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Aos 100 anos, vó Baia guarda as memórias de uma vida de trabalho, família e resistência
Moradora do bairro Alcides Almeida, em Bagé, Maria Campos da Rosa celebrou o centenário ao lado da família. Benzedeira, mãe de sete filhos e matriarca de uma família que reúne 95 descendentes entre netos, bisnetos e tataranetos, ela preserva lembranças e costumes de diferentes gerações.
por Suélen Delabari
No bairro Alcides Almeida, em Bagé, uma história centenária faz parte da memória da comunidade. Maria Campos da Rosa, carinhosamente conhecida como vó Baia, completou 100 anos e comemorou a data no sábado, cercada pelo carinho da família. Entre recordações da infância, histórias da maternidade, práticas de benzimento e hábitos preservados ao longo da vida, ela representa uma geração cuja trajetória ajuda a compreender as transformações sociais e os costumes de outros tempos.
De fala espontânea, jeito desconfiado e sorriso fácil, vó Baia guarda recordações de uma infância vivida ao lado da mãe e da avó, em uma época marcada pela escravidão e por profundas desigualdades sociais. Sem ter frequentado a escola, não aprendeu a ler nem a escrever, mas construiu sua história a partir do trabalho, da experiência e dos conhecimentos transmitidos entre gerações.
Uma vida de força e trabalho
Ao recordar a maternidade, vó Baia conta que teve os sete filhos em casa, sem recorrer ao atendimento hospitalar. Dos sete, quatro estão vivos. Naquele período, os partos aconteciam de maneira diferente da realidade atual, e ela enfrentava o nascimento das crianças com os recursos disponíveis.
“Eu era uma guerreira, me dava a primeira dor, na segunda nascia”, conta.
A disposição para o trabalho também marcou sua trajetória. Segundo os familiares, ela continuou cozinhando até pouco tempo atrás, quando desenvolveu labirintite. Mesmo com as mudanças na rotina, mantém a preferência por fazer as próprias coisas e preservar sua autonomia sempre que possível.
Na cozinha, algumas tradições se tornaram marcas registradas. A carne frita e a salada preparada aos domingos estão entre as lembranças mais presentes para os familiares, que associam esses pratos aos encontros e à convivência em casa.
Benzedeira e guardiã de saberes populares
Além da dedicação à família e ao trabalho doméstico, vó Baia também exerceu a prática do benzimento. Como benzedeira, fez parte de uma tradição popular transmitida entre gerações, ligada à fé, à espiritualidade e aos cuidados presentes na vida cotidiana de muitas famílias.
Os chás e os cozimentos também integram os hábitos que preservou ao longo dos anos. Sem seguir restrições alimentares específicas, ela mantém costumes construídos a partir da própria experiência e dos conhecimentos adquiridos durante a vida.
Uma família que atravessa gerações
A vida familiar ocupa um lugar central na história de vó Baia. Seu único casamento durou mais de 70 anos. De acordo com os familiares, a morte do companheiro, há 13 anos, e a perda de alguns dos filhos foram momentos que a abalaram emocionalmente.
Aos 100 anos, vó Baia é matriarca de uma família numerosa. Sua descendência reúne 23 netos, 51 bisnetos e 21 tataranetos, além dos filhos e demais familiares que mantêm viva sua história.
A celebração do centenário representa, assim, mais do que a passagem do tempo. É também uma oportunidade de reunir gerações em torno das lembranças de uma mulher cuja trajetória atravessa diferentes períodos da história de Bagé.
Na vida de Maria Campos da Rosa, estão presentes as experiências de uma infância sem acesso à educação formal, os desafios da maternidade, a dedicação à família, a prática do benzimento e os costumes que permanecem na memória de quem convive com ela.
Em uma sociedade em constante transformação, histórias como a de vó Baia ajudam a preservar a memória familiar e comunitária, valorizando os conhecimentos, as experiências e os vínculos que passam de uma geração para outra.

