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Antonieta de Barros: a mulher por trás do Dia do Professor

Clarisse Ismério Historiadora, Doutora em História do Brasil. Professora na EEM Dr. Carlos Antônio Kluwe e na Urcamp Coordenadora dos Cursos de Pedagogia da Urcamp

Em 17/10/2026 às 06:36h
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Antonieta de Barros

Você sabia que a história do Dia do Professor, comemorado em 15 de outubro, passa pela trajetória de uma mulher negra, professora, jornalista e pioneira na política brasileira? Pois bem, o seu nome era Antonieta de Barros.

Em 1948, quando exercia mandato na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, Antonieta foi autora da iniciativa que instituiu naquele estado o Dia do Professor e o feriado escolar em 15 de outubro. A data somente seria oficializada nacionalmente anos depois, em 1963. Por trás de uma comemoração tão presente em nosso cotidiano escolar, encontra-se a história de uma mulher cuja trajetória de luta, conquistas e protagonismo merece ser conhecida e valorizada.

Antonieta nasceu em Florianópolis, em 11 de julho de 1901, apenas treze anos após a abolição da escravidão no Brasil. Era filha de Catarina de Barros, mulher negra que trabalhava como lavadeira para sustentar a família. Cresceu em uma sociedade marcada pelas desigualdades sociais, pelo racismo e por fortes limitações impostas às mulheres. Porém, encontrou na educação a possibilidade de fazer sua voz ser ouvida e de construir novos caminhos para si e para outras mulheres.

Formou-se professora pela Escola Normal Catarinense e, em 1922, criou o Curso Particular Antonieta de Barros, dedicado à alfabetização. Para ela, ensinar significava muito mais do que transmitir conhecimentos, através da educação poderia transformar vidas, ampliar horizontes e promover autonomia. Segundo ela: “Educar é ensinar os outros a viver, é iluminar caminhos alheios, é amparar debilitados, transformando-os em fortes, é mostrar as veredas, apontar as escaladas, possibilitando avançar, sem muletas e sem tropeços.”

Além de professora, tornou-se jornalista e escritora. Fundou e dirigiu o jornal A Semana e colaborou com outros periódicos, utilizando a palavra escrita para refletir sobre educação, política, desigualdades sociais e a condição das mulheres. Em alguns de seus textos adotava o pseudônimo Maria da Ilha e, em 1937, publicou Farrapos de Ideias.

Entretanto, foi também na política que sua trajetória adquiriu uma dimensão histórica. Na década de 1930, poucos anos depois das brasileiras conquistarem o direito ao voto, Antonieta ingressou na vida política catarinense e se tornou a primeira mulher negra a exercer um mandato parlamentar no Brasil, além de ser pioneira na Assembleia Legislativa de Santa Catarina.

Mas Antonieta de Barros não queria simplesmente ocupar uma cadeira no Parlamento, queria utilizar aquele espaço para defender aquilo em que acreditava. Durante sua atuação política defendeu projetos voltados para à educação, à cultura, ao funcionalismo público e à valorização dos professores. Nesse processo, em 1948, apresentou a iniciativa que estabeleceu em Santa Catarina o Dia do Professor, em 15 de outubro.

Ao longo de sua vida também estabeleceu contatos com mulheres envolvidas na luta pela ampliação dos direitos femininos, entre elas Bertha Lutz, importante liderança do movimento pelos direitos políticos das mulheres no Brasil.

Sua trajetória, portanto, não pode ser compreendida apenas como uma sequência de conquistas individuais. Ela fez parte de uma geração de mulheres que começou a questionar os limites impostos ao feminino e a reivindicar presença na educação, na imprensa, na literatura e na política.

No caso de Antonieta, havia ainda outras barreiras a enfrentar. Ser mulher, negra e proveniente de uma família de poucos recursos tornava sua presença nos espaços intelectuais e políticos ainda mais significativa. Sua história nos permite perceber como as desigualdades de gênero, raça e classe se cruzavam na sociedade brasileira da primeira metade do século XX.

Antonieta de Barros faleceu em 1952, aos 50 anos. Décadas depois, seu legado passou a receber maior reconhecimento. Em 2023, seu nome foi inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. Mas seu grande legado não está somente nos reconhecimentos oficiais. Está nas escolas, nas salas de aula, nas mulheres que produzem conhecimento, nas professoras negras que ocupam universidades e espaços de decisão. Está em todos aqueles que continuam acreditando que ensinar significa também transformar vidas.

Por isso, ao comemorarmos o Dia das(os) Professoras(es), vamos também relembrar a trajetória da grande Antonieta de Barros, uma mulher que fez da docência um espaço de transformação e uma plataforma de atuação política e social.

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