Cidade
Aparecimento de capivaras em áreas urbanas chama atenção em Bagé
por Érica Alvarenga
Por Érica Alvarenga
Acadêmica de Jornalismo
Uma capivara foi atropelada na noite de quarta-feira, 19, na Avenida Santa Tecla, em Bagé. O animal foi encontrado ferido e precisou ser resgatado após a colisão. Apesar do atendimento realizado, o animal não resistiu aos ferimentos e morreu.
O caso chama atenção pois, poucos dias antes, outra capivara já havia sido vista circulando na área urbana do município, na Avenida Tupy Silveira. Os episódios levantam questionamentos sobre a presença frequente de animais silvestres em áreas urbanas e sobre os cuidados que devem ser adotados pela população.
O atendimento da ocorrência do atropelamento foi acompanhado pela comissária da Polícia Civil e responsável pelo Cartório de Crimes Ambientais, Patrícia Coradini. Segundo ela, o chamado ocorreu antes das 21h e, quando a equipe chegou ao local, a capivara apresentava dificuldades para se locomover em razão do impacto.
O resgate foi realizado pela veterinária Caroline Ferreira e pelo motorista Valdomiro Colares, que estavam de plantão pela Secretaria de Municipal de Meio Ambiente e Proteção ao Bioma Pampa (Semapa), dentro da estrutura de atendimento mantida em parceria com o Núcleo Bageense de Proteção aos Animais (NBPA) e com a Coordenadoria do Bem-Estar Animal (CBEA).
Falta de estrutura especializada
Patrícia explica que, diante da falta de um local específico em Bagé para receber animais silvestres feridos, são buscadas alternativas para garantir o atendimento inicial e, quando possível, o encaminhamento para outras cidades.
“Esses casos com animal silvestre são sempre delicados. No caso dessa capivara, eu a abriguei na minha casa. Mas em outras situações eu costumo abrigar esses silvestres também na própria delegacia. Eles ficam sob os cuidados veterinários e eu mantenho contato com os biólogos do Núcleo de Reabilitação da Fauna Silvestre e Centro de Triagem de Animais Silvestres, que fica em Pelotas”, explica.
Ainda de acordo com a comissária, em alguns casos, quando os ferimentos são leves e o animal de recupera rapidamente, ele pode ser devolvido à natureza. Já em casos mais graves, os animais ficam temporariamente recebendo os cuidados necessários até que seja possível encaminhá-los para um centro especializado.
Atualmente, segundo ela, aves são os animais silvestres que mais chegam para atendimento, mas a equipe já precisou lidar com diferentes espécies, entre elas, capivaras, porcos-espinhos e zorrilhos.
A situação evidencia a dificuldade enfrentada no município e na região: a ausência de um Centro de Triagem de Animais Silvestres em Bagé. “Uma das minhas lutas é justamente essa, ter um centro de triagem na nossa região, com estrutura física adequada para esses atendimentos e profissionais habilitados”, afirma.
Enquanto a estrutura especializada não existe no município, o atendimento acaba dependendo de uma rede formada por profissionais, órgãos públicos e pessoas que atuam de forma voluntária nos resgates.
Avistamento frequente da espécie na área urbana
A presença das capivaras em duas das principais avenidas da cidade não significa que os animais estejam “invadindo” a cidade. A avaliação é da bióloga, professora do curso de biologia e gerente acadêmica dos colégios da Urcamp, Tamyris Ramos, que explica que o processo também precisa ser analisado a partir da expansão das áreas urbanas sobre os ambientes naturais utilizados pela fauna.
“Não é a capivara que está invadindo a cidade. É a cidade que cresce sobre o caminho dela, sobre o local onde ela vive” explica.
Tamyris aponta que as condições ambientais recentes podem estar entre os fatores que influenciam o deslocamento desses animais. Após um período de estiagem, o aumento expressivo das chuvas modifica os ambientes onde esses animais vivem, especialmente áreas próximas a banhados e corpos d’água.
Com a elevação do nível das águas, áreas utilizadas por pelos animais podem ficar alagadas, fazendo com que eles se desloquem para locais mais altos. Em determinadas situações, esses locais podem estar próximos ou até dentro da área urbana.
A bióloga ressalta, porém, que essa é uma possibilidade baseada no comportamento da espécie e em registros semelhantes, não sendo possível afirmar que esse tenha sido especificamente o motivo do deslocamento desses animais.
Outro comportamento natural também pode explicar a presença de alguns indivíduos isolados. Capivaras jovens, especialmente machos, podem se dispersar, do grupo em busca de outros locais e, durante esse deslocamento, acabar chegando em áreas urbanizadas.
O que fazer ao se deparar com uma capivara?
Por mais que a espécie desperte curiosidade e seja considerada um animal dócil por muitas pessoas, Tamyris reforça que a capivara continua sendo um animal silvestre e não deve ser manuseada pela população.
A orientação é não se aproximar, não tentar tocar ou capturar o animal e não permitir que cães ou outros animais domésticos cheguem perto. Em caso de presença em vias públicas, a recomendação é acionar os órgãos ou serviços responsáveis pelo atendimento.
Patrícia também reforça que, ao encontrar um animal silvestre ferido, a população não deve simplesmente deixá-lo no local.
“O recomendado é acionar a Guarda Civil Municipal, a Patrulha Ambiental ou a CBEA. Pode também entrar em contato direto comigo, com o Vet Container ou com o NBPA que a gente dá um jeito de atender. O que a gente não pode é deixar o bicho sem atendimento, sofrendo na rua”, afirma.
No caso de animais atropelados, a orientação é evitar tentar realizar o resgate sem conhecimento técnico, principalmente quando há risco de novos acidentes ou de ferimentos. O mais importante é buscar auxílio especializado e manter distância até que o atendimento seja realizado.
Atenção redobrada nas vias próximas a banhados
A presença de capivaras na região exige atenção dos motoristas, principalmente em trechos próximos a arroios, banhados e outros corpos d'água. Em locais onde há registro da presença desses animais, a recomendação é reduzir a velocidade e manter atenção à movimentação às margens da via.
No caso da Avenida Santa Tecla, a bióloga destaca justamente a existência de áreas de banhado na região como um fator que deve ser considerado pelos motoristas.
Outro ponto levantado por Tamyris é a necessidade de que intervenções em arroios e áreas naturais sejam realizadas com acompanhamento técnico. Segundo ela, ações de limpeza nesses ambientes precisam considerar a fauna que vive no local, para evitar que alterações no habitat provoquem novos deslocamentos de animais.
“Nós estamos mexendo na casa desses animais. E o que eles vão fazer? Eles vão ir para onde eles conseguem”, explica.
O atropelamento registrado na Avenida Santa Tecla termina, assim, como um alerta para uma realidade que vai além da ocorrência. A presença de animais silvestres em áreas urbanas exige atenção, respeito à fauna e uma rede preparada para o atendimento desses animais quando eles estiverem em situação de risco.
Ao invés de tentar interagir ou realizar o resgate por conta própria, a orientação é manter distância, evitar novos riscos e procurar auxílio especializado.

