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Martha Antiquário reabre as portas e devolve a Bagé um espaço de memória, história e afeto
Quase quatro anos depois da despedida de Martha Barbosa Corrêa, o tradicional antiquário retorna sob o olhar da filha Stefânia Corrêa, preservando memórias, histórias e a paixão pelas peças que atravessam gerações
por Érica Alvarenga
Ao atravessar a porta de vidro do Martha Antiquário, a impressão é de que o tempo desacelera.
Os lustres espalham uma luz suave sobre móveis centenários, cristais refletem pequenos brilhos pelos ambientes e cada peça parece guardar uma história própria. Entre cadeiras cuidadosamente restauradas, porcelanas delicadas e madeiras nobres que atravessaram gerações, existe algo que vai além da decoração, existe memória.
Após anos de portas fechadas, o antiquário mais tradicional de Bagé volta a receber visitantes. E, embora o nome permaneça o mesmo, a reabertura marca um novo capítulo na trajetória construída por Martha Barbosa Corrêa, antiquária, artista e apaixonada por história.
Agora, quem assume a missão de preservar esse legado é a filha, Stefânia Barbosa Corrêa Móglia. “O Martha Antiquário está reabrindo as portas. Mas eu estou só voltando para casa”, resume.
A frase ajuda a compreender que esta não é apenas uma história sobre móveis antigos ou decoração. É uma história sobre herança afetiva, memória familiar e continuidade.
Stefânia é formada em Direito e trabalhou por anos na empresa da família. Durante a pandemia, decidiu se afastar da rotina profissional para viver mais intensamente a maternidade. Com o passar do tempo, percebeu que não desejava retornar ao escritório. Em seu lugar, crescia uma vontade que parecia antiga e familiar: a vontade de voltar para o antiquário.
“Eu cresci aqui dentro. Cresci entre móveis, porcelanas, pratarias, leilões e histórias. Para mim, é muito emocionante estar reorganizando o antiquário novamente”, conta.
A conexão, porém, começou muito antes. Ainda adolescente, Stefânia ganhou da mãe um quadro escolhido especialmente para o seu aniversário. Enquanto as amigas estranhavam o entusiasmo por uma peça antiga, ela se encantou imediatamente. O valor daquele presente não estava apenas no objeto, mas em tudo o que ele representava.
Sem perceber, o olhar antiquário já estava sendo formado. “Mãe, me dá uma cadeira. Me empresta isso. Me empresta aquilo”, relembra, sorrindo ao recordar as inúmeras vezes em que recorria ao acervo da mãe para compor seus próprios espaços.
Ao longo dos anos, as peças passaram a acompanhá-la nas mudanças de endereço, compondo uma coleção afetiva construída aos poucos, entre presentes, empréstimos e descobertas. “Acervo é assim. A gente vai criando”, afirma.
Por trás do antiquário
Durante mais de duas décadas, Martha dedicou-se ao universo das antiguidades.
Formada em Belas Artes, apaixonada por história, arte e restauração, fez do antiquário uma extensão da própria personalidade. Mais do que um negócio, era um modo de viver.
Em uma homenagem escrita após sua morte, em agosto de 2022, sua amiga Janine Pinto a definiu como uma mulher de inteligência rara, dona de um olhar sensível para a beleza e para os detalhes da vida. “Foi antiquária, poeta, bonequeira e tantas outras coisas. Bordava, fazia tricô, tocava instrumentos musicais. O que se propusesse a fazer, fazia muito bem”, escreveu.
Entre móveis antigos, livros e objetos carregados de memória, Martha construiu um espaço que se tornou referência em Bagé e região.
Sua partida representou uma perda sentida não apenas pela família, mas por todos aqueles que reconheciam nela uma figura singular da vida cultural bajeense.
Agora, quase três anos depois, sua presença continua sendo percebida em cada canto do antiquário. “O Martha Antiquário tem a essência da minha mãe. Mas ele volta agora também com o meu olhar”, explica Stefânia.
Uma casa cheia de histórias
A própria sede antiquário, que está localizada na rua Bento Gonçalves nº 154, faz parte dessa narrativa. Logo na fachada do imóvel, o sobrenome “Villa Maders” está estampado, em homenagem feita por Martha a sua avó, figura muito importante em sua vida.
Chamam atenção também as duas gárgulas posicionadas no alto da construção. Inspiradas na arquitetura de Notre-Dame, elas foram instaladas por Martha durante a restauração da casa e carregam um simbolismo especial. “Servem para afastar o mal-olhado”, explica Stefânia.
Assim como as peças expostas no interior do antiquário, a própria casa se transformou em um objeto de preservação histórica e afetiva.
Antiguidades com alma
Com o retorno das atividades, Stefânia busca manter viva a essência construída pela mãe, mas também imprimir sua identidade ao espaço.
Grande parte do acervo passou por um cuidadoso processo de restauração. Cada tecido foi escolhido pessoalmente e os profissionais foram selecionados de forma criteriosa. O objetivo era respeitar a história das peças sem abrir mão da renovação. “Tudo que está aqui eu levaria para a minha casa”, afirma.
O trabalho envolve pesquisa constante sobre a origem dos móveis, porcelanas, cristais e pratarias. Muitas peças chegam do Uruguai, porta de entrada histórica para objetos provenientes da França, Espanha e de outros países europeus.
Mas encontrar uma peça rara é apenas parte do processo. Restaurá-la exige conhecimento, paciência e respeito pelo trabalho original. “Não é simplesmente lixar e fazer de novo. É preciso preservar a história daquela peça”, explica Stefânia.
O valor do que permanece
Se antes os antiquários eram associados principalmente a colecionadores e apreciadores mais experientes, Stefânia percebe uma mudança de comportamento.
Segundo ela, cada vez mais pessoas da sua geração têm buscado móveis e objetos antigos para compor ambientes contemporâneos. “Os móveis antigos eram feitos para durar. Eram feitos para passar de geração para geração”, observa.
Em uma época marcada pelo consumo rápido e pelos objetos descartáveis, o antiquário aposta justamente no contrário.
Ali, cada móvel já atravessou décadas. Cada cristal sobreviveu ao tempo, cada marca na madeira conta uma passagem por outras casas, outras famílias e outras histórias.
Talvez seja por isso que a reabertura do Martha Antiquário represente mais do que a retomada de um negócio tradicional. Ela devolve à cidade um espaço onde a memória continua encontrando lugar para permanecer.
E, para Stefânia, significa algo ainda mais simples e profundo: voltar para casa.

