Cidade
Ilustrador bajeense transforma medo da infância em livro infantil
Obra autoral de Arthur Gonçalves Porto Alegre será apresentada ao público na quinta-feira, 15, durante a Feira do Livro de Bagé
por Melissa Louçan
Uma lembrança da infância, marcada pelo medo de uma personagem do imaginário popular, deu origem ao primeiro livro autoral do ilustrador bajeense Arthur Gonçalves Porto Alegre, de 24 anos. Intitulada A Velha do Saco, a obra será apresentada ao público na quinta-feira, 15, durante a Feira do Livro de Bagé. O projeto transforma uma lenda conhecida por gerações em uma aventura de fantasia, com ilustrações e textos em rimas poéticas criados pelo próprio autor.
Nascido em Bagé, Arthur começou a desenhar ainda criança. As experiências vividas na cidade, algumas delas incorporadas à sua memória visual, acabaram servindo de referência para o desenvolvimento de seu trabalho artístico. Formado em Design Gráfico pela Universidade Cruzeiro do Sul, ele também concluiu uma pós-graduação em Ilustração Infantil pelo Instituto Ocellaris e pela Faculdade FaCiencia. Atualmente, trabalha como ilustrador de livros infantis e é agenciado pelo Studio Laquaparla, de Curitiba.
O livro surgiu como trabalho de conclusão da especialização, desenvolvido ao longo de seis meses de orientação. A inspiração, porém, vem de muito antes. Quando era pequeno, Arthur ouvia da mãe que as crianças que desobedeciam aos pais poderiam ser levadas pela Velha do Saco.
Uma lembrança específica permaneceu com ele. Durante uma caminhada de mãos dadas com a mãe em direção à escola, Arthur avistou uma senhora sentada em um banco na praça da Catedral. Ela vestia roupas desbotadas e carregava um saco nas costas. A imagem ficou guardada na memória do ilustrador. “Naquela época, eu acreditava que aquilo poderia acontecer a qualquer momento e, para ser sincero, sentia muito mais medo do que curiosidade”, conta.
A proposta do livro nasceu quando o ilustrador começou a imaginar o que aconteceria se uma criança decidisse seguir os passos da figura tão temida. Na história, o protagonista Arthur, inspirado no próprio autor quando criança, parte em uma jornada ao lado de Coragem, seu cachorro de estimação, para descobrir o que a Velha esconde no saco.
A dupla conduz uma narrativa que combina mistério, humor e fantasia. Enquanto Arthur representa a curiosidade e a vontade de descobrir o mundo, Coragem acompanha o menino diante dos desafios e das incertezas que surgem pelo caminho. O personagem também reforça uma das ideias centrais da obra: ter coragem não significa deixar de sentir medo, mas encontrar forças para seguir em frente apesar dele.
O trabalho reúne textos poéticos e ilustrações de autoria de Arthur. A combinação exigiu que ele desenvolvesse a escrita e a linguagem visual de forma integrada, buscando um ritmo de leitura divertido e imagens capazes de ampliar a experiência da narrativa.
As ilustrações foram desenhadas à mão e posteriormente coloridas digitalmente, em um processo conhecido como tradigital, que combina técnicas tradicionais e ferramentas digitais. Durante a criação, um dos principais desafios foi definir as silhuetas e as proporções dos personagens, de modo que tivessem uma identidade visual própria e fossem facilmente reconhecidos, mesmo com formas simplificadas.
Entre as referências do ilustrador estão animações que marcaram a chamada época de ouro do Cartoon Network, como Samurai Jack, Johnny Bravo e A Vaca e o Frango. Artistas e criadores como Carter Goodrich, Stephen Silver, Genndy Tartakovsky, Tim Burton e Eiichiro Oda também influenciam sua maneira de pensar personagens e construir universos visuais.
Embora esta seja sua primeira experiência com um livro autoral publicado, Arthur já trabalhou na ilustração de obras para outras editoras. O lançamento em Bagé marca uma etapa especial de sua trajetória, ao levar ao público uma história que nasceu de suas próprias memórias e que agora poderá encontrar novas interpretações entre os leitores.
“Lançar esse trabalho em Bagé representa a realização de um sonho. É muito especial poder apresentar uma história que tem raízes nas minhas memórias de infância justamente na cidade onde nasci e vivi essas experiências”, afirma.

