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Museu da Gravura Brasileira aposta em nova fase de preservação e acesso à arte
por Melissa Louçan
O Museu da Gravura Brasileira (MGB), mantido pela Fundação Attila Taborda (FAT/Urcamp), reinicia suas atividades após reformas no telhado e nos espaços internos, com intervenções voltadas à conservação e à segurança do acervo. A nova etapa é marcada pela exposição Lugares Gravados: Grupo de Bagé no acervo do Museu da Gravura Brasileira, inaugurada em 1º de outubro, que reúne obras de Carlos Scliar, Glênio Bianchetti, Glauco Rodrigues e Danúbio Gonçalves.
Inaugurado em 21 de outubro de 1977, o MGB completa 49 anos neste mês. Com mais de 1,7 mil obras, o acervo preserva parte importante da história das artes visuais em Bagé e reúne trabalhos relacionados ao Grupo de Bagé, à formação artística local e a diferentes técnicas de gravura.
Nesta entrevista, Carmen Barros, responsável pela Gestão dos Museus da FAT/Urcamp ao lado de Maria Luiza Pêgas, fala sobre a trajetória da instituição, a importância da coleção, a circulação das obras em exposições fora do município e os objetivos para esta nova fase.
Museu da Gravura Brasileira: memória, identidade e mundos possíveis
1. O que significa reabrir o MGB neste momento e qual é o projeto para essa nova fase do museu?
O Museu da Gravura Brasileira passou por reformas no telhado e em seus espaços internos, além de adequações necessárias para oferecer melhores condições de preservação e segurança ao acervo, considerando questões como umidade e conservação das obras. É importante esclarecer que o museu não esteve totalmente fechado. Ao longo desse período, continuou despertando o interesse de pesquisadores de diferentes regiões do Brasil, justamente por suas características singulares e pela importância de sua coleção.
Reabrir, neste momento, significa fortalecer e reafirmar o MGB como museu de arte. Existe uma diferença entre um museu e uma galeria: enquanto a galeria está mais diretamente ligada à apresentação e à circulação de exposições, o museu tem também o compromisso de preservar, pesquisar, documentar, interpretar e compartilhar seus acervos e os conhecimentos que eles produzem.
Nosso projeto para esta nova fase é consolidar essa identidade, mantendo-nos fiéis à natureza do MGB: um museu de arte, de pensamento, de memória, de reflexão e de apreciação estética. Queremos que suas obras sejam não apenas vistas, mas também pensadas, relacionadas e compreendidas em suas múltiplas possibilidades de significado.
A arte é uma forma de conhecimento e de produção poética. Ela nos permite olhar o mundo de outras maneiras, questionar o que parece estabelecido e imaginar outras formas possíveis de existência. É nesse sentido que queremos ampliar a presença do museu na vida da comunidade, fortalecendo sua dimensão cultural, educativa e cidadã.
2. O MGB nasceu diretamente ligado ao Grupo de Bagé. Como essa origem ainda influencia a identidade da instituição quase 50 anos depois?
A origem do Museu da Gravura Brasileira está profundamente ligada ao Grupo de Bagé e à importância que a gravura adquiriu na trajetória artística e cultural da cidade. Essa relação permanece fundamental não apenas para a identidade do museu, mas também para a compreensão da própria história de Bagé.
A gravura carrega uma particularidade: é uma linguagem artística que trabalha com a marca, a matriz, a inscrição e a possibilidade de reprodução. Mas ela é também um campo de invenção, no qual cada artista desenvolve uma poética própria, uma maneira singular de interpretar e projetar o mundo.
O Grupo de Bagé representa uma parte importante dessa história. Preservar suas obras significa manter viva uma experiência artística que ultrapassa o âmbito local e se relaciona com a história da arte brasileira. Ao mesmo tempo, significa reconhecer que a produção artística também participa da construção da memória coletiva e da identidade de uma comunidade.
É por isso que precisamos aproximar cada vez mais o Grupo de Bagé da população. Na exposição Lugares gravados, Grupo de Bagé, no acervo do Museu da Gravura Brasileira, procuramos estabelecer relações entre as obras, os artistas e a memória da cidade. Não se trata apenas de olhar para o passado, mas de perceber como ele continua presente, produzindo sentidos no nosso tempo.
A identidade de um museu não é algo imóvel. Ela se constrói continuamente, nas relações entre o acervo, a pesquisa, a comunidade e as novas gerações. O MGB tem a responsabilidade de preservar essa história e, ao mesmo tempo, mantê-la aberta a novas leituras e interpretações.
3. O que existe hoje no acervo que talvez nem os próprios bajeenses conheçam?
O Museu da Gravura Brasileira possui mais de 1.700 obras de arte, reunidas ao longo de sua trajetória, em grande parte por meio de doações. Esse acervo guarda histórias, experiências artísticas e possibilidades de leitura que ainda podem ser descobertas por muitas pessoas.
Temos um conjunto expressivo de aproximadamente 300 obras relacionadas ao Grupo de Gravura de Bagé, além de trabalhos de importantes artistas brasileiros, obras de artistas que viveram ou produziram em Bagé e registros de diferentes momentos da história da arte local.
Entre essas presenças estão artistas e professores que contribuíram para a formação e a circulação do conhecimento em gravura na cidade, como Consuelo Cuerda Ferreira, vinculada ao ensino e à produção artística. Também temos conjuntos relacionados às atividades de formação e produção desenvolvidas no CENARTE ( Centro de Arte Maria de Lourdes Alcalde) além de obras de artistas de orientação contemporânea.
Mas penso que a descoberta mais interessante não está somente em encontrar uma obra desconhecida ou reconhecer um nome importante. Está em perceber as relações que podem surgir entre trabalhos de diferentes épocas, linguagens e trajetórias.
Uma obra conhecida pode ganhar outro significado quando colocada em diálogo com uma obra pouco conhecida, estas obras podem produzir infinitos textos de leitura. Uma gravura pode nos conduzir à história da cidade, à experiência de um artista, a uma questão social ou a uma reflexão sobre a própria condição humana.
O desafio do museu é justamente criar essas aproximações: entre as obras e as pessoas. Queremos que a comunidade descubra o acervo, mas também que descubra novas maneiras de olhar, de pensar e de se relacionar com a arte.
4. Qual é a dimensão e a importância do acervo do MGB no contexto dos museus de arte do Rio Grande do Sul e do Brasil?
A importância do Museu da Gravura Brasileira está relacionada tanto à dimensão de seu acervo quanto à singularidade de sua origem, de sua tipologia e de sua trajetória.
Com mais de 1.700 obras, o MGB reúne um patrimônio artístico que permite acompanhar diferentes experiências da gravura, estabelecer relações entre artistas e linguagens e compreender aspectos significativos da história da arte em Bagé e no Brasil.
Um de seus diferenciais é a presença expressiva de obras relacionadas ao Grupo de Bagé, ao lado de produções de outros artistas brasileiros e de trabalhos vinculados à história da formação artística e do ensino da gravura na cidade. Esse conjunto permite que o museu desenvolva pesquisas, exposições e ações educativas a partir de diferentes perspectivas.
Além disso, por ser um acervo constituído em grande parte por doações, o museu guarda também uma história de confiança, generosidade e compromisso com a preservação da arte. Cada doação contribui para ampliar as possibilidades de pesquisa e para construir uma memória compartilhada.
Um museu do interior não precisa ser compreendido apenas a partir de sua localização geográfica. Ele deve ser reconhecido pela relevância de seu patrimônio, pela qualidade de suas pesquisas, pela capacidade de produzir conhecimento e pelas relações que estabelece com a sociedade.
O MGB tem condições de contribuir para a compreensão da gravura e da arte como linguagem artística e como forma de pensamento, ampliando o reconhecimento da produção de Bagé e sua inserção na história da arte brasileira.
5. Quais obras ou conjuntos do acervo vocês consideram especialmente importantes do ponto de vista histórico?
Um dos conjuntos mais significativos é o das obras relacionadas ao Grupo de Gravura de Bagé, tanto pela qualidade e pela importância histórica de seus trabalhos quanto pela relação que estabelecem com a trajetória artística e cultural da cidade.
Também são importantes os conjuntos vinculados à produção e ao ensino da gravura desenvolvidos no CENARTE, que ajudam a compreender como essa linguagem foi praticada, transmitida e renovada em Bagé. Ao lado deles, temos obras de artistas que contribuíram para a formação de diferentes gerações e trabalhos de orientação contemporânea, que ampliam as possibilidades de leitura do acervo.
Esses conjuntos não devem ser compreendidos isoladamente. Seu valor histórico também está nas relações que podemos estabelecer entre eles: nas aproximações e diferenças entre linguagens, nas transformações dos modos de criar e nas questões que atravessam diferentes momentos da produção artística.
É justamente esse olhar que orienta a exposição Lugares gravados - Grupo de Bagé, no acervo do Museu da Gravura Brasileira. Ao reunir obras e propor relações entre elas, buscamos evidenciar que o acervo não é apenas um conjunto de objetos preservados, mas um campo vivo de pesquisa, interpretação e produção de conhecimento.
A importância histórica de uma obra está também naquilo que ela continua sendo capaz de provocar. A arte preserva marcas de seu tempo, mas não se esgota nele: permanece aberta a novas perguntas, novas sensibilidades e novas leituras.
6. O acervo já circulou por exposições importantes fora de Bagé, inclusive na retrospectiva Os Quatro – Grupo de Bagé, em Brasília. O que significa para um museu do interior emprestar seu acervo para exposições de alcance nacional e internacional?
A circulação de obras do Museu da Gravura Brasileira em exposições de alcance nacional e internacional é uma oportunidade de ampliar o reconhecimento da produção artística do próprio lugar que habitamos, Bagé, e, de situá-la em diálogos mais abrangentes com a história da arte.
Mas penso que o significado mais profundo dessa circulação está na construção de uma consciência histórica e de uma cidadania cultural. Precisamos aprender a reconhecer e valorizar aquilo que produzimos, aquilo que preservamos e aquilo que temos a compartilhar com outras comunidades.
Quando uma obra pertencente a um museu do interior integra uma exposição de maior alcance, ela leva consigo não apenas a trajetória de um artista, mas também parte da história cultural de seu território. No caso do Grupo de Bagé, essa circulação permite que experiências artísticas desenvolvidas aqui sejam conhecidas, estudadas e interpretadas por públicos de diferentes lugares.
Ao mesmo tempo, o empréstimo de obras exige responsabilidade institucional, pesquisa, documentação e condições adequadas de conservação. A circulação precisa estar articulada à missão de preservar o patrimônio e ampliar seu acesso.
A arte é uma forma de estar no mundo, de interpretar a realidade e de projetar outras possibilidades de existência. Valorizar a produção artística de Bagé, do Rio Grande do Sul e do Brasil é reconhecer que a criação cultural não pertence exclusivamente aos grandes centros. Ela acontece em diferentes territórios e tem muito a contribuir para a compreensão de quem somos.
Por isso, queremos que o MGB seja cada vez mais reconhecido como uma instituição capaz de preservar, pesquisar e compartilhar um patrimônio artístico que pertence à história cultural da cidade, mas que também estabelece diálogos com o Brasil e com o mundo.
7. Qual é o público que vocês querem aproximar do museu nesta nova fase?
Todo público é bem-vindo ao Museu da Gravura Brasileira. Queremos que o museu seja um espaço de encontro, descoberta e convivência, aberto a pessoas com diferentes idades, experiências, formações e maneiras de se relacionar com a arte.
Temos um interesse especial em intensificar as ações voltadas aos estudantes, que sempre estiveram presentes na trajetória do museu, e trazem a mochila do futuro. Acreditamos que a aproximação com as novas gerações é fundamental para a continuidade da vida cultural de uma cidade. O contato com a arte amplia o repertório, estimula a sensibilidade, desenvolve o pensamento crítico e permite reconhecer outras formas de interpretar o mundo.
Mas nosso compromisso não se limita ao público escolar. Queremos aproximar o museu da comunidade em geral, de artistas, professores, pesquisadores, famílias e de todas as pessoas que desejem conhecer o acervo e participar de suas atividades.
Um museu de arte não deve ser um lugar distante, reservado a quem já possui conhecimento especializado. Deve ser um espaço em que cada pessoa possa construir sua própria experiência diante das obras, formular perguntas, estabelecer relações e descobrir novos sentidos.
Nesse processo, a arte também contribui para a cidadania. Conhecer a história e a produção cultural de um território ajuda a compreender sua identidade, reconhecer a diversidade de suas experiências e desenvolver um sentimento de pertencimento. A consciência histórica não se constrói apenas por meio de informações: ela também nasce do contato com as imagens, os objetos, as narrativas e as expressões poéticas que nos ajudam a compreender o mundo.
Queremos, portanto, que Bagé reconheça o Museu da Gravura Brasileira como parte de sua vida cultural, e, que o museu se torne cada vez mais presente na formação de seus cidadãos. Um lugar onde a memória possa ser revisitada, o conhecimento compartilhado e a arte continue abrindo caminhos para imaginar e construir outros mundos possíveis.

