Saúde
Ronco e apneia do sono: uma realidade cada vez mais presente
Médico explica as diferenças entre o ronco e a apneia obstrutiva do sono, os sinais que merecem atenção e as possibilidades de tratamento
por Miquéli Romero
Roncar durante o sono pode parecer apenas um incômodo, principalmente para quem divide o quarto ou a cama com outra pessoa. No entanto, em alguns casos, o ronco pode ser um sinal de que existe uma alteração na respiração durante o sono. A apneia obstrutiva do sono é uma condição que merece atenção e tratamento, especialmente diante do aumento de fatores associados, como obesidade e sedentarismo.
O tema é abordado pelo médico otorrinolaringologista Charles Ornela Brum, professor da Faculdade de Medicina da FURG e coordenador da Clínica em Cirurgia Avançada.
Segundo Brum, a procura por atendimento relacionada ao ronco e à apneia tem se tornado cada vez mais frequente. “Ronco e apneia do sono são uma situação clínica cada vez mais presente. Muitos pacientes procuram por esse motivo. Com os fenômenos da atual sociedade, como obesidade e sedentarismo, elevam-se também as ocorrências de ronco e apneia”, explica.
Ronco não é sinônimo de apneia
O ronco é produzido pela vibração das estruturas da região da garganta durante a passagem do ar. O médico ressalta, porém, que uma pessoa que ronca não necessariamente apresenta apneia obstrutiva do sono.
“Ronco é um fenômeno sonoro. Isso não quer dizer que a pessoa que ronca tenha problema de apneia. Mas o ronco pode ser um sinal de alerta de que a pessoa possa estar apresentando também a apneia obstrutiva do sono”, destaca.
Um dos sinais que pode chamar a atenção para a apneia é a observação de pausas na respiração durante o sono. Engasgos, sono aparentemente agitado e episódios em que a pessoa deixa de respirar por alguns segundos podem ser percebidos por quem dorme ao lado.
De acordo com o médico, o relato de um companheiro ou familiar pode ser importante durante a investigação. “O paciente geralmente está acompanhado de alguém que divide a cama com ele ou com ela e vai relatar: ‘ele ou ela dorme mal, se engasga, às vezes faz pausas respiratórias ou somente ronca’”, relata.
Diagnóstico começa pela avaliação clínica
A investigação da apneia obstrutiva do sono não deve ser baseada exclusivamente na realização de uma polissonografia. Conforme o especialista, a avaliação começa pela história clínica e pelo exame físico, que ajudam a identificar os sinais e a necessidade de exames complementares.
“A gente tem condição de fazer o diagnóstico clínico da apneia obstrutiva somente com a anamnese e o exame clínico. A partir dessa investigação, podemos determinar se é somente ronco ou se existe apneia e qual é a necessidade de exames complementares”, afirma.
A polissonografia é um dos exames que pode ser utilizado para avaliar o sono e auxiliar na caracterização do quadro quando indicada. O exame pode monitorar diferentes parâmetros durante o período de sono.
Avaliação individual orienta o tratamento
Depois da investigação inicial, outros aspectos podem ser avaliados, incluindo características anatômicas do paciente. Entre elas estão as proporções do crânio, dos ossos e dos tecidos moles da região da face e da garganta.
Exames realizados em consultório também podem auxiliar na avaliação das vias aéreas e na definição da melhor abordagem para cada paciente. “Com exames de consultório, como um exame de vídeo através do nariz, já conseguimos ter uma ideia muito boa se esse paciente é candidato a uma possível cirurgia para auxiliar no tratamento ou se será um paciente tratado com aparelho”, explica.
Entre as possibilidades está o CPAP, equipamento utilizado durante o sono e que fornece pressão contínua de ar para manter as vias aéreas abertas. O tratamento, entretanto, precisa ser indicado de acordo com a avaliação de cada paciente.
“O CPAP é considerado o tratamento de referência para a apneia obstrutiva do sono. Ele funciona por meio de uma máscara que gera um fluxo com pressão e impede que a garganta feche durante o sono”, detalha.
Nem todos os pacientes conseguem se adaptar ao equipamento. Por isso, segundo o especialista, a avaliação individual é importante para definir se o tratamento será feito com CPAP, por meio de abordagem cirúrgica ou pela combinação de diferentes estratégias.
Condição pode trazer consequências à saúde
A apneia obstrutiva do sono não deve ser encarada apenas como um problema relacionado à qualidade do sono. Quando não identificada e tratada, a condição pode estar associada a diferentes consequências para a saúde cardiovascular e metabólica.
“A apneia do sono é uma grande causa de aumento da pressão arterial, de infarto agudo do miocárdio, de acidentes vasculares isquêmicos, de alterações de colesterol e triglicerídeos e de morte súbita. É um problema sério e deve ser tratado”, alerta o médico.

