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Eron Vaz Mattos: o galponeiro que transformou vivência em poesia e música

“Eu faço e escrevo aquilo que sinto. E com muita responsabilidade e verdade.”

Em 11/04/2026 às 19:06h
Jaqueline Muza

por Jaqueline Muza

Eron Vaz Mattos: o galponeiro que transformou vivência em poesia e música | Minuano Conecta | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
Mattos: “Eu nunca tive a pretensão de ser o melhor. Faço aquilo que sinto.” Foto: Jaqueline Muza

É assim que Eron Vaz Mattos resume a própria trajetória, uma vida marcada pela simplicidade, pela cultura do campo e por uma produção artística construída sem pretensões, mas repleta de significado.

Aos 75 anos, ele se define em uma palavra: galponeiro. “Aquele que vive no galpão, que tem predileção pelo galpão”, explica. Mais do que um conceito, a definição revela uma identidade moldada desde o nascimento, na localidade de Olhos d’Água, no interior de Bagé, onde veio ao mundo “no tempo das parteiras”, com orgulho de quem nunca rompeu o vínculo com suas origens.

Criado na lida campeira, Mattos conhece o campo como poucos. Trabalhou com gado, arado, carreta e aprendeu desde cedo as responsabilidades da vida rural. “Quando eu vejo alguém trabalhando no campo, eu sei o que ele está sentindo. Porque eu estive lá. E não foi de faz de conta”, afirma.

Mesmo quando veio para a cidade estudar,  após conquistar o primeiro lugar no exame de admissão ao ginásio, nunca deixou para trás o que chama de sua essência. “Eu vim para a cidade, mas jamais perdi o vínculo com o campo.”

Da infância improvisada à música

A música surgiu antes mesmo da consciência. Segundo ele, ainda criança, já simulava tocar violão com um galho de árvore. “Fazia de conta que tocava e cantava”, relembra.

O incentivo familiar foi decisivo. O pai tocava gaita de boca, a mãe, violão, e logo os irmãos formaram um trio musical. “Nós tocamos muito baile, muita festa, muita serenata no interior”, conta. Foi nesse ambiente que Eron aprendeu, de forma autodidata, a tocar acordeon e violão, habilidades que o levariam a integrar conjuntos e acompanhar grupos de dança tradicionalista.

Mais tarde, já estudante, participou do conjunto “O Dorminhoco”, que teve atuação marcante na região de fronteira e até no Uruguai e Argentina.

O nascimento do compositor

A poesia surgiu naturalmente, como extensão da vivência. A primeira composição veio em Porto Alegre, aos 22 anos, durante um curso de epidemiologia. Sensibilizado com visitantes mineiros encantados com o Rio Grande do Sul, decidiu escrever algo em homenagem ao Estado.“Eu me considerei responsável e deveria escrever alguma coisa sobre o Rio Grande para eles”, conta.

Desde então, não parou mais. São mais de 160 músicas gravadas, parcerias com artistas consagrados e sete livros publicados. Ainda assim, rejeita qualquer ideia de grandiosidade. “Eu nunca tive a pretensão de ser o melhor. Faço aquilo que sinto.”

A inspiração, segundo ele, não vem do acaso, mas da vivência. “A gente não escreve sobre o que não conhece”, resume.

Parcerias e reconhecimento

Entre os encontros marcantes da carreira está a parceria com o cantor Luiz Marenco, que o procurou ainda jovem. Da convivência nasceu, entre outras obras, a canção “Rincão dos Touros”, cuja criação ocorreu de forma quase espontânea.“Ele pegou a letra, pegou o violão e saiu cantando. A melodia veio na hora. E eu, pintando a parede, acompanhava com a espátula”, relembra, entre risos.

Eron também atuou como preparador cultural para o ator Thiago Lacerda durante as gravações da minissérie O Tempo e o Vento. A experiência rendeu uma amizade duradoura e histórias curiosas, como a adoção de um cachorro durante as filmagens. “Ele queria aprender tudo, cada detalhe. Era dedicado, simples e humano”, descreve.

Entre o campo e a arte

Apesar da trajetória artística, Eron nunca se afastou da vida rural. Mantém um pequeno espaço em Olhos d’Água e continua frequentando o campo sempre que pode. Para ele, a natureza é a maior escola. “A gente do campo tem uma sensibilidade aguçada. Aprende com a natureza, com os animais. É o melhor curso que alguém pode fazer”, afirma.

Hoje, está há algum tempo sem compor. Não por falta de capacidade, mas por uma exigência pessoal. “Para escrever, a gente precisa estar com o espírito elevado. E a realidade hoje dificulta isso”, diz.

Ainda assim, não descarta voltar a criar. Questionado sobre novos pedidos de músicas, responde com sinceridade: “Se não sair como eu quero, não faço. Não resolve fazer só por fazer.”

O maior legado

Em sua trajetória, Eron valoriza mais as relações construídas do que qualquer reconhecimento público. Ao longo da vida, conviveu com grandes nomes da cultura gaúcha e acumulou experiências que considera uma “dádiva”.

Mas o ensinamento mais importante veio de casa. “Meu pai dizia que o maior patrimônio que um homem pode ter é o seu próprio nome”, recorda.

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