Minuano Conecta
O teatro a céu aberto de Clelia Camargo
por Márlon Castro Posqui
Para algumas pessoas, a arte é uma profissão. Para outras, um hobby ou uma forma de expressão. Para Clelia Camargo, a arte é uma condição de existência. Ela não consegue imaginar a própria vida sem criar. Seja desenhando, escrevendo, pesquisando, esculpindo, confeccionando bonecos de carnaval e cenografias para teatro, produzindo vídeos, trabalhando com papel machê ou desenvolvendo projetos culturais, a artista bajeense mantém uma relação permanente com o fazer artístico.
Na infância, enquanto outras crianças se divertiam com brinquedos convencionais, Clelia encontrava fascínio nos materiais que sobravam do trabalho do pai, pintor predial e de móveis. Tintas, massas, lixas e pedaços de madeira transformavam-se em matéria-prima para a imaginação.
Ela recorda que gostava de construir casas de papelão, criar móveis em miniatura e produzir seus próprios brinquedos. Mais tarde, encantou-se pelas formas geométricas aprendidas na escola e pelas planificações de cubos, cilindros e outras estruturas tridimensionais. Décadas depois, percebe que continua brincando de maneira semelhante. “Nunca gostei de brincar de boneca. Hoje eu faço boneca, mas esse brincar meu hoje, a boneca vai para o carnaval, ela brilha e se movimenta. Agora aquela bonequinha parada, eu nunca consegui achar muito interessante”, explica.
Embora a arte estivesse presente desde a infância, Clelia buscou formação acadêmica em Artes Visuais na Urcamp já na vida adulta. Para ela, a graduação representava também uma forma de legitimar uma trajetória construída muito antes da universidade.
Segundo a artista, frequentemente artistas autodidatas são vistos com desconfiança, mesmo quando possuem ampla experiência. A formação acadêmica veio como uma forma de complementar uma caminhada que já existia. Posteriormente, ingressou no mestrado da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Em razão das responsabilidades familiares e profissionais, optou por interromper os estudos. Ainda assim, não descarta retornar para concluir essa etapa.
"O Carnaval é uma grande experiência teatral a céu aberto"
Para Clelia, o Carnaval reúne elementos que sempre estiveram presentes em seu trabalho. Em diversos momentos da entrevista, ela associa a festa popular ao universo teatral, enxergando os desfiles, personagens, figurinos e alegorias como uma grande experiência cênica. Na sua visão, o Carnaval é uma espécie de teatro a céu aberto, onde a arte ocupa as ruas e estabelece uma relação direta com o público.
Foi nesse contexto que surgiram os bonecos gigantes, uma das expressões mais marcantes de sua produção artística. A ideia inicial era produzir algo ligado ao carnaval para presentear o marido, que sempre teve envolvimento com a festa popular. Os personagens ganharam vida própria e passaram a despertar a atenção do público, especialmente pela relação que estabelecem com a memória afetiva dos bajeenses.
A experiência também despertou o interesse da artista pela história do Carnaval local. Durante suas pesquisas, Clelia mergulhou nas lembranças de figuras emblemáticas que marcaram gerações, como a Diabolina e o King Kong, personagens que desfilavam pelas ruas de Bagé e permanecem vivos na memória de quem acompanhou os carnavais de décadas passadas. A artista recorda que, quando criança, os personagens gigantes despertavam nela uma mistura de fascínio e medo.
Mais do que reproduzir essas figuras, a artista buscou compreender suas histórias. Entrevistou pessoas ligadas à sua criação, pesquisou registros e passou a refletir sobre a importância da memória dentro da cultura popular. Dessa investigação nasceu a ideia da “Deusa do Pampa”, personagem concebida para dialogar com o passado e, ao mesmo tempo, criar novas narrativas para o presente, que deve estrear no Carnaval de 2027.
Além da produção artística, Clelia também atua na formação cultural por meio de oficinas ligadas ao Carnaval. Utilizando materiais acessíveis, como o papelão, incentiva a criatividade e demonstra que a arte pode surgir dos recursos mais simples. Para ela, o Carnaval não é apenas espetáculo. É também um espaço de encontro, pertencimento, memória e criação coletiva, uma grande encenação popular onde arte e comunidade caminham lado a lado.
O fazer arte ontem, o fazer arte hoje
A artista destaca que, quando iniciou sua caminhada, viver exclusivamente da arte era uma realidade distante para a maioria dos profissionais da área. Durante muitos anos, conciliou a produção artística com outras atividades profissionais. Na sua avaliação, os mecanismos de incentivo cultural contribuíram para mudar esse cenário, oferecendo condições para que artistas desenvolvessem projetos mais consistentes e de maior alcance. "Acho os editais essenciais, hoje o pessoal pode ganhar dinheiro fazendo arte, só nisso aí eu já acho excelente. Hoje alguém pode viver de editais, não só do estado, município, como outros tantos que surgem", comenta.
Os editais contribuíram para que Clelia aprofundasse pesquisas sobre a memória cultural de Bagé, desenvolvesse trabalhos envolvendo personagens históricos do Carnaval, produzisse registros audiovisuais e transformasse investigações artísticas em obras que dialogam com a comunidade. Atualmente, também está finalizando um livro.
Embora reconheça a importância dos editais, ela também observa que os projetos exigem dedicação, organização e responsabilidade. Além do processo criativo, é necessário pesquisar, documentar, cumprir prazos e prestar contas. Ainda assim, considera que esses mecanismos representam uma oportunidade fundamental para fortalecer a produção cultural e valorizar o trabalho dos artistas.
Acasos
Entre seus projetos mais significativos está a série “Acasos”, que dá nome à sua marca. Inicialmente, os trabalhos surgiram a partir da manipulação digital de desenhos realizados no computador. Fragmentos de imagens eram deformados, reorganizados e reinterpretados até formarem novas figuras.
O resultado chamou tanto sua atenção que acabou se transformando no tema de seu trabalho de conclusão de curso. Durante a pesquisa, Clelia mergulhou em áreas como psicologia, filosofia e história da arte para investigar se aquelas imagens realmente surgiam por acaso.
Segundo ela, os desenhos revelavam memórias, referências culturais, experiências de vida e elementos do inconsciente que se manifestavam visualmente. Foi nesse processo que surgiram imagens associadas ao sagrado, à infância e a diferentes símbolos presentes em sua trajetória pessoal. A partir da pesquisa, Clelia concluiu que suas produções carregam referências, memórias e experiências pessoais que se manifestam em seu processo criativo. Nada é por acaso.
Ao longo da conversa, fica difícil separar a artista da pesquisadora, da escritora, da oficineira ou da criadora de personagens. Todas essas facetas coexistem e se alimentam mutuamente. Cada novo projeto parece conduzir a outro, cada descoberta gera novas perguntas e cada obra abre caminho para uma investigação diferente. Talvez seja justamente essa inquietação permanente, mais do que qualquer técnica ou material, a característica que melhor define a trajetória de Clelia Camargo.

