Saúde
Chimarrão: tradição gaúcha exige cuidados com temperatura e saúde digestiva
Médico orienta sobre temperatura da água, consumo moderado e atenção para pessoas com gastrite, refluxo e úlcera
por Miquéli Romero
Presente no cotidiano de muitos gaúchos, o chimarrão é mais do que uma bebida: faz parte da cultura e da tradição do Rio Grande do Sul. Durante a Semana Farroupilha, quando a presença da cuia se torna ainda mais frequente, também é importante lembrar que alguns cuidados podem fazer diferença para preservar a saúde.
De acordo com o médico Dr. César Mello, cirurgião geral, o principal cuidado está na temperatura da água utilizada no preparo do chimarrão. A orientação é que ela não ultrapasse os 65 °C. “O principal é a temperatura da água”, destaca o médico.
O alerta está relacionado principalmente ao esôfago. O consumo frequente de bebidas muito quentes pode provocar lesões na mucosa do órgão. A Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), classifica o consumo de bebidas em temperaturas superiores a 65 °C como provavelmente carcinogênico para humanos, devido à associação observada com o câncer de esôfago. A avaliação aponta que o fator de risco está relacionado à temperatura, e não especificamente à erva-mate.
Quando a água começa a “chiar”
Para quem não tem um termômetro à mão, Mello explica que é possível usar uma referência tradicional para evitar que a água seja utilizada excessivamente quente.
“Como diz o gaúcho, quando ela começar a chiar é sinal que ela está no ponto ideal para ser servida”, explica.
A recomendação é retirar a água antes da fervura e aguardar até que esteja em uma temperatura adequada para o consumo. A IARC também orienta limitar o consumo de bebidas muito quentes e esperar alguns minutos até que o líquido deixe de estar quente a ponto de queimar a boca ou a língua.
Erva-mate pode estimular a atividade digestiva
Apesar do alerta relacionado à temperatura, o médico explica que a erva-mate, por si só, não é considerada prejudicial ao sistema digestivo para pessoas que não possuem restrições específicas.
A bebida contém compostos bioativos, como polifenóis e cafeína, que apresentam propriedades antioxidantes. Estudos sobre a erva-mate também identificam compostos associados a efeitos antioxidantes e metabólicos, embora a intensidade desses benefícios possa variar e parte das evidências ainda tenha limitações.
Segundo Mello, o chimarrão pode atuar sobre a atividade gastrointestinal. A erva-mate não possui uma função laxativa propriamente dita, mas a cafeína e outros componentes podem estimular o funcionamento digestivo e, para algumas pessoas, facilitar a evacuação.
Por isso, tradicionalmente, o chimarrão também é associado à digestão. Para algumas pessoas, o consumo depois das refeições pode proporcionar essa sensação, mas a resposta é individual.
Quem tem gastrite ou refluxo deve ter atenção
O cenário muda para quem possui determinadas doenças do sistema digestivo. Pessoas com gastrite, úlcera, refluxo ou esofagite podem apresentar piora de sintomas após o consumo da bebida.
“Ele pode incrementar os sintomas da pessoa se sentir mal”, explica Mello, citando manifestações como azia, queimação, dor e desconforto abdominal.
Nesses casos, o médico recomenda evitar o chimarrão e buscar avaliação profissional. Se uma pessoa percebe que sempre apresenta desconforto após consumir a bebida, a orientação é não insistir no consumo e procurar um gastroenterologista para investigar a causa.
Moderação também vale para o mate
Não existe, segundo o médico, uma quantidade diária exata de chimarrão que possa ser estabelecida como ideal para todas as pessoas. “Cada pessoa é uma pessoa”, explica.
Enquanto algumas pessoas se satisfazem com poucas cuias, outras consomem a bebida durante várias horas. A recomendação, entretanto, é evitar excessos.
Outro ponto de atenção é o horário. Como a erva-mate contém cafeína, o consumo próximo ao período de dormir pode interferir no sono. Mello recomenda evitar o chimarrão nas horas que antecedem o descanso noturno.
Chimarrão ajuda na hidratação, mas não substitui a água
A bebida também contribui para a ingestão de líquidos, mas isso não significa que possa substituir completamente a água ao longo do dia.
Assim, mesmo para quem mantém a tradição da cuia, a orientação é continuar consumindo água regularmente.
Tradição com cuidado
Para o gaúcho que não abre mão do chimarrão, Mello resume os principais cuidados em três pontos: moderação, atenção à temperatura da água e cuidado redobrado para quem possui doenças do sistema digestivo.
A erva-mate pode fazer parte da rotina de pessoas saudáveis, mas a tradição não precisa significar o consumo da bebida excessivamente quente. Na Semana Farroupilha ou em qualquer época do ano, o cuidado começa antes mesmo da primeira cuia: na temperatura da água.

