Saúde
Desmame: quando é precoce e quando mãe e criança estão prontas para essa nova fase
Pediatra Denise Zandona explica os impactos da interrupção antecipada da amamentação e a importância de respeitar o momento da mãe e da criança
por Miquéli Romero
Mais do que uma forma de alimentação, a amamentação participa do desenvolvimento, da proteção imunológica e da construção do vínculo entre mãe e filho. Por isso, falar sobre desmame envolve não apenas definir quando o bebê deixa de mamar, mas compreender as condições que levam à interrupção do aleitamento e reconhecer quando mãe e criança estão preparadas para essa transição.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde recomendam o aleitamento materno exclusivo até os seis meses de vida. A partir dessa idade, devem ser introduzidos alimentos complementares adequados, mantendo-se a amamentação até os dois anos ou mais. A OMS também recomenda que a primeira mamada aconteça, quando possível, ainda na primeira hora após o nascimento.
Segundo a médica pediatra Denise Zandona, que atende na Clinipampa, o acompanhamento profissional é importante tanto no início da amamentação quanto durante as dificuldades que podem surgir ao longo dos primeiros meses. Para ela, também é necessário falar sobre o momento em que o desmame pode acontecer de maneira gradual e respeitosa.
Os desafios do início da amamentação
O desmame precoce pode estar relacionado a uma série de fatores. Entre eles estão dificuldades na pega e no posicionamento do bebê, dor e fissuras nas mamas, ingurgitamento, mastite e a percepção de que a produção de leite é insuficiente.
A pediatra destaca ainda questões relacionadas ao retorno da mãe ao trabalho, à falta de locais adequados para ordenha e armazenamento do leite, à ausência de uma rede de apoio e às orientações desencontradas recebidas durante o pré-natal e o pós-parto.
Mitos também podem interferir nesse processo. A ideia de que existe “leite fraco” ou de que o bebê não está sendo suficientemente alimentado pode levar à introdução desnecessária de outros leites ou alimentos. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) destaca que a insegurança materna e a falta de orientação sobre o comportamento normal do recém-nascido podem contribuir para a introdução precoce de complementos.
Outro ponto de atenção é a oferta de líquidos ou alimentos antes do período recomendado. A orientação da OMS é de que, nos primeiros seis meses, o bebê receba exclusivamente leite materno, sem água ou outros líquidos, salvo situações específicas avaliadas por profissionais de saúde.
Mais do que alimento
O leite materno fornece nutrientes adequados para o bebê e contém componentes que contribuem para a proteção contra infecções. A amamentação também está associada a benefícios para a saúde materna, incluindo menor risco de câncer de mama e ovário.
A introdução da alimentação complementar, por sua vez, deve ocorrer a partir dos seis meses, enquanto a amamentação pode continuar. A SBP ressalta que o leite materno, sozinho, já não atende a todas as necessidades nutricionais da criança nessa etapa, sendo necessária a inclusão gradual de outros alimentos.
Por isso, desmamar não deve ser confundido com iniciar a alimentação complementar. São processos diferentes. A criança pode começar a receber novos alimentos aos seis meses e continuar mamando por mais tempo.
E quando chega a hora do desmame?
De acordo com Denise, o desmame também precisa ser compreendido como um processo. Geralmente, depois de um ano de idade, a criança pode começar a demonstrar menor interesse pelas mamadas e maior curiosidade por outras atividades e formas de alimentação e conforto.
A SBP aponta alguns sinais que podem indicar que a criança está amadurecendo para o desmame, como ter mais de um ano, demonstrar menos interesse pelas mamadas, aceitar diferentes alimentos e encontrar outras formas de conforto além do peito. O desmame natural tende a acontecer de forma gradual.
Nesse período, a orientação é evitar que a retirada da amamentação coincida com outras grandes mudanças na rotina da criança, como a retirada das fraldas, mudança de residência ou outras situações que possam gerar insegurança.
“É importante que a mãe não se ausente tanto nesse período e dê apoio adicional à criança”, orienta Denise.
A pediatra ressalta ainda que a decisão pelo desmame deve ser respeitada. “O desmame é uma decisão da mãe, que deve ser respeitada e apoiada”, afirma.
Apoio é parte do processo
Para a médica, falar em aleitamento materno também significa olhar para a mãe. A decisão de amamentar e a possibilidade de manter o aleitamento são influenciadas por fatores familiares, sociais, profissionais e pela qualidade das informações recebidas.
Nesse sentido, o papel do pediatra não se limita a acompanhar o crescimento da criança. O profissional também pode auxiliar a mãe diante das dificuldades da lactação, esclarecer dúvidas e identificar situações em que uma intervenção ou suplementação realmente seja necessária.
A SBP orienta que fórmulas infantis não sejam utilizadas de maneira desnecessária e que a equipe de saúde esteja preparada para diferenciar dificuldades comuns da lactação de situações que exigem intervenção.
Em 2026, a Semana Mundial de Aleitamento Materno, realizada de 1º a 7 de agosto, adotou o tema “Amamentação para um começo de vida sustentável: Fortaleça o que funciona”. A proposta da campanha é ampliar e fortalecer estratégias que comprovadamente apoiam mães e bebês, envolvendo serviços de saúde, famílias, comunidades e ambientes de trabalho.
Assim, tanto no começo quanto no final da amamentação, informação e apoio fazem diferença. Se o desafio inicial é garantir que mãe e bebê tenham condições para estabelecer a amamentação, no outro extremo está a necessidade de reconhecer quando a dupla está pronta para iniciar uma nova etapa.

