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Saúde

Parar de fumar: tratamento pelo SUS acolhe bajeenses que querem abandonar o cigarro

Em Bagé, CAPS AD funciona como porta de entrada para o grupo de tabagismo, que oferece acompanhamento multiprofissional e medicamentos pelo SUS

Em 21/09/2026 às 07:18h
Miquéli Romero

por Miquéli Romero

Parar de fumar: tratamento pelo SUS acolhe bajeenses que querem abandonar o cigarro | Saúde | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
Foto: Audrin Quadros

Parar de fumar pode ser uma decisão difícil, especialmente quando o cigarro já faz parte da rotina há anos. A dificuldade, porém, não deve ser interpretada como falta de força de vontade. A nicotina provoca dependência química e, por isso, o abandono do cigarro pode exigir acompanhamento profissional.

Em Bagé, pessoas que desejam parar de fumar podem procurar diretamente o Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD), que funciona como porta de entrada para o tratamento oferecido pelo município. Não é necessário encaminhamento. O serviço atende de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h.

Segundo a médica Fernanda Farias, que realiza o acompanhamento dos pacientes tabagistas no CAPS AD, o primeiro passo é procurar o serviço e deixar o nome para participar do grupo de tabagismo. A partir disso, o paciente é chamado para iniciar o acompanhamento.

Atualmente, o município mantém dois grupos ativos, com aproximadamente 25 participantes em cada um. Os grupos são conduzidos por psicóloga, com acompanhamento médico e prescrição de medicamentos, além da participação da assistente social e das enfermeiras.

Dependência vai além do hábito

Quando uma pessoa fuma, a nicotina chega rapidamente ao cérebro e estimula a liberação de substâncias relacionadas à sensação de prazer, recompensa e bem-estar. Com o uso repetido, o organismo se adapta à presença da substância e passa a exigir sua continuidade.

“É preciso entender que o tabagismo é uma doença, que se chama dependência química e precisa de acompanhamento e tratamento”, explica Fernanda.

A intensidade da dependência não é determinada apenas pelo número de cigarros consumidos diariamente. Entre os fatores avaliados pelos profissionais estão o tempo entre acordar e fumar o primeiro cigarro, a quantidade de cigarros utilizada por dia, a presença de sintomas de abstinência e o histórico de tentativas anteriores de cessação.

Um dos instrumentos utilizados na avaliação clínica é o Teste de Fagerström, que auxilia na identificação do grau de dependência à nicotina.

Os efeitos atingem todo o organismo

O tabagismo está relacionado a problemas de saúde que atingem diferentes órgãos e sistemas. Entre as doenças associadas ao consumo estão as cardiovasculares, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC), doenças pulmonares, como a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e o enfisema pulmonar, além de diversos tipos de câncer.

Mesmo para quem fuma há muitos anos, interromper o consumo traz benefícios desde o início. De acordo com Fernanda, pacientes acompanhados pelo grupo relatam mudanças já nas primeiras semanas.

“Nos nossos grupos sempre tem pacientes relatando que em duas semanas após diminuir ou cessar o tabaco já se sentem menos cansados”, relata.

Com o passar do tempo, também podem ocorrer benefícios como melhora da circulação e dos sintomas respiratórios.

Parar de uma vez ou reduzir?

O tratamento orientado pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) contempla tanto a cessação imediata quanto a redução gradual do consumo. Na experiência da médica, porém, a interrupção completa do cigarro tende a facilitar a continuidade do processo para muitos pacientes.

Independentemente da estratégia adotada, o tratamento começa com a elaboração de um plano de cessação e acompanhamento das dificuldades encontradas pelo paciente.

Nos primeiros dias, podem aparecer sintomas relacionados à abstinência da nicotina, como irritabilidade, ansiedade, inquietação, dificuldade de concentração, alterações no sono, aumento do apetite e uma vontade intensa de fumar. A intensidade e a duração dessas manifestações variam de pessoa para pessoa.

Durante os encontros do grupo, os participantes aprendem estratégias para enfrentar esses momentos, como exercícios de respiração e atividades para serem realizadas quando a vontade de fumar aparece.

Tratamento também pode incluir medicamentos

Quando há indicação médica, o tratamento pode ser associado a medicamentos fornecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Entre as opções utilizadas estão a bupropiona, administrada por via oral, e as terapias de reposição de nicotina, como adesivos e goma de mascar.

A necessidade de medicação é avaliada individualmente. O acompanhamento também permite identificar outras questões que podem interferir no processo de cessação, como ansiedade e insônia, que podem receber tratamento quando indicado. "Em alguns casos a dependência da nitocina é por um motivo de ansiedade por exemplo, aí a gente também inicia um tratamento para a ansiedade", esclarece a médica.

Recaída não significa fracasso

Uma das dificuldades enfrentadas por quem tenta parar de fumar é lidar com uma eventual recaída. Para Fernanda, entretanto, voltar a fumar não significa que o tratamento fracassou. “A recaída não é o fracasso. Cada tentativa também ensina alguma coisa sobre os seus gatilhos e sobre o que precisa ser trabalhado”, afirma.

Nesse processo, a participação de familiares e amigos também pode fazer diferença. A orientação é evitar fumar próximo da pessoa que está tentando abandonar o cigarro. O cuidado inclui até mesmo evitar o contato imediato com o cheiro do cigarro impregnado em roupas após fumar.

Além do apoio de pessoas próximas, espaços de convivência e compartilhamento de experiências também podem ser procurados. Em Bagé, o grupo de Alcoólicos Anônimos (A.A.) oferece reuniões presenciais e virtuais. Embora a Irmandade tenha como finalidade a recuperação de pessoas que desejam parar de beber, as reuniões podem representar um espaço adicional de acolhimento e troca de experiências.

O A.A., entretanto, não substitui o acompanhamento específico para a dependência de nicotina. Para quem deseja parar de fumar, o serviço de referência oferecido pelo município é o CAPS AD, onde ocorre o acolhimento e o encaminhamento para o grupo de tabagismo.

Vape também exige atenção

O atendimento não é destinado somente a quem fuma o cigarro convencional. Pessoas que utilizam cigarros eletrônicos, vapes ou outros produtos de nicotina também podem procurar o serviço para receber acompanhamento.

A médica reforça que não existe necessidade de esperar uma situação ideal para buscar ajuda. “O momento ideal é agora, sem pensar duas vezes”, orienta.

Para quem acredita que não conseguirá abandonar o cigarro, a mensagem é de que a dependência pode ser tratada. E, para quem já tentou outras vezes, uma nova tentativa também pode fazer parte do processo.

“Não é falta de força de vontade. É uma dependência que pode ser tratada, e nunca é tarde para tentar novamente ou para tentar pela primeira vez. Você não precisa fazer esse caminho sozinho”, destaca Fernanda.

Onde encontrar apoio?

O CAPS AD fica localizado na Rua General Osório, 352. O horário de funcionamento é de segunda à sexta das 8h às 18h. Já o Grupo de Apoio do Alcoólicos Anônimos em Bagé, funciona na Avenida Marechal Floriano, nº 1.065, Centro, em anexo à Igreja do Crucificado. Para mais informações entra em contato pelo WhatsApp: (53) 99926-1680. Os serviços são disponibilizados gratuitamente e preservam o anonimato dos participantes. 

 

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