Projeto & Construção
Um espaço para escrever histórias
>>> Arquitetura, memória e identidade em um ambiente projetado para um escritor bajeense
por Viviane Becker
>>> Arquitetura, memória e identidade em um ambiente projetado para um escritor bajeense
Para um escritor, o espaço de trabalho não é apenas um lugar onde se escreve. É também um lugar de memória, pesquisa, criação e construção de novas histórias. Partindo dessa ideia, a Arvena Arquitetura desenvolveu o projeto de um escritório para um escritor bajeense, transformando o ambiente em uma extensão de sua personalidade, de sua trajetória e do universo presente em sua produção literária.
Autor de obras como Carancho (2023), Ainda que a terra se abra (2020), Andarilhos (2017) e Noite Escura (2009), além dos e-books Contos Sangrentos e A Tropeada, o escritor possui uma produção marcada por diferentes narrativas e referências. O projeto buscou traduzir parte desse universo para a arquitetura, criando um espaço que pudesse funcionar tanto para sua rotina de trabalho quanto como cenário para gravações.
A proposta partiu de um elemento que já carregava uma história própria: um antigo móvel pertencente ao escritor. Em vez de substituí-lo, a arquitetura foi desenvolvida a partir dele, incorporando a peça ao novo ambiente e preservando seu valor afetivo. O móvel passou a ocupar posição de destaque na composição, cercado por uma nova marcenaria planejada que abriga a biblioteca e organiza o espaço de trabalho.
Essa escolha estabelece uma relação direta entre o antigo e o novo. A peça existente mantém suas características e sua identidade, enquanto a marcenaria contemporânea cria uma espécie de moldura arquitetônica para recebê-la. O resultado é um ambiente em que a memória não aparece apenas como elemento decorativo, mas como parte fundamental do conceito do projeto.
A paleta de cores foi construída a partir de tons profundos de verde, combinados à madeira e a uma iluminação quente, criando uma atmosfera clássica, acolhedora e atemporal. O piso em madeira, a biblioteca repleta de livros e a presença de mobiliário de linguagem tradicional reforçam a sensação de um escritório particular, pensado para permanecer atual sem perder seu caráter histórico e pessoal.
No centro do ambiente, a grande escrivaninha organiza o espaço e assume o papel de protagonista. É ao redor dela que acontece a principal atividade do escritório: a escrita. Ao mesmo tempo, sua posição central permite que o ambiente seja utilizado para gravações, fazendo com que a própria arquitetura passe a integrar a comunicação do escritor e sua presença no meio digital.
Outro elemento marcante é a coleção de objetos que ocupa as paredes. Peças relacionadas ao universo equestre, registros familiares, livros e objetos pessoais ajudam a construir uma narrativa visual que ultrapassa a estética. São referências à trajetória do escritor e às histórias que fazem parte de seu repertório, trazendo para dentro do escritório fragmentos de sua vida e de sua produção.
Espaço com IDENTIDADE
Nesse sentido, o projeto não buscou criar simplesmente um escritório com estética clássica. A intenção foi construir um ambiente com identidade. Um espaço que pudesse ser reconhecido como pertencente àquele escritor, onde cada elemento tivesse uma razão de estar ali e contribuísse para contar sua história.
Para a Arvena Arquitetura, projetos como esse reforçam a importância de compreender o usuário antes de definir formas, cores e materiais. A arquitetura ganha significado quando consegue traduzir quem vive o espaço, incorporando suas memórias, objetos, hábitos e referências.
Neste escritório, a arquitetura funciona quase como uma biblioteca de memórias: preserva o que já existia, organiza o presente e cria o cenário para as próximas histórias. Um espaço pensado não apenas para escrever, mas para continuar construindo uma trajetória que já faz parte da cultura e da identidade de Bagé.
fotos Verônica M. De Sá Ferreira

