Cidade
Restrição de atendimentos amplia mobilização em torno da Santa Casa de Bagé
por Melissa Louçan
A crise enfrentada pela Santa Casa de Caridade de Bagé passou a impactar diretamente os pacientes na segunda-feira, 15. A instituição iniciou a suspensão de 100% dos atendimentos ambulatoriais eletivos e de 100% das cirurgias eletivas. Permanecem mantidos apenas os atendimentos de urgência e emergência.
A medida ocorre em meio ao agravamento da situação financeira do hospital e à crescente mobilização de entidades médicas, gestores públicos e lideranças políticas em busca de alternativas para garantir a continuidade dos serviços prestados à população da região.
Um dos principais pontos de preocupação envolve o atraso no pagamento dos profissionais médicos. Conforme o Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), há casos de honorários em atraso há até nove meses. Segundo o diretor da entidade na Região Fronteira Oeste, Felipe Cunha, uma proposta apresentada pela Santa Casa foi analisada na última sexta-feira, mas não ofereceu garantias concretas para a regularização dos pagamentos. “A Santa Casa de Bagé apresentou uma proposta que não envolvia garantias do pagamento. Ele estaria vinculado à possibilidade de emendas parlamentares, sem prazos definidos”, afirma.
Ainda de acordo com o sindicato, o Governo do Estado sinalizou um aporte destinado ao pagamento do mês corrente dos médicos obstetras. Entretanto, os profissionais das demais especialidades seguem sem previsão para o recebimento dos valores em atraso.
A situação levou o Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers) a emitir um alerta sobre a possibilidade de interdição ética de serviços da instituição. Após fiscalização realizada no hospital, o conselho apontou problemas relacionados às escalas médicas e às condições necessárias para a manutenção da assistência. A entidade informou que poderá adotar medidas mais severas caso não sejam asseguradas condições adequadas para o exercício da medicina e para a segurança dos pacientes.
Diante do cenário, o Governo do Estado passou a acompanhar mais de perto a situação da Santa Casa. Uma reunião realizada em Porto Alegre reuniu representantes da Secretaria Estadual da Saúde, da Prefeitura de Bagé, da direção do hospital, do Ministério Público e do Tribunal de Contas do Estado.
O encontro teve como objetivo discutir alternativas para evitar prejuízos aos atendimentos e construir soluções emergenciais para a instituição. Entre os encaminhamentos anunciados está o acompanhamento permanente da situação por parte do Estado e a articulação de medidas voltadas à manutenção da assistência hospitalar na região.
A preocupação também mobilizou os prefeitos dos municípios que integram a 7ª Região de Saúde. Em ofício encaminhado ao Ministério da Saúde e à Secretaria Estadual da Saúde, os gestores de Bagé, Aceguá, Candiota, Dom Pedrito, Hulha Negra e Lavras do Sul solicitaram uma auditoria completa na gestão da Santa Casa e pediram a intervenção imediata do Estado na instituição.
No documento, os prefeitos afirmam estar preocupados com a situação do hospital e destacam o risco de comprometimento dos serviços prestados à população. O pedido de auditoria busca esclarecer a aplicação dos recursos destinados à instituição, enquanto a solicitação de intervenção é fundamentada nas responsabilidades do Estado em relação à assistência hospitalar regional.
A mobilização também chegou à esfera federal. No domingo, 14, o deputado federal Afonso Hamm esteve reunido com a provedora da Santa Casa, Celi dos Santos, integrantes da administração hospitalar e representantes políticos locais para discutir alternativas de socorro financeiro à instituição.
Segundo o parlamentar, o objetivo é levar as demandas do hospital ao Ministério da Saúde e à liderança do Progressistas na Câmara dos Deputados. Entre as medidas defendidas estão a criação de uma linha emergencial de apoio financeiro, a recomposição dos recursos destinados à Média e Alta Complexidade (MAC) e a agilização da liberação de emendas parlamentares.
Conforme informações apresentadas pela direção da Santa Casa durante o encontro, a instituição acumula um passivo financeiro estimado em R$ 105 milhões. A administração também informou que está concluindo um diagnóstico detalhado da situação do hospital, com levantamento dos principais problemas financeiros e operacionais e definição de medidas para reestruturação da instituição.

