Cidade
Jornal feminista criado em Bagé defendia educação e protagonismo das mulheres no final do século XIX
por Márlon Castro Posqui
A atuação das mulheres na imprensa tem raízes antigas no Brasil. Em Bagé, um dos marcos desse movimento foi a criação do jornal *Escrínio*, fundado em 2 de janeiro de 1899 pela escritora e feminista Andradina América de Andrada de Oliveira. O periódico é considerado o segundo jornal feminista do Rio Grande do Sul e o quarto do Brasil.
A história do jornal é tema de pesquisa da doutora em História do Brasil, coordenadora dos cursos de História e Pedagogia da Urcamp e professora da Escola Estadual de Ensino Médio Carlos Kluwe, Clarisse Ismério. Os primeiros resultados do estudo foram apresentados em uma palestra no Museu Dom Diogo de Souza, no ano de 2019, dentro do projeto “A história das mulheres sob a perspectiva dos periódicos locais (1889-1930)”.
Natural de Porto Alegre, Andradina nasceu em 1864 e teve atuação como escritora, professora, dramaturga e conferencista. Depois de viver em Pelotas e Rio Grande, veio para Bagé a convite de Leucádia Greco, após uma apresentação teatral que impressionou a comunidade local. Na cidade, fundou uma escola e criou o jornal *Escrínio*.
O semanário abordava temas literários, artísticos e sociais, mas também defendia a educação feminina, o direito ao trabalho e o protagonismo das mulheres na sociedade. “Vários textos colocam a educação como libertadora, pois a partir dela as mulheres conquistariam independência e liberdade”, explica a historiadora.
Apesar de tratar de temas considerados polêmicos na época, Andradina era respeitada na comunidade. Segundo a pesquisadora, não há registros de ataques ao jornal, e outros periódicos locais frequentemente elogiavam seu trabalho.
{AD-READ-3}Posteriormente, o *Escrínio* também foi publicado em Santa Maria, Rio Grande e Porto Alegre, onde encerrou suas atividades em 1910. A mudança da escritora para a capital ocorreu após um surto de tifo em Bagé.
Para Clarisse Ismério, estudar esses periódicos ajuda a compreender como mulheres do final do século XIX já discutiam temas como autonomia, educação e participação social. “Reconstituir essa história é fundamental para entender o papel das mulheres na sociedade”, afirma.

