada a Dionísio, deus do vinho, da fertilidade e dos excessos, figuras trajadas como sátiros avançam lentamente. Metade homem, metade bode. Metade civilização, metade instinto. São músicos, contadores de histórias, mensageiros de emoções que não cabem nas palavras comuns. O canto sobe pelos vales, mistura-se ao vento e ecoa entre árvores que testemunharam gerações inteiras nascerem, sofrerem e desaparecerem. Talvez nenhum daqueles participantes imaginasse que, mais de dois mil anos depois, o ritual sobreviveria. Não em templos. Não diante de altares. Mas sobre palcos.
Na fronteira sul do Brasil, em Bagé, quatro músicos recuperam fragmentos daquela herança ancestral e a transportam para outro universo sonoro. Trocam as liras por guitarras. Os tambores cerimoniais por uma bateria. Os mantos ritualísticos por camisetas pretas. A essência, porém, permanece curiosamente intacta: contar histórias sobre aquilo que a humanidade mais tenta esconder de si mesma. É nesse ponto que surge a Thraggos.
O próprio nome funciona como uma espécie de portal para o passado. Deriva da raiz grega que originou a palavra tragédia. A antiga tragÅidía, a “canção do bode”. A música dos sátiros. O canto daqueles encarregados de narrar as grandes feridas da existência humana.
E poucas expressões artísticas contemporâneas parecem tão adequadas para carregar esse legado quanto o heavy metal. Porque, ao contrário do que muitas vezes se imagina, o metal nunca foi apenas sobre peso, velocidade ou agressividade. Desde os primeiros acordes distorcidos do Black Sabbath, no fim da década de 1960, existe algo quase filosófico pulsando sob a superfície. Quando quatro jovens operários ingleses decidiram desacelerar o blues e revesti-lo com uma atmosfera sombria inspirada em filmes de terror, estavam fazendo algo muito semelhante ao que os gregos haviam realizado séculos antes: transformando o medo em arte.
A Thraggos bebe dessa mesma fonte. Quem esteve no Mercado Cultural Fronteira em uma das recentes apresentações da banda talvez não tenha percebido imediatamente, mas algo curioso aconteceu naquela noite. À medida que o público se aproximava do palco, formava-se um círculo humano semelhante aos que existiam ao redor das fogueiras ancestrais. Não havia qualquer orientação para isso. As pessoas simplesmente se aproximavam.
O ambiente fechado contribuía para a sensação de intimidade. O teto parecia conter o som dentro daquele espaço, impedindo que ele escapasse para a noite do lado de fora. O calor aumentava, mesmo com as baixas temperaturas do Pampa Gaúcho. Não apenas pela quantidade de pessoas reunidas, mas pela energia compartilhada entre elas.
Ali, por algumas horas, desapareciam profissões, diferenças sociais, preocupações cotidianas e as pequenas máscaras que todos carregam ao longo do dia. Talvez um dos presentes estivesse enfrentando o luto pela perda de alguém próximo. Talvez outro carregasse o peso silencioso da ansiedade. Talvez houvesse quem lutasse contra frustrações profissionais, términos amorosos ou batalhas internas impossíveis de serem explicadas em conversas rápidas. Cada pessoa trazia consigo sua própria tragédia. E justamente por isso estava ali.
O curioso é que, ao compartilhar essas sombras, surge algo paradoxal: um sentimento de comunidade. Pouco tempo depois, a banda repetiria o ritual em outro cenário. Dessa vez não existiam paredes. Não existia teto. Não existiam limites físicos entre a música e a paisagem. No Rock no Galpão, realizado no bosque do Palacete Pedro Osório, a apresentação aconteceu sob o céu aberto. O vento atravessava as árvores enquanto as primeiras notas ecoavam entre galhos e sombras. Por alguns instantes, o local deixava de parecer um palco improvisado para assumir a aparência de um antigo bosque ritualístico. Talvez os velhos sátiros gregos se sentissem em casa ali.
O início da jornada
Toda história, porém, possui um ponto de origem. E para encontrar o nascimento da Thraggos é preciso abandonar, por um instante, os palcos iluminados do presente e retornar a uma Bagé de pouco mais de uma década atrás. Era 2014. Naquele período, a cena metal da cidade atravessava mais um de seus ciclos de transformação. O movimento local alternava momentos de força e períodos de silêncio. Foi nesse contexto que Fabiano Robaina, nos vocais, e Diego Monte Blanco, na guitarra, ambos oriundos da Outsider Resistance, encontraram em Lorenzo Cassurriaga, então baterista da banda pelotense Bullseye, um parceiro para iniciar um novo projeto.
Não havia promessas de sucesso. Existia apenas aquilo que talvez seja o combustível mais poderoso do underground: a necessidade de criar. Os primeiros encontros foram despretensiosos. Mas entre um cover e outro, surgiam ideias próprias. As composições foram sendo lapidadas lentamente ao longo dos anos, até que o projeto encontrasse sua forma definitiva com a chegada de Lucas Ollé, baixista também da Exequator.
Uma das primeiras composições desenvolvidas pelo grupo recebeu o título de “Chaos Collapse”. A canção tornou-se a semente filosófica de todo o universo criativo da Thraggos. Em vez de tratar a guerra apenas como um confronto militar, a letra procura investigar suas causas mais profundas. A corrupção. O egoísmo. A incapacidade humana de aprender com a própria história.
Após “Chaos Collapse”, a narrativa abandona a dimensão coletiva e mergulha no drama individual. O protagonista é um soldado. Mas poderia ser qualquer homem. A história acompanha sua entrada nas tropas, o processo gradual de desumanização provocado pelo conflito, os traumas acumulados em combate e a fragmentação psicológica causada pela violência. Não existem heróis. Não existem vencedores. É justamente essa amplitude que alimenta o processo criativo da banda. Hoje, a trajetória da banda já produziu três registros oficiais: “Chaos Collapse”, “Silent Way” e “Lost Mankind”. As duas primeiras integram diretamente o conceito do álbum. A terceira caminha por uma trilha independente, mas preserva a essência artística do grupo.
Sobreviver no underground é acordar cedo para trabalhar sabendo que haverá ensaio à noite. É carregar equipamentos. É investir recursos próprios. É enfrentar dificuldades logísticas. É continuar criando mesmo quando ninguém parece estar olhando. Talvez por isso os integrantes descrevam a cena metal de Bagé como uma montanha-russa. Já houve momentos de grande atividade. Durante anos, festivais organizados pelo lendário Muska ajudaram a manter essa chama acesa. Seu nome permanece como uma referência afetiva para os músicos da Thraggos.
Mais recentemente, iniciativas como o Southern Gates, criado pela própria Thraggos em parceria com a Exequator, surgiram da necessidade de construir oportunidades onde elas não existiam. Sem patrocínio. Sem auxílio institucional. Apenas pela vontade de reunir bandas e fortalecer a cena. Duas edições já foram realizadas, a mais recente no início de 2024.
Enquanto o primeiro álbum se aproxima da conclusão, novos horizontes já começam a surgir. A banda trabalha nos ajustes finais das gravações e pretende iniciar uma fase mais intensa de divulgação do material. Convites para apresentações fora do Rio Grande do Sul também surgem no horizonte, incluindo a possibilidade de participação em um festival em Santa Catarina.
E talvez a pergunta final seja a mais difícil de responder. Que legado uma banda deseja deixar? A dedicação de quatro músicos que decidiram transformar inquietações humanas em canções. No fim das contas, a Thraggos talvez esteja fazendo exatamente aquilo que os antigos sátiros faziam há mais de dois mil anos. Contando histórias.
As tochas foram substituídas por refletores. Os altares deram lugar aos amplificadores. Os antigos bosques transformaram-se em espaços culturais. Mas o ritual continua. E enquanto houver alguém disposto a ouvir e alguém disposto a contar essas histórias, a velha canção do bode seguirá ecoando através dos séculos.

