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Um conto de duas amigas: escrita, memória e sororidade

Em 23/05/2026 às 08:07h
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Andradina de Oliveira

Clarisse Ismério

Historiadora, Doutora em História do Brasil.

Professora na EEM Dr. Carlos Antônio Kluwe e na Urcamp

Coordenadora dos Cursos de Pedagogia e História da Urcamp

Integrante da Academia Bajeense de Letras (ABL)

 

 

 

Durante séculos, as mulheres foram ensinadas a competir entre si pela aprovação masculina. Quando, porém, duas mulheres escolhem apoiar-se intelectualmente, algo poderoso acontece: elas rompem o isolamento que o patriarcado tanto cultivou.

Foi assim com Andradina de Oliveira e Leocádia Greco. Duas mulheres unidas não apenas pela amizade, mas também por algo ainda mais raro em seu tempo: a coragem de pensar e escrever juntas.

Andradina era professora, dramaturga, conferencista e jornalista. Uma mulher que carregava inquietações grandes demais para caber nas limitações impostas ao feminino no final do século XIX. Sua escrita atravessava jornais e debates, defendendo aquilo que parecia quase revolucionário: o direito das mulheres à educação, à intelectualidade e à visibilidade.

Leocádia, por sua vez, era descrita como delicada e luminosa, dessas figuras que a memória transforma em retrato poético. Contudo, por trás da imagem idealizada, havia uma mulher culta, inteligente, leitora de autores nacionais e europeus, conhecedora de idiomas e interessada por literatura, arte e ciência. Em um período em que tantas mulheres eram reduzidas ao papel de esposas e mães, ela transitava também pelos números e registros da fábrica da família, ocupando funções até então consideradas masculinas.

Ainda assim, ambas carregavam as marcas de seu tempo. A sociedade positivista lhes ensinara que a mulher deveria ser educadora moral da família, guardiã do lar e do afeto. E elas próprias, em alguns momentos, reproduziram esse discurso assimilado desde cedo.

Talvez a beleza dessa história esteja justamente em suas contradições. Porque, mesmo limitadas pelos padrões sociais de sua época, Andradina e Leocádia encontraram uma maneira de existir para além deles.

Quando Andradina chegou a Bagé, a convite da amiga, trouxe consigo mais do que projetos pedagógicos. Trouxe uma ideia ousada: criar espaços em que mulheres pudessem escrever, refletir e ocupar o mundo das letras. Assim nasceu o jornal Escrínio, em 1898. O periódico defendia o protagonismo feminino, publicava poemas, contos e reflexões, além de incentivar mulheres a saírem da invisibilidade intelectual.

E foi por meio das páginas desse periódico que Leocádia descobriu-se poetisa. Seus textos abordavam a maternidade, o acolhimento e a ternura, mas também expressavam consciência, sensibilidade e o desejo de ser escutada.

Andradina admirava profundamente a amiga. Em suas palavras, ambas compartilhavam “a mesma paixão pelas letras” e o sonho de conquistar um nome literário. Talvez sem perceber, já praticavam aquilo que hoje chamamos de sororidade: uma aliança construída pelo afeto, pela escuta e pelo reconhecimento mútuo das potencialidades femininas.

Então veio a perda, na morte prematura de Leocádia. O obituário do jornal pouco dizia sobre ela, apenas algumas linhas, como se uma vida inteira pudesse caber em meia dúzia de palavras.

Mas Andradina recusou o esquecimento. Escreveu sobre a amiga na obra “A mulher rio-grandense: escritoras mortas” e transformou sua escrita em um gesto de permanência. Hoje, ao olharmos para a trajetória dessas duas amigas, percebemos algo profundamente comovente: enquanto o mundo tentava confiná-las à sombra, elas se iluminavam uma à outra.

Nas breves linhas aqui apresentadas, evidenciam-se fragmentos da trajetória intelectual de duas mulheres que, por meio do acolhimento, da troca de vivências e dos laços de amizade, perpetuaram suas histórias em um contexto marcado por uma sociedade tradicional e positivista, que relegava às mulheres uma existência subordinada à sombra de seus maridos.

Enquanto tantas vozes femininas foram silenciadas, apagadas ou relegadas ao esquecimento, Andradina de Oliveira e Leocádia Greco eternizaram-se por meio da escrita, da amizade e da sororidade, transformando suas experiências em memória e resistência. Ao final, a trajetória dessas duas amigas não apenas reconstitui a presença feminina na história, mas também nos convida à reflexão sobre a importância do apoio mútuo entre mulheres na construção de espaços de protagonismo, reconhecimento e emancipação.

 

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