Minuano Conecta
A memória guardada no campo
Segunda edição de As Estâncias Contam a História recupera o registro de 45 propriedades rurais de Bagé e será lançada em setembro, durante a 114ª Expofeira
por Melissa Louçan
Há histórias que não cabem em uma fotografia. Precisam do nome de quem viveu nelas, das mudanças de uma família para outra, das perdas, das escolhas e dos motivos que fizeram uma propriedade permanecer de pé por décadas. Foi atrás dessas histórias que Yara Maria Botelho Vieira percorreu estâncias de Bagé há mais de 20 anos. O resultado foi o livro As Estâncias Contam a História, lançado originalmente em 2005 e agora de volta às mãos dos leitores.
A segunda edição será lançada no dia 25 de setembro, no Salão Nobre da Associação Rural de Bagé, durante a programação da 114ª Expofeira de Bagé. A obra mantém o recorte original, com o registro de 45 propriedades rurais, mas retorna às estantes depois de um intervalo em que muita coisa mudou, inclusive dentro das próprias famílias retratadas.
A ideia nasceu quando Yara conheceu, em Uruguaiana, um trabalho semelhante sobre as estâncias daquele município. Ela havia ido à cidade para visitar o filho, mas acabou participando do lançamento, que reunia 50 propriedades e havia levado cerca de 500 pessoas ao Sindicato Rural. Naquele dia, conheceu também Carlos Fonttes, escritor e artista plástico responsável pelas ilustrações da publicação.
“O que me motivou nesse assunto foi o título. Quando eu fui pela primeira vez a Uruguaiana, no lançamento do livro As Estâncias Contam a História, pronto, aquilo entrou para a minha mente, para o meu coração e nunca mais saiu”, conta.
A ideia foi trazida para Bagé. O trabalho começou com pesquisa, entrevistas e visitas às propriedades. Yara não partiu de uma lista fechada de estâncias que necessariamente entrariam no livro. Procurou dezenas de proprietários e deixou que a participação fosse sendo construída ao longo do caminho.
Foram cerca de três anos entre pesquisa e preparação do material. O trabalho exigia tempo e, sobretudo, delicadeza diante daquilo que cada proprietário estava disposto a compartilhar.
A primeira edição reuniu textos e pesquisas de Yara, além das ilustrações de Fonttes, com desenhos em bico de pena e pinturas a óleo feitas a partir de fotografias das propriedades. O livro tornou-se, também, um registro visual de uma paisagem que não permanece exatamente igual.
Mas a relação de Yara com esse universo, porém, não começou com a pesquisa. Ela é parte dele. Proprietária da Estância do Limoeiro, cresceu cercada por uma história familiar que também atravessa as páginas do livro. Quando decidiu registrar outras estâncias, portanto, havia também uma familiaridade com aquele modo de vida e com as histórias que se formam ao redor da terra.
A obra foi registrada em 2003 como parte do Projeto Pró-Memória Histórica das Propriedades Rurais de Bagé e publicada em 2005, com 216 páginas dedicada à memória, à história e às propriedades rurais de Bagé.
História contínua
A decisão de fazer uma segunda edição veio, em grande parte, da procura pelo livro. Escolas, instituições e famílias passaram a pedir exemplares ao longo dos anos. Em alguns casos, os próprios descendentes das pessoas retratadas na primeira edição já não tinham mais nenhum volume.
Yara conta que muitos exemplares foram distribuídos às famílias participantes. Vinte anos depois, alguns filhos e netos haviam levado os livros consigo. A procura continuou. Foi esse movimento que fez a professora pensar que talvez fosse o momento de colocar a obra novamente em circulação.
A nova edição não acrescenta novas estâncias. Esse intervalo de 20 anos acabou dando outro significado ao livro. Algumas propriedades agora estão sob responsabilidade de filhos, netos ou bisnetos daqueles que receberam Yara e sua equipe no início dos anos 2000. A permanência das famílias na terra aparece como um dos fios que atravessam a obra. “Muitas e muitas pessoas ainda vão se beneficiar desse trabalho”, explica.
Ela percebe essa continuidade também nas transformações recentes da região. Oliveiras, azeites, uvas, vinhos e outros produtos passaram a ocupar espaço em propriedades rurais que têm uma história muito anterior a essas novas atividades. Para a pesquisadora, há uma relação entre o que os antigos proprietários fizeram com a terra e o que as novas gerações conseguem produzir nela. “Eles exploraram a terra, mas não a esgotaram. Eles viveram na terra, mas permitiram que essa terra fosse servir também a gerações futuras”, afirma.
As estâncias não estavam próximas umas das outras como os pequenos municípios ou propriedades de outras regiões do Estado. Havia deslocamentos que podiam consumir um dia inteiro ou mais. Esse isolamento contribuiu para a formação de uma maneira particular de viver. Os povoados também foram se formando a partir dessas relações entre proprietários, trabalhadores e famílias que viviam no entorno das estâncias.
Para a autora, as estâncias não são apenas construções ou unidades produtivas. São pontos de onde se pode observar a formação social da região. Por não estarem próximas umas das outras, havia deslocamentos que podiam consumir um dia inteiro ou mais. Esse isolamento contribuiu para a formação de uma maneira particular de viver. Os povoados também foram se formando a partir dessas relações entre proprietários, trabalhadores e famílias que viviam no entorno das estâncias.
Há, ainda, uma presença que, segundo ela, precisa ser reconhecida: a das mulheres. Enquanto os homens deixavam as propriedades para participar das revoluções e conflitos, muitas mulheres permaneciam nas estâncias e assumiam tarefas necessárias à continuidade da vida no campo. A lembrança de mulheres da própria família serve como referência para essa percepção.
A memória, nesse caso, não está somente nos grandes acontecimentos. Está também naquilo que alguém precisou fazer todos os dias para que uma casa permanecesse funcionando, uma propriedade continuasse produzindo e uma família pudesse atravessar uma geração até a seguinte. “Os que conheço mais intimamente, vamos dizer, uns 80%, 90%, todos têm um sentido de compromisso. Manter, porque é importante; manter porque o avô, a avó, o bisavô, a mãe e o pai se empenharam; manter porque meus filhos vão precisar, como eu precisei”, resume Yara. Esse é o compromisso da nova edição: não congelar o passado, mas deixá-lo à disposição de quem vier depois as histórias que ainda podem ser contadas a partir dele.

