Cidade
Meninos investem na venda de lanches após iniciativa solidária
O que começou como uma iniciativa para ajudar um amigo a comprar medicamentos ganhou o apoio da comunidade e despertou nas crianças de 10 e 13 anos o desejo de continuar empreendendo
por Márlon Castro Posqui
A solidariedade foi o primeiro ingrediente de uma iniciativa que uniu dois amigos. Aos 10 e 13 anos, Mário Almeida e Gabriel Vieira, encontraram na venda de lanches uma maneira de ajudar um amigo que enfrentava problemas de saúde. O gesto, que começou com R$5,00, pães e salsichas, acabou conquistando o apoio da comunidade e se transformou em um pequeno empreendimento.
A ideia surgiu quando os meninos souberam que um amigo precisava de medicamentos, mas enfrentava dificuldades financeiras para adquiri-los. Sem muitos recursos, decidiram reunir algumas moedas e procurar uma maneira de arrecadar dinheiro. Com o valor que conseguiram, compraram os primeiros ingredientes para preparar e vender cachorros-quentes.
Liziane Almeida, mãe de Mário, lembra que a iniciativa partiu exclusivamente dos meninos. Segundo ela, os dois compraram inicialmente poucos pães e salsichas e, com o dinheiro das primeiras vendas, conseguiram adquirir novos ingredientes. A mobilização também recebeu doações de pessoas que conheceram a história.
O resultado foi a arrecadação de R$ 78, destinados à compra dos medicamentos do amigo. Com o objetivo alcançado, os meninos interromperam as vendas. Entretanto, algum tempo depois, Mário procurou a mãe com uma nova proposta: queria comprar ingredientes para voltar a vender lanches, desta vez com a intenção de manter a atividade. Os amigos foram até um mercado e compraram três pães e duas salsichas, com ajuda da irmã de Mário. Durante a visita ao estabelecimento, encontraram a avó de Mário, que, ao descobrir o que pretendiam fazer, contribuiu com mais um valor.
Com os ingredientes em mãos, retornaram para casa e deram início a uma nova etapa da iniciativa, passando a comercializar os lanches em uma esquina. "Isso foi tudo iniciativa deles, vontade deles. Não é que a gente diga que eles têm que trabalhar. Isso partiu deles, para juntarem o dinheirinho deles", ressalta Liziane.
O pai de Mário, Ermarionei conta que, inicialmente, sequer sabia que os meninos estavam efetivamente realizando as vendas. A descoberta aconteceu enquanto trabalhava, quando recebeu da filha mais velha um vídeo mostrando a movimentação dos dois. As imagens, divulgadas com o apoio da empresa Márcio Repasses, uma das incentivadoras da iniciativa, repercutiram nas redes sociais e ajudaram a ampliar a visibilidade do pequeno negócio.
Estudos, brincadeiras e lanches
Apesar da pouca idade, os amigos demonstram entusiasmo com a atividade e conciliam a rotina escolar com as vendas, realizadas durante a tarde. Segundo Liziane, os estudos continuam sendo prioridade, e o desempenho escolar dos dois é acompanhado pela família.
Depois da escola, os meninos retornam para casa, almoçam, descansam e, posteriormente, dedicam parte da tarde à comercialização dos produtos. As brincadeiras também continuam fazendo parte da rotina.
A escolha do pancho surgiu pela praticidade e pela possibilidade de começar com poucos recursos. Além dos lanches preparados pelos amigos, a comercialização conta com o auxílio de familiares na produção de pastéis e enroladinhos. Refrigerantes também integram as opções oferecidas, muitos deles recebidos por meio de doações da comunidade.
Segundo os meninos, a procura pelos produtos tem sido positiva. O atendimento costuma ocorrer dependendo das condições do dia. Em períodos de chuva, quando o local fica molhado e embarrado, as vendas são suspensas. Aos domingos, os amigos também não realizam a atividade.
Agora, os meninos conseguiram um trailer, que deverá passar por uma reforma com o auxílio de Márcio, apoiador da iniciativa desde os primeiros dias. O objetivo é utilizar parte do dinheiro arrecadado para melhorar a estrutura e dar continuidade às vendas. Embora também pensem em economizar para outros objetivos, como o conserto de uma bicicleta, os amigos afirmam que a prioridade é investir no próprio empreendimento.
O exemplo que vem de casa
O interesse pela culinária e pelo empreendedorismo não surgiu por acaso na vida dos dois amigos. Mário cresceu acompanhando de perto o trabalho da mãe que atuava na produção de doces e salgados. Ainda pequeno, o menino costumava estar ao lado dela, observando o preparo dos alimentos e auxiliando nas atividades. A convivência com a rotina da cozinha despertou o interesse pela gastronomia e proporcionou os primeiros aprendizados que, hoje, são colocados em prática na produção dos lanches.
Gabriel também encontrou dentro de casa uma referência para o empreendedorismo. Sua mãe mantinha um negócio próprio, experiência que aproximou o menino da realidade de quem trabalha por conta própria. Os amigos carregam exemplos familiares que ajudam a explicar a iniciativa de transformar uma ação solidária em um pequeno empreendimento.

