Cidade
Cremers aponta risco de desassistência na Santa Casa
por Melissa Louçan
A crise da Santa Casa de Caridade de Bagé ganhou novos contornos após a fiscalização realizada em maio pelo Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers), que identificou uma série de problemas considerados graves na instituição e encaminhou o caso ao Ministério Público. Entre as irregularidades apontadas estão atraso de até oito meses nos honorários médicos, falta de medicamentos essenciais, escassez de leitos e sobrecarga nas escalas de trabalho, especialmente no Centro Obstétrico.
Em entrevista ao Jornal MINUANO, o vice-presidente do Cremers, Eduardo Trindade, afirmou que um dos principais problemas encontrados durante a vistoria foi a insuficiência de profissionais na obstetrícia. “Observamos que a escala do Centro Obstétrico estava sobrecarregando os profissionais. O serviço estava operando apenas com um obstetra, quando o recomendado é ter, no mínimo, dois profissionais”, explicou.
Segundo ele, a situação era agravada pela carga horária excessiva enfrentada por parte da equipe médica. A fiscalização identificou profissionais cumprindo jornadas de 48 e até 60 horas consecutivas, além dos atrasos nos pagamentos e da falta de insumos considerados fundamentais para a assistência aos pacientes.
O cenário levou o Conselho a concluir que havia risco concreto para a continuidade dos atendimentos. “Durante a vistoria, o Departamento de Fiscalização do Cremers identificou risco potencial de desassistência à população”, destacou o dirigente. Conforme o Conselho, o hospital não demonstrou condições adequadas para garantir a manutenção integral da escala médica necessária ao funcionamento seguro dos serviços, especialmente na área obstétrica.
As constatações serviram de base para a atuação do Ministério Público e para a decisão judicial que determinou a regularização imediata do Centro Obstétrico. O vice-presidente do Cremers avalia que a medida atende às preocupações mais urgentes apontadas pela entidade, mas ressalta que a solução não passa apenas pela recomposição das escalas médicas. “O Conselho considera fundamental que, além da escala obstétrica de 24 horas, as demais irregularidades apontadas em nossa vistoria, como o pagamento dos honorários médicos e o abastecimento de medicamentos essenciais, também sejam resolvidas definitivamente”, afirmou.
A decisão judicial estabeleceu prazo de 24 horas para cumprimento das determinações após a intimação das partes envolvidas. O Cremers informou que continuará acompanhando a situação por meio de novas vistorias e reuniões com representantes do hospital, do município e do governo estadual. A avaliação sobre a normalização do serviço dependerá da comprovação de que as escalas médicas e as condições de funcionamento foram efetivamente restabelecidas.
A crise enfrentada pela Santa Casa, entretanto, vai além dos problemas identificados na fiscalização recente. Nos últimos meses, a instituição passou a enfrentar uma escalada de dificuldades financeiras. Em setembro de 2025, anunciou redução de serviços devido ao déficit acumulado. Em novembro, informou redução de 29% nos atendimentos do pronto-socorro após mudanças implantadas para contenção de gastos. Mais recentemente, a situação se agravou com atrasos salariais que motivaram o Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers) a anunciar a suspensão de atendimentos eletivos a partir de 15 de junho.
A crise também passou a mobilizar autoridades e representantes políticos. Nesta semana, o prefeito de Bagé, Luiz Fernando Mainardi, protocolou junto ao Ministério da Saúde um pedido de auditoria nas contas da instituição. No mesmo dia, a Mesa Diretora da Câmara de Vereadores divulgou nota oficial manifestando preocupação com a situação da Santa Casa e informando que já encaminhou pedidos de informações e providências aos órgãos competentes. Também nesta semana, o líder do governo no Legislativo, vereador Lelinho Lopes, protocolou uma moção defendendo a publicização das informações financeiras, administrativas e operacionais do hospital, incluindo receitas, despesas, contratos, dívidas e passivos trabalhistas.
Procurada diante dos recentes desdobramentos, a Santa Casa divulgou um comunicado oficial informando que a diretoria está “totalmente mobilizada” na busca e execução de soluções para garantir a continuidade dos serviços e o atendimento à comunidade. Na nota, a instituição afirma prezar pela transparência e ressalta que novas informações sobre as medidas adotadas serão divulgadas à medida que houver desdobramentos consolidados.

