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Deusas de pedra: a invisibilidade feminina na arte cemiterial

Em 11/04/2026 às 08:47h
Deusas de pedra: a invisibilidade feminina na arte cemiterial | Minuano Conecta | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler

Clarisse Ismério

Historiadora, Doutora em História do Brasil.

Professora na EEM Dr. Carlos Antônio Kluwe e na Urcamp

Coordenadora dos Cursos de Pedagogia e História da Urcamp

 

 

Os cemitérios patrimoniais se constituem como grandes museus a céu aberto, verdadeiras galerias de arte, nas quais existe a predominância da imagem feminina. E, ao admirá-las, os incautos podem achar que se trata de uma grande valorização da figura feminina. Ledo engano…

Na realidade, essas representações estilizadas da imagem feminina expressam valores conservadores e machistas quanto ao papel e ao lugar da mulher na sociedade. Como observou Michelle Perrot, a história tradicional silenciou as mulheres, confinando-as ao espaço privado e transformando-as mais em representação do que em narrativa. Elas foram imaginadas, idealizadas, moldadas, porém raramente ouvidas. E, se a cidade dos vivos construiu esse silêncio, a cidade dos mortos o eternizou em mármore.

No Rio Grande do Sul da chamada República Velha, sob a influência do positivismo de Auguste Comte, consolidou-se a mentalidade de que a mulher deveria ser rainha do lar, anjo tutelar, guardiã da moral. O espaço público era dos homens; a ela cabia o altar doméstico.

Entre túmulos e mausoléus, essa pedagogia simbólica se repetiu e consolidou valores eternizados em cemitérios de todo Brasil. Como observamos no Cemitério da Santa Casa de Caridade de Bagé, onde encontramos mães com crianças ao colo, mulheres de olhar baixo segurando coroas de flores, anjas que apagam a tocha da vida ou vigiam eternamente a última morada da família.

A maternidade aparece como destino sublime. A mulher divinizada pelo ventre, santificada pelo sacrifício. Lembra a grande Mater Dolorosa, eco distante da Virgem Maria aos pés da cruz. Ali, a dor é nobre; o sofrimento, virtuoso. A mãe consola, protege, orienta — e silencia a si mesma.

A mulher assume também a forma de musa — como Clio, guardiã da História — tendo como função registrar os feitos masculinos, educar as futuras gerações na reverência aos grandes homens. Ela escreve, mas não protagoniza. Ensina, mas não governa.

E existem as carpideiras… Sim, as pranteadoras. Representadas como figuras inclinadas sobre a lápide, com rostos velados pela dor. Profissionais do pranto no passado, metáforas da viuvez eterna no imaginário positivista. Amar era obedecer; obedecer era anular-se. A viúva deveria chorar eternamente, zelando pela memória e pela honra do marido…

A morte também ganhou contornos femininos, sendo representada como uma anja que apaga a chama da vida, encerrando a existência, como quem fecha a cortina de uma peça já encenada.

E, no centro dessa dramaturgia, a mulher permanece como coadjuvante indispensável e necessária para enaltecer, consolar e preservar os feitos masculinos.

Hoje, quando caminhamos por esses corredores silenciosos, podemos ver mais do que pretendiam seus idealizadores. Podemos enxergar não apenas o modelo imposto, mas o sistema que o produziu. E, possivelmente, ao olhar para essas deusas de pedra, possamos finalmente ouvir as vozes que elas nunca puderam emitir.

 

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